Armínio
Fraga e Marcos Lisboa assinam artigo na FSP ("Hora de mudar o foco)
dizendo que é hora de mudar o foco. Visão de economistas, vá lá. Mas só
vejo dispersão, em vez de foco, em todos os setores, por obra do
lulopetismo, a pestilenta sub-ideologia encravada no Brasil, que está
sem rumo há mais de uma década:
A
política econômica retornou ao centro do debate com seu sucesso em
estimular o consumo, porém não o investimento e o crescimento. Pouco se
discute o lado da oferta, onde se encontra o maior desafio: aumentar a
produtividade da economia, essencial para a convergência dos padrões de
vida da população aos dos países mais ricos.
O debate
sobre políticas públicas esbarra na carência de evidências robustas que
auxiliem a sua avaliação, sendo frequentemente dominado por crenças
preconcebidas. A experiência de outros países pode ser útil para a
discussão, como nos parece ser o caso da Austrália.
Na década
de 1920, a Austrália criou um Conselho das Tarifas (de importação). Tal
conselho tinha por objetivo encorajar o desenvolvimento de setores
eficientes, o que por anos foi feito por meio da recomendação de
crescente proteção tarifária. Na década de 1960, no entanto, o conselho
se conscientizou do dano que essa proteção vinha causando à eficiência
econômica e ao crescimento. Essa conclusão levou a uma interessante
evolução institucional.
Após duas
etapas na década de 1980, quando o conselho se transformou
primeiramente na Comissão de Assistência Setorial e depois na Comissão
Setorial, foi finalmente criada em 1998 a Comissão de Produtividade, que
tem por missão fazer estudos e recomendações sobre como melhorar a
produtividade e o desempenho da economia.
O ponto
mais importante do seu mandato pode ser encontrado no topo da lista de
princípios que o regem: todas as políticas devem ter como preocupação o
bem-estar da comunidade como um todo, e não os interesses particulares
de um grupo ou setor. Esse deveria ser o foco de todas as políticas
públicas no Brasil.
Outros
objetivos da comissão são promover a redução de regulamentações
desnecessárias, estimular setores eficientes e competitivos
internacionalmente, facilitar mudanças estruturais, levando em conta os
interesses daqueles afetados por reformas, e garantir o desenvolvimento
ecologicamente sustentável.
O
contraste com a Argentina é notável. No começo do século 20, Austrália e
Argentina estavam entre as economias mais produtivas do mundo. Durante
as décadas seguintes, no entanto, ambos os países adotaram
crescentemente medidas de estímulo à indústria doméstica e elevadas
tarifas de proteção ao comércio exterior. Progressivamente, os dois
países foram ficando atrás das economias mais desenvolvidas.
Na década
de 1980, a Austrália apresentava taxa de crescimento anual da
produtividade menor que a da maioria dos países da OCDE, inclusive a
Grécia. A Argentina, por sua vez, enfrentou sucessivas crises
econômicas, e seu PIB per capita caiu para 30% do americano.
Nas
últimas décadas, os dois países fizeram opções distintas de política
econômica. A história argentina é bem conhecida, com medidas heterodoxas
à esquerda e à direita, pouco controle das contas públicas e forte
intervenção governamental.
A
Austrália fez outra escolha: a da redução progressiva do protecionismo,
acompanhada da avaliação das políticas públicas, e a criação de agências
independentes do Estado com metas de desempenho, inclusive o Banco
Central.
Políticas
de desenvolvimento baseadas em proteção, subsídios e incentivos a
setores selecionados resultam no estabelecimento formal e informal de
grupos de interesse, que dependem da sua manutenção. Esses grupos tendem
a dificultar reformas que beneficiem a sociedade como um todo. No caso
da política econômica, essa dificuldade é ainda maior pela
impossibilidade do contrafactual, ou seja, aquilo que poderia ter
ocorrido caso a escolha tivesse sido outra.
A saída
passa por adotar critérios e regras de políticas públicas voltados ao
interesse maior da sociedade, promover avaliações regulares e
independentes dessas políticas e garantir ao público o acesso a
informações que permitam o contraditório.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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