O homem é
medroso por natureza. Usa amuletos para “espantar” esse medo no sentido que
“todos os homens têm medo e aquele que não tiver medo, não é normal” (DELUMEAU,
1989, p. 147). A insegurança é o símbolo da vida, sendo ela símbolo de morte. O
homem sabe muito cedo que morrerá com um medo único, idêntico a si mesmo, algo
imutável.
O medo é
ambíguo, é uma defesa natural que garantimos contra o perigo, um reflexo que
permite ao organismo fugir da morte; “sem o medo nenhuma espécie teria
sobrevivido...” (DELUMEUA, 1989, p. 147). Mas se ultrapassado, pode tornar algo
patológico e bloqueador; identificado como covardia, a qual não se poderia
proteger com antecedência.
O medo
tornou-se causa da evolução do individuo, no entanto a regressão para o medo é o
perigo que espreita constantemente o sentimento religioso; podendo os separar,
distanciando o homem do mundo exterior.
Portanto,
podemos declarar que o medo é o pior inimigo enfrentado pelo homem; uma atitude
que percorre além da individualidade, um exemplo claro é a batalha da sociedade
medieval contra o medo. Mas os historiadores não precisam procurar muito, para
identificar a presença do medo, nos comportamentos dos grupos; seja dos povos
antigos ou das sociedades contemporâneas.
É muito
difícil analisar o medo e aumenta a dificuldade, quando se trata de passar do
estudo do medo individual para o medo coletivo. Para facilitar a análise podemos
tratar de um estudo da versão mística que possibilita qualquer um de nós a
morrer de medo; característica do pânico quando se manifesta uma energia que se
difunde por todo o organismo do indivíduo.
Tratando-se
do medo coletivo é provável que as reações de uma multidão tomada de pânico ou
que libera subitamente sua agressividade resultando em grande parte da adição de
emoções e choques. O medo torna-se operatório no nível coletivo, a partir da
distinção que a psiquiatria agora estabeleceu, no plano individual, entre medo e
angústia, tratando de dois pólos, o medo tem como objetivo determinar onde pode
fazer frente. A angústia não tem particularidade especifica e é vivida como uma
espera, dolorosa diante de um perigo tanto mais terrível, sendo um sentimento
global de insegurança. (Delumeau, 1989, pp.100 - 40)
Alguns
“medos”, porém, são comuns á coletividade. A noite, o escuro, o negro, por
exemplo, sempre foi associado pelo Ocidente como algo negativo, ligado ao
inferno e á satã.
Atormentada
por querelas religiosas, tudo a noite era suspeito. As cidades conseguiam
afastar completamente o medo para fora de seus muros, ao mesmo tempo enfraquecia
este medo tornando possível conviver com ele. Mesmo com o complicado mecanismo
de proteção, os indivíduos, seja de forma individual, seja de forma coletiva,
mantiveram um diálogo permanente com o medo da noite e da escuridão.
Outro medo
comum á coletividade antiga e medieval estava relacionado ao mar; vários povos o
temiam; pois aquela; imensidão líquida poderia trazer a peste negra, invasões e
outros perigos. A metáfora da fúria, todos os símbolos, animais que se relaciona
com a fúria e raiva faziam parte do imaginário a respeito do mar.
Desde Homero
e Virgilio até Franciade e os Lusíadas, não há nenhuma epopéia, se tempestade,
figura com destaque em romance medieval. As metáforas do mar tranqüilo e bom
serão, portanto em números menores do que o mar bravo; sendo a tempestade não
apenas temas literários e imagem das violências humanas; é também em primeiro
lugar fato de experiência, relatada por todas as crônicas, a navegação para a
terra santa. (DELUMEAU, 1989, pp. 41-4)
O mito
também ganha espaço na representação do mar; aparecendo relatos de monstros que
se alimentavam de humanos, como Polifen, Cila, Circe, as sereias, Leviatã e
Lorelei. Outra visão mitológica esta relacionada aos textos, apocalípticos
clássicos, que na origem da sua demência suspeitava de feiticeiras e demônios,
pois o mar é freqüentemente representado como o domínio privilegiado de Satã e
das potências infernais. No fim do mar, acreditava-se que era também o fim do
mundo e associava-se a ideia de que também encontraria no final dele a passagem
para o inferno; um abismo profundo, local do medo, da morte, da demência, onde
vive Satã, os demônios e os monstros. Assim, um dia o mar desaparecerá quando
toda a criação for regenerada. (DELUMEAU, 1989, pp. 41-7)
Portanto,
até as descobertas e vitórias das técnicas modernas e novos conhecimentos
cartográficos, o mar era associado na sensibilidade coletiva como um dos
principais medos da coletividade.
Na
mentalidade coletiva, a vida e a morte não apareciam separadas em um corte
nítido; os mortos permanecem entre nós como seres meio material e meio
espiritual uns são bons para fazer a vontade de Deus, outros ao contrário, traz
para a terra, “pestes, tempestades e trovão”, fazendo sons no ar para provocar
susto. No que o contexto nos mostra, podemos perceber a concepção da Igreja e
uma separação radical da alma e do corpo no momento da morte. (DELUMEAU, 1989,
pp. 107-12)
Com o
processo da duvida, foram pouco a pouco os homens da Igreja, a desconfiarem mais
da aparição dos mortos. No final do século VIII e no começo do século XVIII, os
fantasmas que provocavam epidemias de medo, eram os vampiros; onde o temor dos
mesmos continuava no século XIX na Romênia o país do Dracúla.
Voltando no
contexto, não podemos esquecer da peste que envolvia o comportamento coletivo,
provocando o medo e o pânico; episódio que ataca a Europa, sempre desaparecendo
e reaparecendo criando um estado de “nervosismo e medo na população”. A peste
era vista como um pesadelo que vinha junto com a fome e a guerra, uma “praga”
que ataca o mundo, que envolve a violência, sendo vista por diversos povos como
impetuosa, com um ideal de punição divina.
Percebe-se
que as epidemias provocavam interrupção na morte, ocorrendo abolição dos ritos
coletivos de alegria e de tristeza, pois o número de mortos e o pânico de morrer
limitavam a ritualização dos indivíduos; essas rupturas brutais com o uso
cotidiano são acompanhadas de impossibilidade radical dos planejamentos de
mecanismo de defesa contra a doravante peste.
A violência
é uma inquietação coletiva, onde cresce um “medo global”, gerador de pânico e
repulsa. A fome também é um medo comum na Idade Média o qual provoca apreensão
nas estações, ao escoamento dos meses, até mesmo dos dias; em tempo de crise,
provocava pânico, medo e desembocarando á loucura e acusações.
Mas havia
também a morte na guerra, (morte antecipada), momento supremo do cavaleiro, que
alegremente se dirigia na sua direção. Uma morte antecipada em nome da fé que
tem por objetivo a salvação da alma e a vida eterna no paraíso. Tal prática
fazia parte dos mecanismos de defesas utilizados pelo homem medieval.
Como o mundo
dos vivos estava ligado ao dos mortos, o papel dos mosteiros era exatamente o de
interlocutor junto do além pela sociedade terrestre. Na Idade Média a morte foi
assimilada nos corações. Desejada pelos guerreiros, aguardada pelos religiosos,
a morte foi sentida como um rito de passagem para um outro mundo, o além. Os
medievais entendiam o além como uma realidade. Foi o tempo do além, e a
preocupação com a morte, algo constante nas suas vidas. O além é o espaço
espelho da sociedade que o imagina e recria constantemente esta realidade. No
entanto, ele deixou de ser a razão da própria existência, para passar a ser a
chantagem para a imposição das regras e dos dogmas religiosos. Ocorrendo uma
representação iconográfica da morte. (ÁRIES, 1990, p. 46)
Assim,
notamos como fortes características a reorganização da sociedade cristã
ocidental que conheceu o poder de consequências como a expansão territorial, da
qual se destaca as cruzadas que teve pontos marcantes nas estruturas
históricas.
Enquanto
estruturas demográficas a Idade Média se equilibrava no sistema típico das
sociedades agrárias, pré-industriais, onde ocorria alta taxa de natalidade e
alta taxa de mortalidade provocada pelas longas estiagens, enchentes e as
inúmeras epidemias que provocavam a morte de uma grande parcela da sociedade.
Na verdade,
isto seria apenas um ensaio da crise demográfica da Baixa Idade Média que terá
seu ponto crucial com a então conhecida peste negra que provocará a perda de um
terço da população da Europa Ocidental.
Quando
trabalhamos as grandes epidemias na Idade Média devemos compreender que tais
processos se concretizaram dentro de uma estrutura de longa duração que
proporcionará a comunicação e a penetração dos homens medievais em várias
regiões.
Os rumores
são provocadores do medo coletivo, pois se espalhava no Ocidente a revolta,
provocada pela morte, pela ameaça da fome e de guerras; os grandes cismas, como
as cruzadas contra os (heréticos), que levou a decadência a moral do papado,
antes do surgimento operado na reforma católica. (DELUMEUA, 1989, pp.
177-9)
Nestes
momentos de crise, o melhor a fazer é manter-se apegado com os mandamentos de
Deus e praticando o bem para ganhar a salvação eterna e garantir a boa morte, já
que esses elementos acima abordados (fome, peste e guerras) eram preocupações
constantes no contexto do homem medieval ocidental.
Podemos
perceber que o homem vive constantemente cercado pelo medo de morrer, que vai
além da vida, ou seja, o pós-morte é a preocupação dos indivíduos. Nesta jornada
o homem, parte em busca de explicações, sendo conduzido pelo medo e
consequentemente a sua mentalidade o atrai para o pior inimigo, que é justamente
essa morte.
Assim, foram
trabalhados de forma bem resumida, alguns aspectos do medo coletivo, ou seja,
que são comuns á toda humanidade: o mar, os fantasmas, a peste, a fome e a
guerra.
Dhiogo José Caetano Professor,
escritor e jornalista
Nenhum comentário:
Postar um comentário