BLOG ORLANDO TAMBOSI
Da Argentina a decisões da Suprema Corte, conservadores estão vivos. Vilma Gryzinski:
A
piada na Argentina é que, pela primeira vez na história das eleições
democráticas, todos os candidatos de destaque à Presidência são de
direita. É uma provocação a Sergio Massa, o ministro da Economia que
virou o jogo no grito e conseguiu o apoio da cúpula peronista,
principalmente o de Cristina Kirchner, para sair candidato de união. As
correntes de esquerda do peronismo, que xingavam Massa de direitista por
dialogar com o FMI — qual a alternativa? — e com o empresariado,
viraram a ficha e saíram obedientemente elogiando-o. Os outros
candidatos são da oposição de centro ou de direita. Seja quem for o nome
do Juntos pela Mudança e o anarcocapitalista Javier Milei não
compartilham, para dizer o mínimo, a loucura estatista em que o
esquerdismo populista se transformou, com resultados tão catastróficos
que soa até normal que um ministro sob cuja direção a inflação vai
chegar a 140% no fim do ano seja um candidato viável por simplesmente
segurar o desmoronamento do forte.
A
direita também não vai mal na Europa, onde a ideia da normal e saudável
alternância de poder tem sido substituída pelo conceito de guerra
total: uma vitória do adversário significa praticamente mudança de
regime. Com algo desse tom apocalíptico, no país onde a palavra se
originou, a Grécia, foi consagrado para um segundo mandato o
primeiro-ministro Kyriakos Mitsotakis, tanto por virtudes próprias, como
fazer um bom governo e recuperar a economia considerada um caso
perdido, quanto pelos erros da extrema esquerda, que se implodiu nos
últimos tempos. Mas o fato que pesou foi a linha dura no problema mais
incômodo para grande parte da população, o mesmo que propulsiona
populistas em outros países europeus: a incontrolável imigração
clandestina ou a fratura sistêmica de países como a França, onde
descendentes de terceira geração de árabes ou africanos tiveram mais um
dos surtos regulares de violência e destruição. Por causa desse
monumental e fervilhante caldeirão, o partido de extrema direita
Alternativa para a Alemanha hoje tem 20% das preferências, o que o torna
maior do que todos os tradicionais, inclusive o Social Democrata, no
comando da atual coalizão de governo.
As
ondas humanas que abalam a ordem social de países onde os principais
problemas já haviam sido resolvidos também levaram uma quase
desconhecida Giorgia Meloni ao governo da Itália. O desastre fascista
que a imprensa mundial anunciou, adivinhem só, não se realizou. Meloni
abandonou os discursos bombásticos e faz um discreto trabalho em
conjunto com a União Europeia para conseguir acordos com países do Norte
da África que controlem o tráfico humano no Mediterrâneo. Outros países
com governos de direita antigos ou recentes: Polônia e Hungria (unidas
pela rejeição aos imigrantes, opostas na guerra da Ucrânia), Suécia,
Finlândia e, dependendo da eleição do final do mês, a Espanha, o que
seria uma virada histórica.
Decisões
da semana passada da Suprema Corte sustentaram princípios fundamentais
do conservadorismo americano, como a igualdade de condições para todos
em lugar de critérios raciais para admissão em universidades. Como
diminuir as distâncias para os menos privilegiados? A direita tem de
pensar em soluções para esta e outras questões fundamentais que vão
muito além de “encontrar uma justificativa moral superior para o
egoísmo”, como criticava John Kenneth Galbraith — erradamente, mas com
um fundo de realidade.
Publicado em VEJA de 12 de julho de 2023, edição nº 2849
Postado há 3 weeks ago por Orlando Tambosi

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