BLOG ORLANDO TAMBOSI
Nicolás Maduro viola todas as regras reconhecidas pelas democracias liberais. Eli Vieira para a Gazeta do Povo:
Resumo da reportagem
O presidente Lula defendeu a legitimidade democrática da Venezuela, uma visão questionada por observadores e instituições internacionais.Relatórios apontam que a Venezuela falha em critérios essenciais para democracia, incluindo eleições justas, respeito aos direitos humanos, Estado de direito, pluralismo político e participação cidadã.Acusações sérias como manipulação de eleições, violações de direitos humanos e censura à imprensa reforçam há uma ditadura na Venezuela: é um fato objetivo, não flexível à relativização.
Na
quinta-feira passada (29), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deu
uma resposta relativista a respeito da democracia ao ser questionado
durante entrevista na Rádio Gaúcha. “Por que o senhor, seu governo e
parte da esquerda brasileira”, perguntou o jornalista Rodrigo Lopes,
“têm tanta dificuldade em considerar a Venezuela uma ditadura?” Lula
respondeu que “a Venezuela tem mais eleições do que o Brasil” e que “o
conceito de democracia é relativo para você e para mim”. Ele também
sugeriu que a rádio mandasse um emissário para checar a legitimidade das
próximas eleições por lá.
“Presidente,
eu fui preso na Venezuela três anos atrás”, informou Lopes. “O senhor
diria hoje que a Venezuela é uma democracia?” Em resposta, Lula deu uma
série de argumentos que sugerem que, para ele, a resposta é afirmativa.
“Tem gente que não quer aceitar o resultado eleitoral. Nem todo mundo é
como o Lula”, disse. Ele insinuou que o jornalista “não conhece o
assunto profundamente” e arrematou que “quem quiser derrotar o [Nicolás]
Maduro, derrote nas próximas eleições”.
Desde
a sua fundação grega, o conceito de democracia é submetido a amplos
debates. Isso não significa que todas as opiniões têm o mesmo peso. Um
consenso pode ser claramente aferido de fontes como a Carta
Internacional dos Direitos Humanos (da ONU, que inclui a Declaração
Universal dos Direitos Humanos), a Comissão de Veneza, os Critérios de
Copenhague (pré-requisitos de inclusão da União Europeia), a Carta
Democrática Interamericana (da OEA) e a Carta Africana sobre Democracia,
Eleições e Governança (da União Africana). Na lista abaixo, que
sintetiza esse consenso, a Venezuela falha em todos os critérios como
democracia.
1. Eleições livres e justas
Democracias
devem ter um sistema para os cidadãos escolherem seus líderes por meio
de eleições regulares e justas. Em dezembro de 2020, houve eleições
parlamentares na Venezuela. Contudo, observadores viram claros sinais de
ilegitimidade no pleito.
A
Universidade Católica Andrés Bello (Ucab, melhor instituição de ensino
superior da Venezuela) e o Instituto Internacional para a Democracia e
Assistência Eleitoral (Idea, entidade sediada em Estocolmo com 33 países
membros, incluindo o Brasil) concluíram, em relatório conjunto, que a
ditadura de Nicolás Maduro manipulou o pleito pela eleição de um novo
Conselho Nacional Eleitoral sem a aprovação da Assembleia Nacional, a
única casa legislativa do país; intervenção de juízes em partidos,
aumento ilegal do número de parlamentares e ameaça a eleitores que, de
alguma forma, dependessem de auxílio do regime, além de supressão da
liberdade de imprensa. Problemas similares foram observados na votação
de 2018 que “reelegeu” Maduro, para a qual observadores internacionais
não foram convidados.
2. Respeito aos direitos humanos e liberdades fundamentais
Regimes
democráticos devem respeitar o direito à vida, à liberdade e à
segurança pessoal, bem como a liberdade de expressão, pensamento,
imprensa, religião e reunião. O regime de Maduro viola todos esses
direitos e liberdades.
O
Tribunal Penal Internacional (TPI) e o Programa Venezuelano de
Educação-Ação em Direitos Humanos (Provea) acumulam milhares de
denúncias de tortura, espancamento, estupro, execução e cárcere ilegal.
Desde 2013, são no mínimo 1600 torturados e 40 mil vítimas da violência
estatal. Essas denúncias são corroboradas por mais de uma missão da ONU
ao país e por grandes organizações de direitos humanos como a Anistia
Internacional e a Human Rights Watch. Tramitam processos no TPI contra o
regime ditatorial venezuelano por crimes contra a humanidade.
No
período aproximado de um ano e meio desde a reeleição ilegítima de
Maduro em 2018, a ONU registrou 6.856 execuções partindo diretamente de
um órgão de repressão fundado pelo ditador.
Há
pesada censura e a imprensa não é livre. Em 2013, 121 veículos operavam
no país. Em 2021, o número baixou para 22. Esses poucos que operam são
submetidos a assédio constante, acusados de colaborar com forças
estrangeiras. O judiciário capturado impõe pesadas multas de “difamação”
quando jornais fazem críticas ao regime. Na classificação do Repórteres
sem fronteiras, com 180 países, a Venezuela está na 159ª posição em
liberdade de imprensa.
3. Estado de direito e governança democrática
Uma
democracia pode até matar, pela via da pena de morte, mas isso deve ser
previsto por lei e o amplo direito à defesa deve ser respeitado. A
ideia é resumida com o termo “império da lei” ou “governo da lei”. As
leis devem ser aplicadas de maneira igual, justa e consistente, com um
judiciário independente e controle democrático sobre as forças militares
e de segurança.
Mais
uma vez, a Venezuela falha nisso. Não apenas pelas violações já
ilustradas, mas porque, em certo sentido, quem tem império no regime é o
narcotráfico. Em vez de controle democrático, há traficantes
importantes nas forças armadas como Vladimir Padrino, Gerardo Rangel e
Nestor Reverol. A denúncia é do Departamento de Tesouro dos EUA. O
apreço pelo tráfico de cocaína, por exemplo, data do início da
“revolução bolivariana” que implantou o regime ditatorial, o que leva
alguns analistas a caracterizar o país como refém de um “narcoestado”. O
governo é do crime, não da lei, a julgar pelas conexões de Maduro ao
grupo terrorista Hezbollah e aos mercenários russos do Grupo Wagner,
acusado de fazer terrorismo na África por parlamentares locais.
4. Pluralismo político e responsabilidade
Na
democracia, a diversidade de opiniões políticas deve ser permitida e
respeitada, com transparência nas ações do governo e responsabilização
dos funcionários por suas ações.
Em
2020, o Tribunal Supremo de Justiça da Venezuela, capturado pela
ditadura, destituiu autoridades e líderes de partidos políticos da
oposição e indicou outras pessoas para liderá-los, à revelia da vontade
dos membros. Foram alvos os partidos Voluntad Popular, Acción
Democratica e Primero Justicia, os principais da oposição ao PSUV —
Partido Socialista Unido de Venezuela, fundado pelo falecido ditador
Hugo Chávez, antecessor de Maduro, em 2007.
Até
os dias atuais, isso não mudou. Dias após a alegação de Lula de que
basta alguém concorrer contra Maduro para tirá-lo do poder, a
Controladoria-Geral da Venezuela tornou inelegível por 15 anos a
pré-candidata de oposição María Corina Machado, do partido de centro
Vente Venezuela. A Secretaria-Geral da Organização dos Estados
Americanos condenou a decisão e a caracterizou como “contrária ao Estado
de direito”.
Portanto,
na Venezuela a diversidade política oficialmente reconhecida é fajuta,
manipulada pelo partido que detém o poder para assegurar sua própria
continuidade. A Anistia Internacional estimou que o país soma entre 240 e
310 presos políticos recentemente.
5. Participação dos cidadãos
Uma
democracia não se faz apenas do aparato estatal e as regras que ele
segue. Os cidadãos devem ter o direito e os meios de participar do
processo político, sem discriminação arbitrária. Como resultado de todas
essas violações, o povo venezuelano está batendo em retirada. Já são
mais de sete milhões que fugiram da ditadura. Como o país tinha 30
milhões de habitantes em 2015, o número dos que partiram desde então se
aproxima de um terço. Os dependentes do Estado são ameaçados caso pensem
em votar na oposição, como denunciou a Anistia Internacional. Como o
jogo eleitoral não é limpo, muitos também boicotam as eleições. A
oposição pediu que seus eleitores se abstivessem no pleito de 2020. A
abstenção atingiu 54%.
Postado há 3 weeks ago por Orlando Tambosi

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