Os números do emprego hoje não têm nada a ver com os números da indústria; fenômeno vai continuar depois da pandemia. J. R. Guzzo para o Estadão:
Até
algum tempo atrás, o encerramento de atividades de uma fábrica,
principalmente quando ligada a um grande nome da indústria, era
considerado um desastre. Muita gente boa, inclusive, já usou a
perspectiva de parar as máquinas como pressão para conseguir dos
governos alguma coisa que estava querendo – e os governos, também muitas
vezes, aceitaram, em nome da “preservação de empregos”. Não mais. A
Mercedes-Benz, uma das mais antigas, importantes e bem reputadas
empresas da indústria automobilística brasileira, acaba de fechar uma
fábrica no interior de São Paulo, onde produzia carros “premium” – e
praticamente não houve ruído algum.
É
uma má notícia, sem dúvida, pois nenhum país cresce, cria renda e gera
oportunidades fechando fábricas. Mas não é mais o que era – porque as
fábricas, a indústria automotiva e a economia brasileira não são mais o
que eram. A questão, aí, é o emprego.
A Mercedes, ao fechar essa operação – sua produção de caminhões e de
ônibus continua em ritmo normal – suprimiu 370 postos de trabalho. E
isso simplesmente não é nada, no mercado de trabalho atual.
Os
empregos, hoje em dia, estão em outros lugares – e seus números não têm
nada a ver com os números da indústria. Só na Grande São Paulo, só no
ano de 2020 e só no setor de entregas a domicílio, foram criados
possivelmente 50.000 novas vagas – mais de 100 vezes o que se perdeu na
fábrica fechada da Mercedes. Estima-se que haja 280.000 motoboys
trabalhando atualmente na região; no Brasil todo, segundo cálculos do Dieese, são 950.000. É oito vezes mais que o número total de empregos nas montadoras brasileiras, calculado no momento em 120.000.
A covid,
sobretudo por conta da explosão na entrega de refeições a domicílio,
responde por uma parte destas cifras – mas só por uma parte. O fenômeno,
segundo todos os técnicos na área, vai continuar depois da pandemia. É
um mundo novo.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

Nenhum comentário:
Postar um comentário