Foi
do Sultão de Perak que recebi, no Natal, o meu primeiro presente. Na
verdade, fui eu quem, ao recebê-lo no final de novembro, decidi
considerá-lo assim. Fiquei bem contente de poder antecipar a época
natalina, pois esse é, para mim, o momento mais esperado e desejado do
ano.
Certamente,
isso é um resquício da infância. Durante anos, na Bélgica, descer as
escadas com meus irmãos, na manhã do dia 25 de dezembro, ainda de
pijama, para ver os presentes sob a árvore decorada na sala, com a neve
cobrindo o quintal e o ambiente rural ao redor da casa, era a
experiência mais mágica do ano inteiro. Abro neste minuto um livro de
2019 de Jean-Yves Tadié de artigos ou ensaios curtos seus sobre Proust,
um dos presentes de Natal que, complacentemente, em dezembro dei a mim
mesmo. Caio em uma citação de La Recherche a respeito de adultos
rememorando a infância: “eles se perguntam se, naqueles anos felizes, o
inverno não era a mais bonita das estações”.
Há
outras razões, pessoais e filosóficas, para minha continuada veneração
pelo Natal. Minha mulher e eu fazemos aniversário na mesma data, em
meados de janeiro, e assim o Natal é um conceito abrangente, que engloba
pelo menos todo o mês de dezembro e vai até a terceira semana de
janeiro. Essa é a época das comemorações, da sensação de leveza, do
sentimento de que pode haver harmonia entre os seres humanos. É a época
da felicidade. Todo ano, prolongo ao máximo esse estado de espírito.
Duvido que alguém queira me criticar por isso.
Quanto
ao aspecto filosófico da questão, direi que o Natal, independentemente
da importância religiosa da data, de que nesse dia se celebra um
nascimento, parece ser como um resumo, uma explicação do sentido da
vida. É algo que espero o ano inteiro, na expectativa de alegrias sem
fim; mas depois que ele chega, termina rápido demais. Mal me preparei
para festejá-lo, e ele acabou. Acredito que a data ainda está por vir, e
ela já é passado.
O
Sultão de Perak, Nazrin Shah, com graduação em Oxford e mestrado e
doutorado em Harvard, deve ser o único soberano e a única alteza real no
mundo com competência para escrever obras de história econômica. Seus
livros, publicados pela Oxford University Press, têm títulos como
Charting the Economy: Early 20th Century and Contemporary Malaysian
Contrasts (2017) e Striving for Inclusive Development: From Pangkor to a
Modern Malaysian State (2019). Pangkor é uma ilha em Perak, e é também o
nome do tratado pelo qual, em 1874, o Reino Unido assinou com o Sultão
de Perak de então o acordo que iniciou o processo pelo qual, em poucas
décadas, toda a Península Malaia passou a estar sob controle britânico.
Até 1874, o Reino Unido estava presente apenas em Penang, Malaca e
Singapura, que juntas formavam a colônia conhecida como Straits
Settlements.

Na
capa de Charting the Economy, os dois “o” do título são representados
por uma semente de seringueira e grânulos de estanho. Como toda criança
brasileira aprende na escola, a exitosa inserção na Península Malaia de
sementes de hevea brasiliensis roubadas da Amazônia pelos britânicos,
nos anos 1870, pôs fim ao ciclo da borracha no Brasil. Uma ironia é que,
hoje, importamos borracha da Malásia.
Nos
dois livros, vemos como os seringais e as minas de estanho sustentaram,
durante décadas, a economia da Malaia britânica. Após a independência,
em 1957, o novo país começou a diversificar sua produção. Explica o
Sultão de Perak: “dependence on a limited number of primary commodities
with highly volatile prices had been recognised as being an
unsustainable economic strategy”. O estanho é um produto não-renovável, e
a borracha natural é substituível. A Malásia se transformou. Passou a
exportar produtos elétricos e eletrônicos e maquinaria. Desde 1971, a
política econômica, voltada para a eliminação da pobreza, inclusive por
meio de ações afirmativas, de ampliação do acesso à educação e de
políticas de transferências diretas à população menos favorecida, pode
ser sintetizada com a frase “growth with equity”. É surpreendente ver
uma alteza real — que, pelo sistema rotativo entre os sultões para a
ascensão ao trono malásio, deverá se tornar em janeiro de 2029 o XVIII
Rei da Malásia — citar Thomas Piketty como fonte para seu pensamento
sobre a questão da distribuição de renda.
Do
Sultão Nazrin Shah, eu já havia recebido seus dois volumes sobre a
história econômica da Malásia. Fiquei então intrigado com o novo
presente, de que foi portador um amigo comum, Timor, que, de partida
para a Califórnia, onde passaria longos meses com sua família, veio,
exemplarmente, se despedir de mim. O presente real é um livro, com texto
e fotografias de Omar Ariff Kamarul Ariffin, intitulado The Incredible
Fruits of Perak. Nazrin Shah e sua mulher, a princesa Zara Salim,
contribuíram para a publicação da obra. Como outros bonitos livros
promovidos por eles, o volume ajuda a divulgar Perak, conferindo-lhe uma
personalidade própria frente aos outros estados malásios.

Lançada
em 2019, a obra descreve as características de cem frutas, a maioria
nativas de Perak, mas algumas também exóticas. Dezenas de outras são
mencionadas. Há no estado de Perak, segundo explica a princesa Zara
Salim no prefácio, ao menos cinquenta cidades ou vilarejos cujos nomes
celebram frutas nativas.
Em minha primeira Carta da Malásia,
na qual relatei viagem que fiz à ilha de Penang, contei que a paisagem
de Perak, vista do trem, lembrou-me a da Mata Atlântica. Folheando o
livro sobre as frutas do estado, constatei sem surpresa que algumas
existem no Brasil. Quem poderia imaginar que a pitangueira, originária
da América do Sul e de que temos um exemplar no quintal em Brasília,
adaptou-se na Malásia com o nome de cermai belanda? O autor nos dá a
informação de que a fruta também é conhecida como “pitanga” ou Brazil
cherry. A brasileiríssima e corriqueira carambola aparece logo no início
do livro, com o nome de belimbing manis, e aprendo que ela é na verdade
originária do Sudeste asiático e do subcontinente indiano. A carambola é
conhecida na Malásia também como kembola e, sim, “carambola”.
A
maioria das frutas descritas no livro é, porém, desconhecida para mim.
Há muitos anos, em Belém, na praça do Theatro da Paz, tomei pela
primeira vez um suco de cacau. Das lembranças mais fortes que guardo da
cidade está a surpresa que tive então diante da variedade de frutas de
que eu nunca ouvira falar. The Incredible Fruits of Perak causa em mim a
mesma sensação. Pensar que vivi até hoje sem provar melinjau, rawa e
tampoi, entre muitas outras. A melinjau parece particularmente
apetecível.

Uma
das anedotas itamaratianas de que mais gosto é a história, acontecida
não faz tantos anos, em que um estadista indiano visita Brasília. Como é
costume, é homenageado com um jantar. Como sempre acontece, na hora da
sobremesa trazem à mesa não só o doce, como também uma bandeja de
frutas, onde há inclusive mangas fatiadas. O visitante exclama, acredito
que de boa-fé e sem ironia: “Que ótima surpresa! Vocês foram atenciosos
a ponto de mandar me servir uma fruta indiana”. Ele tinha razão, a
manga é originalmente da Índia. É tão adaptada à realidade brasileira,
porém, que cresce sozinha por todo canto em Brasília, e eu mesmo durante
muito tempo acreditei ser ela originalmente brasileira. No nosso
quintal no Lago Sul, ao lado da pitangueira, há duas enormes mangueiras.
No final de dezembro, elas atingem o auge da produção. Seus galhos, no
Natal, devem ter ficado pesados, carregados de mangas rosadas, de
diferentes tonalidades avermelhadas, que me fazem sempre pensar, quando
as vejo de longe, nas maçãs estilizadas que, criança, eu colocava em
toda árvore que desenhava.
Graças
assim à visita de despedida que me fez Timor, trazendo em um único
volume, como presente real, uma centena de frutas de Perak, entrei cedo
no clima natalino.
Menos
de quatro semanas depois, tive de lidar com preocupações mais
transcendentais do que a economia malásia ou as semelhanças entre a
flora brasileira e a da Península Malaia. No domingo antes do Natal,
vi-me caminhando, à noite, pelo gigantesco aeroporto internacional de
Kuala Lumpur, vazio e abandonado. Eu lá não pisava desde abril, quando
fora me despedir dos brasileiros sendo repatriados por causa da
COVID-19. Naquela ocasião, já havia menos voos, mas os que se mantinham
estavam lotados, por causa do novo coronavírus, de malásios voltando ao
seu país ou de estrangeiros regressando aos seus. A própria alegria dos
meus compatriotas de poder voltar para casa e enfrentar a pandemia com
seus familiares tornava o ambiente, para mim, eletrizante. No domingo
logo antes do Natal, pareceu-me o aeroporto, que eu conhecera tão
movimentado, lúgubre no seu abandono.

Como
eu sabia, os problemas filosóficos que passavam pela minha cabeça,
enquanto eu circulava pelo aeroporto entristecido, logo receberiam
resposta: “Ela vai me achar bem ou envelhecido? Magro ainda? Aprovará
esta camisa?”. Pois se eu lá estava, era para esperar minha mulher, que
chegava de Singapura. Recebera ela autorização da Malásia, apesar das
fronteiras fechadas nos dois países, para vir passar uns dias de férias.
Teríamos de fazer quarentena, mas, felizmente, em casa.
Após
uma separação forçada de dez meses, por causa da pandemia e o
consequente fechamento das fronteiras, era um verdadeiro milagre
natalino que eu estivesse ali, esperando por ela. Pensei ser personagem
de algum filme ingênuo, típico da estação, It´s a Wonderful Life talvez,
ou Love Actually.
Não
direi que a ceia de Natal foi a melhor que já tivemos, porque faltou
nossa filha, que mora em Bruxelas, e para quem as fronteiras malásias e
singapurenses permanecem fechadas. Mas foi deliciosa. Após as incertezas
de todo o ano, compartilhadas com a humanidade inteira, e uma
prolongada separação, era possível pensar que, afinal, a nossa era uma
história que terminava bem. Como devem terminar os contos natalinos.
Ary Quintella, diplomata de carreira, é atualmente Embaixador na Malásia. Publica seus ensaios e crônicas na página aryquintella.com
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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