BLOG ORLANDO TAMBOSI
Antes de o Estado colonizar qualquer coisa ele precisaria colonizar a si mesmo, e trazer alguma civilização para Brasília. A crônica de Alexandre Soares Silva para a revista Crusoé:
Vou
plagiar uma coluna do Josias Teófilo. É uma coluna que ele publicou faz
pouco aqui na Crusoé dizendo que o Estado brasileiro devia colonizar as
favelas e que o problema do Brasil não foi o excesso de colonização,
mas a falta.
Li
isso e senti vontade de escrever uma coluna dizendo a mesmíssima coisa.
Como não sei dizer não para mim mesmo, vou plagiar. Então peço que
ninguém conte a ele o que estou fazendo.
Nunca
dei muita importância ao plágio, pra falar a verdade. As pessoas fazem
muito chilique com isso. Faz diferença, se eu tenho uma ideia, se ela
veio num relâmpago de inspiração dentro da minha cabeça, ou se veio num
relâmpago de inspiração dentro da cabeça de outra pessoa? Ela agora é
minha, está relampejando dentro da minha cabeça, não quero saber de quem
ela já foi. Queremos ideias virgens, que nunca foram de ninguém antes?
Somos incels do intelecto?
É como um gato que já foi de outra pessoa. Agora eu adotei, vive comigo faz tempo. É menos meu?
Para piorar as coisas, vou copiar um trecho do Josias palavra por palavra, sem aspas nem atribuição:
O
Estado brasileiro nunca esteve verdadeiramente presente nas favelas.
Elas são como o sertão na época no cangaço. Um lugar que precisa ser
colonizado e civilizado. Precisa de saneamento, pavimentação,
arborização, policiamento.
E
mais outro (não estou nem disfarçando. Estou partindo do princípio que
ninguém vai botar no Google e descobrir que só fiz copy and paste):
O
problema do Brasil não é a colonização, o problema do Brasil é que a
colonização do país nunca aconteceu por completo, nem mesmo dentro das
cidades.
Todo
mundo conhece aquela cena do A Vida de Brian, do Monty Python, em que
um israelita da época de Jesus, na época da dominação romana, faz um
discurso bravo contra os romanos, perguntando: “O que é que os romanos
já nos deram em troca?” Depois de um silêncio alguém responde
timidamente: “O aqueduto?”. “Ah sim, eles nos deram isso, é verdade”. “E
o sistema sanitário”, diz mais alguém. “E as estradas”, diz outro.
“Sim, certo, tudo bem, mas fora o aqueduto, o sistema sanitário e as
estradas…” “Irrigação”, lembra mais um. E assim por diante, vão
lembrando de tudo: medicina, educação, vinho, banhos públicos, paz,
ordem, “e é seguro andar nas ruas à noite agora”.
Ou, como diz de modo mais sem graça a escritora Erin Blakemore num artigo da National Geographic:
“Os
governos coloniais investiram em infraestrutura e comércio e
disseminaram conhecimento médico e tecnológico. Em alguns casos, eles
incentivaram a alfabetização, a adoção dos padrões ocidentais de
direitos humanos, e semearam as sementes de instituições e sistemas de
governo democráticos. Algumas ex-colônias, como Gana, experimentaram uma
melhora na nutrição e saúde com o domínio colonial, e o assentamento
colonial europeu tem sido associado a alguns ganhos de desenvolvimento.”
Toda
a minha visão de colonialismo vem do filme Uma Passagem para a Índia.
Então o que vejo na minha imaginação é clubes de críquete nas favelas,
colonizadores sendo puxados de riquixá pelas ruas estreitas das favelas
usando ternos de linho branco e capacetes de exploradores na selva,
tomando limonada e gim & tônica no clube de críquete e conversando
com outros colonizadores, um ventilador de teto girando sem parar e um
nativo abanando os colonizadores com um leque gigante.
Obviamente,
o Estado brasileiro sendo o que é, não traria benefício algum para as
favelas. Os colonizadores entrariam na favela, fariam pactos com os
criminosos nativos e começariam eles mesmos a roubar até as roupas
presas nos varais. Até os pregadores de roupa, imagino. Os nativos todos
seriam taxados pesadamente sem ver nada em troca, e logo todo o
comércio informal encolheria e morreria; o formal seria ainda mais
desencorajado pelos impostos e regulações excessivas e ridículas, como é
por todo esse país que vê o empreendedorismo com suspeita torpe de
funcionário público e filho de funcionário público, ou de filhos
ingratos de empreendedores, também; e as favelas, com a ajuda do Estado
brasileiro, desceriam gostosamente mais alguns degraus em termos de
degradação humana.
Seria
praticamente o primeiro caso na história universal em que o colonizador
deixaria o colonizado numa situação pior do que estava antes.
A
verdade é que o que eu queria mesmo era que o Império Britânico dos
séculos 19 e início do 20 colonizassem as nossas favelas. Eles sim
resolveriam os problemas. Se fosse assim – se Lord Kitchener, Lord
Mountbatten e Cecil Rhodes viessem do passado para o presente e
colonizassem a Rocinha, Vidigal etc. –, os favelados brasileiros do
futuro, como os indianos de hoje, seriam os CEOs das maiores empresas do
mundo.
O Estado brasileiro, óbvio, não serve pra colonizador. Para colonizado, certamente, mas isso é outro sonho meu.
Antes
de o Estado colonizar qualquer coisa ele precisaria colonizar a si
mesmo, e trazer alguma civilização para Brasília. Coloniza-te a ti
mesmo, Estado brasileiro.
Postado há 3 weeks ago por Orlando Tambosi

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