O papel do Estado tem aumentado nas sociedades modernas. É importante estar consciente, para que o equilíbrio que pensamos ter encontrado, não desvaneça lentamente na sombra destes tempos. Telmo Ferreira via Observador:
Segundo
Lipset e Rokkan, uma das clivagens esquecidas que explicam a formação
de sistemas partidários é a clivagem Estado-Igreja. Este conflito advém
das épocas da secularização das sociedades, em que o papel da Igreja na
educação, bem-estar e moral das populações foi sendo absorvido pelo
Estado. Esta clivagem está intimamente ligada ao nascimento da corrente
Democrata-Cristã.
Talvez
tenha sido neste sentido que Nietzsche proclamou “Deus está morto!”.
Morto no sentido que a influência do Catolicismo nas sociedades estava
em declínio. Os valores que esta imprimia nos indivíduos, apesar de não
se extinguirem devido ao efeito socializante, viram a sua importância
diminuída nas sociedades modernas.
A
instauração da Primeira República em Portugal é um exemplo prático
desta luta, em que a secularização radical dos nossos republicanos, numa
sociedade ainda profundamente católica, provocou uma crise de
legitimidade e posteriormente uma reacção conservadora e autoritária que
desaguou no Estado Novo.
Ao
contrário da corrente anglo-saxónica do conceito burguês de liberdade, a
corrente continental da mesma, altamente influenciada pelos ideais de
Rousseau, vem triunfando, uma liberdade legal imposta pelo próprio
Estado. Assim, conceitos como Estado de Direito, Liberalismo ou Welfare
State ganharam o seu destaque e todos os dias nos circundam, sendo
acoplados e erradamente inexoráveis ao conceito de Democracia.
Nenhum
destes conceitos significa implicitamente a Democracia, que sendo
polissémica, se adaptou perfeitamente. Todos estes conceitos
anteriormente referidos, facilmente são transformados em ferramentas,
usadas pelo próprio Estado para sua legitimação.
A
atomização individual liberal que encurrala o individuo nas suas
escolhas, apenas facilitou a acção do próprio Estado. Há aqui uma frase
que circunda, evidenciando esta questão: “As formas de poder político
tendem a conservar as formas de organização hegemónica”. Sendo assim, é
fácil perceber o porquê da perpetuação do paradigma que vivemos hoje.
Vemos
isto na prática, agora, com o fenómeno da Covid-19 e a perpetuação de
estados de emergência pelo mundo fora concomitante com o medo, a
insegurança e a mediatização. O individualismo que nos torna impotentes,
mas também egoístas, vê-se reduzido à orla estatal. Pelas razões que
expliquei há pouco, ao estarmos completamente dependentes dele em todas
as componentes, este controlo geralmente é oferecido sem qualquer
resistência. Como é óbvio, quem dá também pode tirar, invocando
facilmente o conceito ambíguo de raison d’état.
Para
quem nasce dependente, o risco é difícil de aceitar. Assim, como
cidadãos do Estado olhamos para ele como porto seguro e garante de
sobrevivência. Como há dias disse a magistrada Maria José Morgado no
programa “Governo Sombra”, além das questões jurídicas que implica o
prolongamento generalizado de estados de emergência, a nível sociológico
verifica-se a rejeição completa da insegurança. Essa rejeição, sim, vai
completamente contra aquilo que é a realidade da própria existência
humana. Mesmo sabendo isto, os direitos, liberdades e garantias parecem
menosprezáveis comparavelmente ao objectivo irreal de uma segurança
completa. Talvez pela razão desta inabalável crença, a intolerância cada
vez se manifeste mais nas nossas sociedades.
Com
isto, é bom que tenhamos presente que estes argumentos muitas vezes
foram usados para a justificação dos totalitarismos. Saber que a ideia
de democracia como a queremos pensar, longe de ser natural, é muitas
vezes fabricada pelo tecido da sociedade e do poder, como mostra muito
bem o conceito da democracia iliberal.
É,
assim, inegável, que o papel do Estado, ao contrário do que possamos
pensar, tem aumentado nas sociedades modernas. É importante estar
consciente, para que o equilíbrio que pensamos ter encontrado, não
desvaneça lentamente na sombra destes tempos.
“When
security is understood in too absolute a sense, the general striving
for it, far from increasing the chances of freedom, becomes the gravest
threat to it.” Friedich Hayek
BLOG ORLANDO TAMOSI

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