Mortos por Covid-19 que defendiam o uso da cloroquina, criticavam lockdowns ou apoiavam Bolsonaro morrem uma segunda vez, vítimas de obituários perversos. Crônica de Paulo Polzonoff Jr., publicada pela Gazeta:
Uma
pesquisa rápida revela quatro ocasiões em que, por causa da politização
do coronavírus, pessoas complexas, cheias de ambiguidades, nuances,
quando não contradições, foram todas reduzidas a um conjunto limitado de
características aparentemente deploráveis. Primeiro foi o médico Guido
Céspedes, ainda em setembro de 2020. Depois foi a vez do senador Arolde
de Oliveira, em outubro do mesmo ano. A eles se seguiram, já em 2021, o
pastor Thiago Andrade de Souza e o também médico e professor da UFRJ
Lécio Patrocínio.
Além
do fato de serem todos homens, em comum essas pessoas tiveram a causa
mortis: Covid-19. Mas não só. Elas também eram unidas pela crença de que
o uso precoce de hidroxicloroquina era eficaz no combate à doença,
faziam críticas às medidas restritivas, aos cientistas, à OMS e – a
cereja do bolo! – se confessavam apoiadores do presidente Jair
Bolsonaro.
Essas
ideias imperdoáveis renderam aos falecidos alguma fama nacional, na
forma de obituários que ressaltavam não os feitos de cada um, nem a dor
dos que eles deixavam, e sim o fato de acreditarem na eficácia de um
medicamento contra a Covid-19.
Afogados no seco
Ao
ler as notícias de cada uma dessas mortes, não raro acompanhadas por
reducionismos ainda piores, como “bolsonarista” ou “negacionista”, me
perguntei primeiro qual a intenção por trás de um obituário humilhante
desses. O diabinho no meu ombro esquerdo respondeu que a intenção era
alertar as pessoas para o perigo da Covid—19 e para a ineficácia dos
medicamentos. Já o anjinho, no ombro esquerdo, respondeu que a intenção é
reduzir toda a experiência humana a uma ou outra ideologia política.
Dessa
forma, esmaga-se e se comprime a vida para que ela seja exposta de
forma a dar ao leitor/espectador/ouvinte a possibilidade de um veredito
perverso: essa pessoa mereceu ou não mereceu a morte que teve.
Não
à toa, as notícias das mortes desses quatro personagens, em fases
diferentes da pandemia, suscitaram nas redes sociais as mesmas reações
cheias de ódio. Gente dizendo que médico que não “acredita na ciência”
tem mesmo que morrer. Outros provocando com um “quero ver tomar
cloroquina agora”. Sem falar no uso desmedido de críticas à fé e à opção
política.
E
aqui tenho vontade de perguntar se por acaso a morte de um bolsonarista
consumidor de cloroquina é menos digna do que a morte de um petista que
há meses vive besuntado em álcool em gel. Mas é melhor não.
Mas
basta uma pesquisa, também rápida (até porque a hora de entregar a
coluna se aproxima), para descobrir que eram pessoas estimadas por
muitas outras que certamente sentirão a falta delas. Por familiares, por
amigos, por fieis, por pacientes e até por eleitores. São pessoas que
nasceram, foram felizes aqui, infelizes ali, que sonharam, que
realizaram alguns de seus sonhos e se frustraram em outros.
São
pessoas que morreram no isolamento de um hospital. Afogados no seco.
Que se desesperaram como um Ivan Ilitch ao receber o diagnóstico. Que,
por um segundo ao menos, tiveram a esperança de se recuperarem – como as
6,99 milhões de pessoas que já se recuperaram dessa praga (praga, mas
não peste) no Brasil. Que talvez tenham vislumbrado a morte, com sua
promessa de oblívio, antes de serem envoltos pelas trevas silenciosas da
inconsciência.
E
isso tudo para se transformarem em obituários que mais parecem
panfletos de guerra. Para se tornarem rostos condenáveis como hereges
que cometeram o pecado mortal de não acreditar na
ciência-ciência-ciência. Para virarem mote de piada, escárnio e deboche.
Mais do que um cadáver útil
Claro
que não passou despercebido por mim o medo de que eu também me tornasse
personagem dessa cobertura jornalística necrófila. Afinal, cometo
cotidianamente o imperdoável pecado de fazer críticas sobretudo à
imposição de medidas que, sinceramente, faz-me rir.
Agora
mesmo dei uma tossidinha com mais força e fui correndo enfiar o nariz
no pote de alho picado para ver se me restava olfato. E, ao longo dos
últimos meses, não foram poucas as vezes em que me vi um tantinho
paranoico, com medo de contrair o vírus e ter minha deliciosa
experiência terrestre interrompida.
Estoicamente, contudo, sei que não tenho controle sobre isso.
Me
resta, pois, apontar aqui a imoralidade que é reduzir as vítimas de
Covid-19 que professam ideias com as quais não concordamos a meros
cadáveres úteis no palanque político da pandemia. Com a esperança de que
os mal-intencionados perceberam que a vida de uma pessoa, qualquer
pessoa, é muito mais do que seu voto (talvez equivocado), sua esperança
(talvez infundada) num medicamento ou ainda a desconfiança (talvez
exagerada) com que essa pessoa vê certos aspectos da vida.
E,
antes que me perguntem, estou bem, sem febre, olfato de quem sente
cheiro de pipoca a quilômetros e aquela tossidinha de alguns parágrafos
atrás foi só um pelo da Catota que fez cócega na minha garganta.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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