A combinação da pressão do eleitor e da ação firme dos parlamentares comprometidos com a ética na política pode impedir a concretização dos prognósticos nada animadores para 2021. Editorial da Gazeta do Povo:
O
eleitor foi às urnas em 2018 disposto a manifestar sua vontade firme de
que o combate à corrupção fosse fortalecido. Dois anos antes, a era
lulopetista no Planalto havia terminado. O impeachment de Dilma Rousseff
foi causado pelos crimes de responsabilidade cometidos pela então
presidente com suas “pedaladas fiscais”, fazendo do orçamento federal
uma peça de ficção, mas o período do PT no poder entrará para a história
como a era dos grandes escândalos de corrupção, como o mensalão e o
petrolão, esquemas que foram além da roubalheira para enriquecimento
pessoal, sendo autênticas tentativas de fraudar a democracia brasileira.
Este anseio da população, no entanto, vem sendo frustrado ano após ano,
e as perspectivas para 2021 não são nada animadoras.
Em
2019, o Congresso aprovou uma absurda Lei de Abuso de Autoridade, que
mais poderia ser descrita como a lei da retaliação dos investigados e
réus contra seus investigadores e julgadores. Aprovou, também, um pacote
anticrime bastante desfigurado, retirando alguns pontos e incluindo
outros que iam na direção contrária à do endurecimento contra os
bandidos. No mesmo ano, o Supremo Tribunal Federal derrubou a
possibilidade de início de cumprimento da pena após condenação em
segunda instância e começou a anular condenações da Lava Jato apesar de
os processos terem sido conduzidos em estrita obediência à lei.
No
ano passado, o fato de a pandemia ter se tornado o centro das atenções
não impediu novos retrocessos – talvez até os tenha facilitado, já que
as preocupações eram outras –, como a ameaça de desmantelamento da
força-tarefa da Lava Jato e a perseguição aberta ao então coordenador do
grupo, o procurador Deltan Dallagnol, punido por exercer sua liberdade
de expressão. Além disso, a tentativa de ingerência governamental na
Polícia Federal foi o estopim da saída do ex-ministro da Justiça e
Segurança Pública Sergio Moro. No Supremo, a Segunda Turma anulou uma
condenação no caso Banestado alegando que Moro havia extrapolado suas
funções, quando ele simplesmente fez o que a lei lhe permitia fazer. E,
no fim do ano, uma liminar do ministro Kassio Nunes Marques enfraqueceu a
Lei da Ficha Limpa.
Para
este ano, o “pacote de maldades” já está sendo preparado. Reportagem da
Gazeta do Povo mostra três assuntos que devem entrar na pauta de Câmara
e Senado e que, se aprovados, tornarão ainda mais fácil a vida de quem
se dedica a desviar dinheiro público, e mais difícil a já árdua tarefa
daqueles que tentam investigar e punir tais crimes. Uma Lei Geral de
Proteção de Dados Criminais, proposta sob o manto do cuidado com as
informações privadas, poderá ser usada para atrapalhar e até
inviabilizar investigações. O atual presidente da Câmara, Rodrigo Maia
(DEM-RJ), chamou advogados de investigados, réus e condenados por
lavagem de dinheiro para propor alterações na legislação sobre o tema, e
a tendência é a de que a comissão de juristas queira tornar a lei bem
mais branda. O mesmo destino pode ter a Lei de Improbidade
Administrativa, cuja alteração está mais adiantada no parlamento – já
existe um substitutivo, redigido pelo petista Carlos Zarattini, mas que
também tem apoio do líder do governo Bolsonaro na Câmara, Ricardo Barros
(PP-PR).
O
retrocesso não está apenas naquilo que o Congresso pode aprovar, mas
também naquilo que o Legislativo deseja manter parado. É o caso, por
exemplo, dos vários projetos de lei e PECs que tentam restabelecer a
prisão após condenação em segunda instância. Alguns deles já existiam
antes mesmo da decisão do Supremo de 2019, e vários outros vieram na
esteira daquele julgamento. As estratégias são várias, alterando não
apenas a Constituição, mas também o Código de Processo Penal – o que é
necessário, para que não reste nenhuma contradição entre os dois textos.
Nenhum dos projetos, no entanto, avançou em 2020. Alguns grupos de
parlamentares estão condicionando seu voto para a presidência da Câmara e
do Senado ao compromisso de colocar o tema em pauta, mas o assunto não
parece estar nas prioridades da maioria dos eleitores.
Todo
o histórico da atual legislatura nos projetos sobre corrupção mostra
que a renovação parlamentar de 2018 não foi ampla o suficiente para
impedir aquilo que os protagonistas da Operação Lava Jato afirmavam
quase que desde o início das investigações que revelaram o esquema do
petrolão. Os políticos corruptos não assistiriam a tudo aquilo sem
reagir, e o fariam usando as ferramentas que têm à mão: a aprovação de
leis que tornariam impossível uma repetição da limpeza que a Lava Jato
vinha promovendo. Acontecera na Itália depois da Operação Mãos Limpas, e
vem ocorrendo no Brasil, exatamente como previram Moro e os
procuradores da força-tarefa.
Cada
projeto aprovado e cada decisão judicial como o que foi acima descrito
deixa o Brasil mais longe de uma inserção internacional mais ampla – é o
caso do almejado ingresso na OCDE, que exige do país um processo
exatamente inverso ao que vem ocorrendo, levando a entidade a se
manifestar abertamente sobre os retrocessos no combate à corrupção. Mas
não é apenas isso: as vitórias da bancada da impunidade minam as
esperanças de um país mais justo, onde há respeito pelo dinheiro do
cidadão.
Será
preciso, então, esperar até 2022 para aprofundar as mudanças no
Congresso? Uma possível resposta está em um julgamento emblemático
ocorrido no Supremo em dezembro. A corte estava pronta para rasgar a
Constituição e permitir a reeleição para as presidências da Câmara e do
Senado dentro de uma mesma legislatura, mas a pressão da opinião pública
conseguiu reverter um resultado que parecia certo. A combinação da
pressão do eleitor e da ação firme dos parlamentares comprometidos com a
ética na política pode impedir a concretização dos prognósticos nada
animadores para 2021.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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