Luiz Moura, apadrinhado político do secretário de transportes da prefeitura de São Paulo, foi liberado, mas seu nome consta no boletim de ocorrência registrado pela investigação policial

Em meio ao caos no trânsito fruto da
inesperada greve dos motoristas e cobradores de ônibus de São Paulo, o
secretário de transporte da prefeitura, Jilmar Tatto, acusou a PM de não
interferir na ação dos grevistas. O governo do Estado, por sua vez, acusou o secretário de dificultar o trabalho policial na busca por explicações para as estranhas queimas de ônibus na cidade.
O secretário da gestão Geraldo Alckmin (PSDB) acusou Tatto de obstruir uma investigação policial que apurava a queima de ônibus na cidade por não repassar informações solicitadas pela polícia sobre o assunto por meio de um ofício. Só neste ano, mais de 70 veículos foram destruídos na capital.
O secretário estadual de Comunicação, Marcio Aith, em entrevista ao Brasil Urgente da Band, chegou a detalhar melhor o caso.
Aith disse que o secretário da gestão Fernando Haddad (PT) saberia que há investigações policiais sobre a atuação do crime organizado no setor. Segundo ele, o petista teria conhecimento de uma operação policial “recente” que desarticulou uma reunião entre donos de cooperativa de ônibus que tinha a participação de procurado da Justiça. Nela estaria também um deputado “muito próximo” a Tatto, que foi ouvido e liberado.(grifos nossos)
O Estado de São Paulo teve acesso ao boletim de ocorrência e confirmou que o “deputado muito próximo” era Luiz Moura, deputado estadual pelo PT.
A reunião havia sido alvo de uma operação do Departamento Estadual de
Investigações Criminais (DEIC) que investigava o envolvimento do PCC nos
ataques aos ônibus de São Paulo.
“Deve-se constar também que na reunião estava presente, por convite dos diretores da Cooperativa o DEPUTADO ESTADUAL LUIZ MOURA, que foi liberado no local”(trecho do boletim de ocorrência)
O boletim de ocorrência também destaca que participava da reunião um procurado da justiça por roubo a bancos.
“Há que se ressaltar também que entre os convocados da reunião havia um Procurado da Justiça de CARLOS ROBERTO MAIA, RG 7.506.158/SP, vulgo Carlinhos Alfaiate, famoso ladrão de bancos da década de 1990.”(trecho do boletim de ocorrência)
Na década de 90, Luiz Moura foi
condenado no Paraná e em Santa Catarina a cumprir 12 anos de prisão por
assaltos a mão armada. Fugiu após pouco mais de um ano de
encarceramento. O crime prescreveu e Moura aproveitou para pedir
reabilitação criminal, declarando-se arrependido e justificando os
crimes cometidos graças às drogas que consumia na época. Hoje, se diz
líder dos antigos perueiros e exerce seu primeiro mandato como deputado
na Assembleia Legislativa de São Paulo.
Por que só um tipo de ônibus pega fogo?
Em fevereiro, em artigo na Folha de São Paulo, Leão Serva estranhou que 94% dos ônibus incendiados em São Paulo pertenciam a concorrentes das cooperativas dos antigos “perueiros” representados por Luiz Moura.
Na cidade circulam cerca de 15 mil ônibus municipais, sendo 60% das concessionárias e 40% de permissionárias (os intermunicipais são outros 4,8 mil). Mas, novamente, 94% dos veículos incendiados são de empresas e só 6%, de cooperativas. Em nenhum bairro a proporção entre os dois tipos é essa. Isso quer dizer que os responsáveis pela queima dos ônibus (que custam R$ 500 mil cada) escolhem seus alvos.(grifos nossos)
De acordo com prestação de contas de
campanha disponível no site do TSE, o principal financiador da eleição
de Luiz Moura é justamente Jilmar Tatto. Dos R$ 691.445,38 mil
gastos, nada menos do que R$ 201.300,00 foram doados pelo secretário de
transportes da gestão Haddad. Outros petistas de alta patente também
financiaram a candidatura de Moura: José Genoino assinou um cheque de R$
7.5 mil; João Paulo Cunha doou R$ 6,1 mil; Arlindo Chinaglia investiu
R$ 16,2 mil; Cândido Vacarezza destinou R$ 5,3 mil; Marta Suplicy fez
uma transferência eletrônica de R$ 35 mil e Aloizio Mercadante depositou
R$ 5,6 mil. De acordo com o que determina a legislação eleitoral, todos
os petistas citados acima, com exceção de Mercadante e Marta Suplicy,
estavam cientes e doaram diretamente assinando de próprio punho os
cheques destinados ao comitê.
Em 2006, matéria da Veja acusou Jilmar Tatto, então ex-secretário de transporte da gestão Marta Suplicy, de favorecer o PCC em troca de meio milhão de reais. A denúncia partiu justamente de um perueiro.
Conhecido como “Pandora”, o perueiro é acusado de ter financiado, com dinheiro de lotações, uma tentativa frustrada de resgate de preso de uma cadeia de Santo André (região do ABC paulista), em março passado. Detido, ele negou pertencer ao crime organizado, mas admitiu a infiltração do PCC no setor perueiro e disse que foi por ordem de Jilmar Tatto, ex-secretário de Transportes da prefeita Marta Suplicy, que sua cooperativa incorporou integrantes da organização criminosa.(grifos nossos)
Nessa semana, o caos se instaurou em São
Paulo. Os mais prejudicados foram justamente os mais pobres, moradores
de áreas mais distantes que não tinham condições de arcar a volta para
casa de outra forma senão com o transporte público. Em qualquer gestão
séria, o secretário de transporte já teria sido demitido por deixar algo
assim ocorrer. Em qualquer país sério, não seria dado uma segunda
chance a pessoas com currículos como esses. O PT flertou com o perigo e
agora tenta terceirizar a culpa em seus adversários políticos. O que
o partido não percebe é que seus maiores inimigos se encontram dentro da
própria sigla. Em alguns níveis, os eleitores aos poucos percebem isso,
vide as intenções de voto para Dilma em constante queda. A continuar
nesta toada, Haddad terá dificuldade igual ou maior para se reeleger em
2016.
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