BLOG ORLANDO TAMBOSI
Este ano foi tão perturbador quanto esclarecedor para as democracias latino-americanas. Artigo de Kevin Casas-Zamora para o NYT, com tradução para o Estadão:
Os acontecimentos políticos no Peru e no Brasil e tendências preocupantes no México e em El Salvador
oferecem um alerta para o que ocorre quando o sistema de partidos
fracassa e líderes de fora do sistema assumem o poder com a promessa de
acabar com a corrupção estabelecida.
Vamos
recapitular os acontecimentos recentes: o Peru viveu uma instabilidade
social generalizada com grandes manifestações pedindo a renúncia da
presidente. O Brasil tenta descobrir como domar um movimento de extrema
direita que se recusa a respeitar as regras da democracia.
Tal recusa pôde ser vista inequivocamente no dia 8 de janeiro, quando alguns dos defensores de Jair Bolsonaro invadiram o congresso, a Suprema Corte e o gabinete presidencial depois que a tentativa de reeleição dele fracassou nas urnas.
Grupos de bolsonaristas radicais invadem as sedes dos Três Poderes em Brasília
No México, o presidente Andrés Manuel López Obrador defendeu uma série de medidas que o Congresso (dominado pelo seu movimento político) aprovou em fevereiro e devem limitar os poderes da agência que supervisiona as eleições. E, depois de chegar ao poder em El Salvador, o presidente Nayib Bukele
eviscerou praticamente todos os freios e contrapesos, e declarou no ano
passado um estado de emergência, suspendendo direitos constitucionais
fundamentais.
Mesmo
se tratando de casos muito diferentes em si, todos eles são exemplos da
amarga colheita na região, resultante da difusão de uma cepa virulenta
de populismo nas três décadas mais recentes. Essa cepa, em boa medida
enraizada na legítima exasperação dos cidadãos diante da corrupção,
desencadeou o caos nos sistemas de partidos e enfraqueceu as próprias
instituições necessárias para combater a corrupção e canalizar as
demandas sociais de maneira pacífica.
Hoje,
o resultado é claro na América Latina: o remédio oferecido pelo
populismo contra a corrupção se tornou pior do que a doença que
pretendia combater.
O
enfraquecimento dos partidos políticos e a aceitação de líderes
messiânicos para se vingar da corrupção nada trouxeram de positivo.
Difundiram mais desconfiança em relação a todas as instituições,
particularmente aquelas que freiam o poder e processam os conflitos
sociais pacificamente. Como resultado, a região vê recuos democráticos,
instabilidade política e mais corrupção.
Sob muitos aspectos, o Peru foi um precursor de tudo isso. Tudo começou em 1990, com a ascensão de Alberto Fujimori,
cuja campanha eleitoral prometia combater as elites políticas e
econômicas do país, permanecendo no poder por uma década. O movimento
ganhou força com a ascensão de Hugo Chávez na Venezuela, poucos anos depois. Desde então, diferentes versões do populismo anticorrupção apareceram nos muitos países da região.
A
eleição de Bolsonaro em 2018 para a presidência do Brasil só pode ser
entendida no frenesi da atmosfera de combate à corrupção criada pelo
escândalo da Lava Jato, o grande esquema de repasse de fundos da empresa
estatal do petróleo, Petrobras, para políticos e empreiteiras
selecionadas. A operação resultou na prisão (e posterior soltura) de Luiz Inácio Lula da Silva, que foi presidente de 2003 a 2010 e derrotou Bolsonaro nas urnas no ano passado para reassumir a presidência em janeiro.
Fenômenos
semelhantes ajudam a explicar a ascensão de forasteiros que se
candidataram sob a promessa de erradicar a corrupção no establishment
político, como López Obrador no México, Bukele em El Salvador ou Rodrigo
Chaves na Costa Rica.
A
ascensão de forasteiros populistas não é apenas um sinal claro de um
sistema de partidos afetado por graves problemas de credibilidade. É
também um potente acelerador desse processo. Atualmente, em muitas
democracias da região, os sistemas de partidos foram de fato
pulverizados.

Protesto
contra o presidente Pedro Castillo em frente ao Palácio da Justiça, em
Lima, em 8 de outubro de 2021; Congresso decidiu destituí-lo
Ao
longo das duas décadas mais recentes, o Peru não teve partidos
estáveis, e sim uma ciranda de lideranças emergentes disputando fatias
cada vez menores do poder. Os dois candidatos que chegaram ao segundo
turno na eleição presidencial de 2021 — Pedro Castillo e Keiko Fujimori —
receberam, juntos, cerca de um terço do total de votos do primeiro
turno. Castillo foi eleito, mas sofreu impeachment em dezembro e foi
substituído pela vice-presidente, Dina Boluarte, que não pertence a
nenhum partido político.
No
Brasil, Lula está lidando com um Congresso formado por 21 partidos. Ele
teve sorte: no governo anterior, eram 30 partidos no Congresso.
A
fraqueza fatal dos sistemas de partidos dificulta muito a formação de
maiorias legislativas e o ato de governar. O resultado quase inevitável é
a proliferação de demandas sociais negligenciadas e um crescente nível
de insatisfação com a política. Não surpreende que, em muitos lugares da
América Latina, as ruas substituíram as instituições representativas
como espaço natural para dar vazão às pressões acumuladas pedindo por
serviços públicos melhores e pelo combate às profundas desigualdades.
Peru
ilustra bem essa história: o país teve seis presidentes desde 2016, e
viu uma implosão da ordem pública que levou à morte de pelo menos 48
civis desde o início das manifestações, em dezembro.
Percepção
A
percepção segundo a qual o establishment não passa de uma camarilha
egoísta que deve ser defenestrada é um dos principais fatores que
impulsionam o populismo na América Latina. O levantamento
AmericasBarometer, que pesquisa toda a América, mostra que em 2021, 65%
dos latino-americanos acreditavam que mais da metade dos políticos seria
corrupta, proporção que chega a 88% no Peru e 79% no Brasil.
De
maneira semelhante, os partidos contam com a confiança de apenas 13%
dos latino-americanos, e as assembleias legislativas, apenas 20%, com os
números mais baixos da região observados no Peru, de acordo com dados
de 2020 da pesquisa regional Latinobarómetro.
O
colapso dos sistemas de partidos leva ao surgimento de forasteiros
messiânicos que aceleram a erosão da democracia sob o pretexto de
salvá-la da decadência. Como todos os populistas, a safra atual na
América Latina desdenha das instituições, vistas como facilitadoras de
uma corrupção que somente eles podem impedir, nas palavras memoráveis de
Donald Trump. Para os populistas, os freios e contrapesos que definem
uma democracia são luxos supérfluos ou, pior ainda, distorções que
impedem a voz do povo de ser ouvida.
Deterioração
Trata-se
de uma receita perigosa para a democracia e uma perspectiva terrível
para quem se importa com o combate à corrupção, que prospera onde o
poder não encontra limites. A América Latina precisa de mais freios e
contrapesos e mais respeito ao estado de direito, e não menos.
Ao
longo dos dez anos mais recentes, a qualidade do estado de direito e a
independência judicial estagnaram ou se deterioraram na grande maioria
dos países da região, de acordo com o Banco Mundial, o World Justice
Project e a International IDEA, organização de defesa da democracia que
eu lidero. O mesmo vale para a liberdade de imprensa. Desde 2013, a
liberdade da mídia foi reduzida em 15 dos 18 países latino-americanos,
de acordo com a Repórteres Sem Fronteiras.
Assim,
não surpreende que a América Latina apresente desempenho pior do que há
dez anos em se tratando de combater a corrupção. Em 2013, a pontuação
da América Latina no quesito controle da corrupção se situava no
percentil 57,2 em escala global, de acordo com os indicadores de
governança do Banco Mundial. Já em 2021, tinha caído para o 49,8
percentil. Isso condiz com os dados para o Brasil, El Salvador e México,
onde o indicador apresentou queda depois que supostos campeões do
combate à corrupção chegaram ao poder.
Sem
se dar conta, foi Lopez Obrador quem enunciou uma descrição que se
aplica a boa parte da América Latina: “Ainda temos corrupção, mas não é a
mesma coisa”. Ele tem razão. Não é a mesma coisa, pois os mecanismos de
responsabilização, o escrutínio da imprensa em respeito ao estado de
direito se encontram em pior situação do que há alguns anos.
Se
os políticos e as sociedades latino-americanas falarem sério a respeito
dos graves problemas de corrupção que afligem a região, devem escapar
desse ciclo vicioso. Precisam erguer instituições como robustos partidos
políticos, judiciários independentes, autoridades eleitorais imparciais
e sólidas proteções jurídicas para a liberdade de imprensa e o ativismo
cívico. Em outras palavras, tudo aquilo que os populistas atacam
incessantemente.
*Foi
vice-presidente da Costa Rica e é secretário-geral do International
Institute for Democracy and Electoral Assistance (International IDEA),
com sede em Estocolmo
.jpg)
Nenhum comentário:
Postar um comentário