Fracasso militar, político e de inteligência levou o Talibã a entoar o Corão no palácio presidencial de Cabul enquanto americanos fugiam em pânico. Vilma Gryzinski:
Joe
Biden não construiu o longo histórico de erros que, ao longo de vinte
anos, alimentou a ilusão de que o Afeganistão poderia ser “salvo”.
Mas
é de seu governo a responsabilidade pela espantosa e fulminante
facilidade com que os talibãs tomaram o país inteiro, praticamente sem
oposição – o que faz presumir que os barbudos fundamentalistas fizeram
acertos políticos pelas costas dos americanos, culminando com a tomada
do palácio presidencial já sem presidente, devidamente foragido.
Deu
tudo errado para os americanos, inclusive a avaliação grotescamente
equivocada sobre o tempo que os talibãs levariam para chegar a Cabul e
dar o cheque mate.
Essa conta vai diretamente pendurada na CIA, engordando um notório histórico de erros de avaliação.
A
sequência de erros obrigou o governo americano a parar de fingir que
haveria uma transição relativamente honrosa, com prazo suficiente para
uma retirada organizada de militares, diplomatas, agregados e
funcionários afegãos com os quais os Estados Unidos têm o compromisso
moral de salvar da inevitável retaliação.
A
movimentação apressada de tropas para dar cobertura à retirada a toque
de caixa alimentou o clima de “os últimos dias de Cabul” – um filme que
com toda certeza será feito, mas cujo desenlace ainda está longe de ser
conhecido.
As
informações erradas ajudaram o presidente americano a fazer o papel,
simplesmente, de bobo enganado por sua própria turma. Apenas cinco
semanas atrás, Biden dizia que era “altamente improvável” que o Talibã
tomasse o país inteiro” e que não haveria uma “corrida apressada para a
saída”.
Na
semana passada, diplomatas e funcionários estavam correndo
apressadamente para queimar papéis e destruir matrizes de computadores.
No fim de semana, passaram a correr pela própria vida, levados de
helicóptero para o aeroporto de Cabul.
A
renúncia do diretor da CIA, William Burns, deveria estar hoje de manhã
na mesa de Joe Biden, mas não é assim que funciona na prática.
As
decisões finais são, claro de responsabilidade do presidente. Durante
décadas, como senador e vice de Barack Obama, Biden se tornou um
profissional da política externa. Como pode se enganar tanto?
Todo
mundo sabe que o caminho para o inferno é pavimentado por boas
intenções e Biden agiu com um impulso compreensível: com a pandemia e os
trilhões que quer investir na retomada econômica (e, claro, na própria
reeleição), estava mais do que na hora de fechar o capítulo de uma
intervenção militar inevitável, para fumigar Osama Bin Laden e asseclas
homiziados no Afeganistão, transformada numa “guerra sem fim”.
A
lição mais importante do Vietnã – não se enredar em missões que não têm
começo, meio e fim – foi muito bem interpretada por George Bush pai
quando invadiu o Kuwait para expulsar os invasores iraquianos e deu a
missão por encerrada, com razão, sem cair na tentação de avançar mais
alguns quilômetros e derrubar Saddam Hussein.
Bush
filho enfrentou condições completamente diferentes, criadas pelo choque
dos atentados de Onze de Setembro e deu início a uma missão –
impossível – herdada por seus sucessores: justificar tanto dinheiro –
mais de um trilhão de dólares – e tantas vidas americanas, para não
mencionar as afegãs, dedicando-se à criação de uma nação viável, com
algum tipo de democracia e sem as barbaridades mais flagrantes de um
país onde, mesmo sem talibãs, vigoram princípios tribais e
fundamentalistas.
É o “nation building”, a construção de entidades nacionais minimamente funcionais, uma prática tão temida quanto irresistível.
Para
justificá-la, a propaganda americana passou a enfatizar objetivos
nobres como promover direitos fundamentais das mulheres, como poder
estudar, sair sozinhas de casa e, em determinados círculos, usar apenas o
hijab, o lenço na cabeça, em lugar da burka, a tenda de tecido que tudo
encobre.
Conhecendo
muito bem os militares afegãos que treinaram e equiparam, os
comandantes militares americanos também pressionaram os líderes
políticos, especialmente na época de Barack Obama, para não encerrar
operações e voltar para casa sem tentar impedir que acontecesse
exatamente o que estamos vendo agora: a volta triunfal do Talibã.
Críticos
da condução tanto política quanto militar das operações no Afeganistão
dizem que não houve vinte anos de guerra, mas vinte guerras anuais,
tamanha a falta de de coerência e clareza.
Um
deles, o coronel da reserva Mike Jason, escreveu na Atlantic, baseado
em sua própria experiência, que os americanos nunca conseguiram resolver
os “problemas vexaminosos” das forças locais: “corrupção endêmica,
moral no chão, uso generalizado de drogas, manutenção atroz e logística
inepta”.
Quem
foi culpado de que será um um longo debate. No momento, a situação é
tão crítica que nem dá para ficar discutindo questões de fundo.
As
cenas dos talibãs no gabinete presidencial ouvindo versículos do Corão
sendo entoados foram extraordinariamente simbólicas, mas em questões de
horas estavam superadas pelas multidões desesperadas correndo em volta
de aviões militares americanos no aeroporto onde muitos haviam chegado a
pé, tendo largado seus carros na estrada congestionada.
“Os cidadãos de Cabul não devem ter medo”, declarou, ironicamente, um porta-voz do Talibã.
As
execuções já começaram e logo a bandeira branca do Talibã vai flutuar
sobre a embaixada americana, que funcionava também como gigantesca
central de inteligência. Joe Biden nunca mais se livrará dessa imagem
poderosa.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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