Economia, muito abrangente, também é assunto para polímatas. Artigo do economista Roberto Macedo para o Estadão:
Adquiri
livro de Peter Burke com este título e subtítulo: O Polímata – Uma
História Cultural, de Leonardo da Vinci a Susan Sontag (publicado em
2020 pela editora da Unesp). Não sabia o que era um polímata, e me
perguntei conforme o título deste artigo. O autor é professor emérito de
História Cultural na Universidade de Cambridge, na Inglaterra. Passou
por outras universidades e entre 1994 e 1995 foi professor visitante na
USP.
Na
introdução, Burke fala de definições de polímata, como a de “alguém que
se interessa por muitos assuntos e aprende muitos assuntos”.
Concentrado no conhecimento acadêmico, ele se propôs a “falar de
estudiosos com interesses que eram ‘enciclopédicos’ no sentido original
de percorrer todo o ‘curso’ ou ‘currículo’ intelectual ou, de alguma
maneira, determinada parte importante desse currículo”. A. C. Cowling,
na contracapa do livro, chamou a obra de “absorvente e polimática”. De
fato, conforme a editora a apresenta, ela é por si mesmo abrangente,
pois Burke identificou, num “relato envolvente e erudito, (...)
quinhentos polímatas ocidentais”. O livro tem 495 páginas, sendo 72 de
referências bibliográficas.
A
primeira orelha da capa resume o enfoque de Burke, dizendo que, ao
analisar os polímatas, “explora suas conquistas abrangentes e evidencia
como sua ascensão correspondeu a um rápido crescimento do conhecimento
nas eras da invenção da impressão, da descoberta do Novo Mundo, e da
Revolução Científica. Só mais recentemente é que a aceleração do
conhecimento levou a maior especialização e a um ambiente que dá menos
apoio a acadêmicos e cientistas de amplo espectro”.
Grande
atenção é dada a Leonardo da Vinci, e ele já é mencionado no próprio
subtítulo acima. Um retrato dele ocupa quase toda a capa e também é
incluído no livro. Este diz que Da Vinci aprendeu a pintar e esculpir em
Florença, depois foi para Milão, onde chamou a atenção de um duque, a
quem prometeu “fazer pontes, canhões, catapultas, e – no décimo lugar de
sua lista de afazeres – obras de escultura e arquitetura”. Dele recebeu
“o cargo de engenheiro do duque (...) responsável não apenas pelos
canais e edificações, mas também pela produção de ‘efeitos especiais’
para os desfiles da corte”.
Outra
razão do meu interesse pelo livro é que, como economista, entendo que
muito do que estudamos, dada a sua complexidade, é assunto para
profissionais polímatas, em particular na macroeconomia. Esta trata de
agregados econômicos nacionais, como o produto interno bruto (PIB), seu
lado da oferta e da demanda, e propõe políticas públicas nas áreas
fiscal, monetária, incluindo juros, cambial, social e outras. Em
particular na área fiscal, que diz respeito às contas do governo, a
influência da política é imensa.
Aliás,
quando comecei a estudar economia, o livro-texto introdutório
chamava-se Manual de Economia Política, de autoria de Raymond Barre, um
francês. Logo em seguida foi trocado por Introdução à Análise Econômica,
de Paul Samuelson, americano. Desde meados do século passado, a
expressão “economia política”, ainda hoje cultivado por alguns
economistas, ficou em segundo plano, pois a especialização na área
acadêmica levou até mesmo à pretensão de aproximar a economia da área de
exatas. Em inglês fica claro: political economy passou a economics,
lembrando physics e mathematics.
Quis
ver se Burke também havia encontrado economistas polímatas. Como
esperava, nesse grupo ele incluiu John Maynard Keynes, por muitos
considerado o mais importante macroeconomista do século passado. Segundo
o livro, um amigo o descreveu como “fidalgo, funcionário público,
especulador, empresário, jornalista, escritor, fazendeiro, mercador de
obras de arte, administrador de teatro, colecionador de livros e meia
dúzia de outras coisas”. O próprio Keynes observou que “o mestre em
economia deve contar com uma rara combinação de dons. Deve atingir um
alto padrão em várias direções diferentes e combinar talentos que nem
sempre se encontram juntos. Deve ser, em certa medida, matemático,
historiador, estadista e filósofo”.
Outro
economista polímata citado pelo livro é Kenneth Boulding. Segundo
Burke, ele se definiu “como ‘um economista razoavelmente puro’ até 1949 e
‘um filósofo social bastante impuro’ depois dessa data, explicando que
‘a perseguição de qualquer problema em economia sempre me atraiu para
outra ciência antes de compreendê-lo’ e que não ‘existe essa coisa de
economia, apenas ciências sociais aplicadas a problemas econômicos’”.
O
impasse em que se encontra a economia brasileira cai nesse quadro e se
deve, sobretudo, à irresponsabilidade de seus governantes, como o
momento atual novamente denuncia. O presidente da República não tem
apego ao assunto, o Congresso Nacional segue empurrando com a barriga a
questão fiscal e as reformas, e encontra-se em recesso num momento de
enormes dificuldades.
Economistas podem optar por economics, mas se quiserem dar palpites é preciso passar à economia política.
ECONOMISTA (UFMG, USP E HARVARD), PROFESSOR SÊNIOR DA USP. É CONSULTOR ECONÔMICO E DE ENSINO SUPERIOR
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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