Uma pandemia e uma crise económica colossal têm grande potencial para destruir expetativas legítimas, acirrar descontentamentos, alimentar radicalismos de esquerda e de direita e fomentar conflitos. Bruno Cardoso Reis para o Observador:
As
previsões são difíceis, especialmente relativamente ao futuro, como
alguém terá dito. E o ano de 2020 mostrou bem a importância do acaso na
política global. Podemos, apesar de tudo, antecipar algumas das
tendências importantes no próximo ano de 2021, no que diz respeito à
pandemia, às relações EUA-China, às grandes tecnológicas, ao populismo e
ao tribalismo identitário, e ao clima.
Uma pandemia sem fim à vista
Este
é o primeiro grande dado a ter em conta na política global deste ano de
2021: a pandemia de Covid-19 está longe de ter chegado ao fim, por
muito que todos nós desejemos o contrário. A este respeito há que ter
muita prudência. Ainda não sabemos qual o grau de eficácia efetiva das
diferentes vacinas, e não sabemos também que mutações poderá sofrer o
vírus, onde e com que efeito. A evolução da pandemia até ao final de
2020 pareceu mostrar alguma vantagem relativa na resposta à doença na
Ásia (Taiwan, China, Nova Zelândia, Singapura). Os EUA, o resto das
Américas e a Europa enfrentaram mais dificuldades, com África
aparentemente menos afetada. Mas esta é uma realidade dinâmica.
A
única segurança que podemos ter relativamente a esta questão, em 2021, é
que haverá enorme vantagens, internas e externas, económicas e outras,
para os países que conseguirem fechar a porta da Covid-19 o mais
depressa possível. A agenda da presidência portuguesa da UE parece
estar, diga-se, ciente desta realidade. Até a pandemia estar
definitivamente controlada, os principais líderes mundiais poderão até
declarar outras prioridades, mas dificilmente deixarão de ter de atender
em primeiro lugar a esta, com uma eficácia que todos iremos avaliando
atentamente.
Um novo presidente dos EUA e uma nova Guerra Fria com a China
Em
2021 iremos começar a perceber que diferença fará um presidente Joe
Biden na política interna e externa dos EUA.Isto, partindo do princípio,
em que quero continuar a acreditar, de que as instituições
norte-americanas saberão manter a norma da alternância pacífica na
presidência que se tem verificado nos últimos duzentos anos. Sabemos que
a margem de manobra interna do Presidente dos EUA é relativamente
limitada, mas ao nível da política externa ela é muito substancial. Ora,
a este respeito a questão crucial será saber como se irá posicionar
Biden face à China. A rivalidade crescente entre a potência ascendente
da China e a potência tradicionalmente dominante dos EUA será um dado
geoestratégico estrutural, não apenas em 2021 e nos próximos anos, mas
nas próximas décadas. Este é também um dos raros pontos de consenso
entre Republicanos e Democratas. O que não significa que os EUA tenham
opções fáceis para fazer frente à ascensão da China. Não poderá haver um
simples regresso às velhas regras da Guerra Fria, vigentes entre
1946-1991, entre a defunta URSS e os EUA. Porque nunca há regressos ao
passado. E porque a China não é a Rússia, embora sendo igualmente um
regime ditatorial, ela é, porém, um país muito mais rico, dinâmico e
cada vez mais importante na economia global, como cliente e investidor.
As escolhas a que esta disputa crescente entre os EUA e a China irão
obrigar os demais países serão difíceis e custosas, nomeadamente para a
velha Europa de que fazemos parte. Mas serão escolhas cada vez mais
inadiáveis.
O tribalismo identitário e o populismo em crescendo
As
tentativas inéditas e chocantes do Presidente Trump para impedir uma
alternância pacífica na presidência dos EUA são mais um sinal do peso
crescente na política global do tribalismo identitário e do populismo
nacionalista. Estas são tendências que, por natureza, são difíceis de
prever. Se há algo que caracteriza os líderes populistas é a
imprevisibilidade, é singrarem desafiando normas e leis, atacando e
minando as instituições. Mas será preciso acompanhar com atenção esta
tendência, desde logo, o seu peso nas eleições que iremos tendo ao longo
de 2021 por esse mundo fora, onde algumas das principais potências são
governadas por líderes com este perfil. E será preciso acompanhá-la
também na Europa, desde as presidenciais em Portugal, até às
legislativas nos Países Baixos e na Alemanha. Uma pandemia e uma crise
económica colossal têm grande potencial para destruir expetativas
legítimas, acirrar descontentamentos, alimentar radicalismos de esquerda
e de direita, e fomentar conflitos. A prevalência da lógica de “nós
contra eles” será a pior possível neste contexto de pandemia e de outros
desafios e ameaças que exigem respostas globais e cooperativas. Mas
também é, diz-nos a história, uma possibilidade bem real, sobretudo, se
as elites governativas e económicas forem culpadas por uma resposta
interesseira ou ineficaz.
Contra as Big Tech marchar, marchar
Em
2021 será importante estarmos atentos aos sinais de tensões crescentes
entre Estados e grandes empresas tecnológicas na nossa Europa, mas
também nos EUA e até na China. Essas tensões irão continuar? Elas irão
resultar nalgum resultado concreto significativo? Uma das tendências
mais importantes das últimas décadas, que se acelerou com a pandemia da
Covid-19, tem sido a crescente digitalização, não apenas das nossas
economias, mas também das nossas vidas. Isto tem ido de par com uma
enorme concentração de poder nas mãos de empresas colossais que
controlam mais riqueza, mais capacidade de inovação, e mais informação
sobre a vida das pessoas que a maioria dos Estados. Ao longo de 2020,
desde o Congresso dos EUA, até à Comissão Europeia, passando pelo
Partido Comunista Chinês, houve sinais crescentes de que esta
concentração de poder nas Big Techs começa a ser vista como uma ameaça
que não pode continuar sem uma reação forte. Há quem defenda
simplesmente a sua dissolução, como os cartéis norte-americanos da
chamada Gilded Age. A importância do crescimento económico e da inovação
tecnológica – do 5G até à Inteligência Artificial, passando pela
robótica e a computação quântica – que os apologistas destas empresas
tecnológicas não deixarão de alegar, poderão travar a escalada neste
confronto. Mas, para além de sabermos onde está Jack Ma, o dono da maior
tecnológica chinesa ausente em parte incerta, importará sobretudo
sabermos para onde irão as relações entre os Estados e as grandes
tecnológicas, em 2021 e nos anos seguintes.
E sobre o clima, nada?
Uma
questão que se recusa a desaparecer é a do impacto das alterações
climáticas. Mas um dos desafios fundamentais para se lidar com este
problema tem sido, precisamente, que os custos de uma mudança estrutural
são muito grandes no presente, para os Estados e para todos nós, e os
ganhos estarão num futuro mais distante. Apesar da crescente e alarmante
frequência de eventos climáticos extremos e consequentes emergências
humanitárias, esta tema ainda tende a ser uma vítima da tendência para
nos focarmos em questões pelo menos aparentemente mais urgentes ou
inadiáveis. Sabemos que é suposto 2021 terminar com mais uma das grandes
cimeiras globais sobre o clima, em Glasgow, na Escócia. Esta será uma
ocasião para a Grã-Bretanha pós-Brexit brilhar. Veremos se serão tomados
compromissos concretos e significativos nesta área vital para o nosso
futuro. Veremos se a tensão entre a China e os EUA afetarão a cooperação
neste campo. Veremos se esta não será mais uma vítima da pandemia, do
populismo, do tribalismo identitário. Infelizmente, a única coisa que
podemos prever, com base na história, com toda a confiança,
relativamente à política global, em 2021, é que termos certamente de
enfrentar importante eventos imprevistos.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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