A administração tributária tem poderes totalitários sobre os contribuintes, como, por exemplo, a inversão do ônus da prova em matéria fiscal. Estes poderes têm de ser abolidos num Estado de Direito. Alexandre Mota para o Observador:
Numa
carta dirigida a George Orwell, autor de 1984, Aldous Huxley, autor de
Admirável Mundo Novo, analisou a evolução da sociedade desde a
publicação destes dois ensaios distópicos. Em que medida uma ou outra
distopia estavam a concretizar-se no mundo real? Na opinião de Huxley
corríamos um risco maior de vermos concretizadas as profecias do
Admirável Mundo Novo do que as de 1984. Huxley argumentou que embora a
eficácia dos métodos totalitários, como por exemplo a vigilância
permanente através do “Big Brother”, fossem eficazes a curto prazo, era
inverosímil que essa eficácia fosse sustentável a longo prazo quando
aplicada sobre a maioria da população. Por conseguinte, uma sociedade do
tipo do Admirável Mundo Novo, asséptica, anestesiada, condicionada no
pensamento livre e, sobretudo, com provisões certas de “felicidade” para
as várias castas, seria uma sociedade mansa, pouco dada a rupturas
sociais e, por isso, mais concretizável e duradoura.
Na
verdade, nas sociedades ocidentais do nosso tempo os elementos das duas
distopias surgem interligados numa espécie de síntese diabólica. Hoje é
possível assistirmos a um caminho para a violência intrusiva do estado
ao estilo do livro de Orwell, embora aquilo que sustenta essa intrusão
no longo prazo seja o facto desta se aplicar, sobretudo, sobre uma parte
da população, em benefício de curto prazo da outra parte. Para que tal
resulte, o ambiente cultural e o condicionamento do mundo ficcionado por
Huxley têm de veicular mensagens, via governo e comunicação social, que
mais não são do que doses de “soma”, a droga que nos mantém num estado
letárgico e que nos afasta das agruras da infelicidade, do risco, do
desamor e da dúvida. A droga que, de tanto nos condicionar, nos destrói a
liberdade em nome da segurança e da “boa cidadania”.
A
boa cidadania no mundo de hoje não constrói a democracia, mas resulta
dela. Esta inversão de causa efeito tem consequências perversas e
potencialmente autofágicas para a própria democracia. De facto, a nossa
sociedade civil parece especialmente confortável com a democracia, ao
mesmo tempo que revela desconforto com a liberdade. Em vez de distinguir
aquilo que deveria ser decidido democraticamente daquilo que não
deveria ser sujeito ao sufrágio democrático, abrem-se as portas aos
tiranos democratas que colocam cada vez mais assuntos à consideração das
maiorias, o que viola as nossas obrigações com terceiros,
designadamente a obrigação de não interferir na sua liberdade.
Para
que isto resultasse foi importante desconstruir os significados e
veicular a novilíngua por todos os meios oficiais e oficiosos. Por
exemplo, quando se fala em “direitos” e “liberdade” já não nos referimos
ao direito de não interferência na nossa vida privada, social e
económica. Pelo contrário, os “novos direitos” são positivos e implicam a
obtenção, através do Estado, de um conjunto de coisas e não apenas a
proteção deste sobre os nossos “velhos” direitos de não interferência de
terceiros.
O
que nem Huxley nem Orwell previram foi esta aliança entre a democracia e
a destruição dos velhos direitos em nome dos novos. Em outros ensaios
políticos, como por exemplo Da Democracia na América, de Tocqueville,
ficou patente esta preocupação sobre a extensão do poder democrático
como ameaça à liberdade. Já mais recentemente, o recém-falecido Roger
Scruton explicou como foi vítima do condicionamento e de perseguição nos
meios académicos, pelo simples facto de não partilhar a doutrina da
esquerda bem-pensante.
No
ano passado, o deputado João Cotrim de Figueiredo estreou-se na
Assembleia da República empunhando O Caminho da Servidão, de Frederich
Hayek. Foi um bom sinal, já que se trata de um grande sucesso editorial
em que a tese central é a de que o socialismo conduz ao totalitarismo,
isto é, as políticas de “justiça social” em nome do “bem-comum” contêm
um gérmen da destruição da liberdade. Por outras palavras, os (novos)
direitos positivos de uns subtraem os (velhos) direitos negativos de
outros e tendem a subtrair os de todos.
Como é que um partido de ideias liberais contraria isto?
É tremendamente difícil, mas pode ir tentando marcar pontos, colocando alguns temas na agenda:
1.
A administração tributária tem poderes totalitários sobre os
contribuintes, como, por exemplo, a inversão do ónus da prova em matéria
fiscal. Estes poderes têm de ser abolidos num Estado de Direito. Um
partido de ideias deveria colocar isto no topo da agenda, em especial
sempre que se discute o Orçamento do Estado.
2.
O salário mínimo em geral e a subida dos últimos anos em particular
representam um ataque à liberdade contratual. Se numa fase de expansão
económica, os efeitos da subida no salário mínimo podem ser mitigados
pelo crescimento natural do emprego, já em tempos de contração económica
representam mais uma rigidez que levará ao desemprego e/ou à
subcapitalização das empresas. Para além disso, o salário mínimo
obrigatório retira do mercado muita mão de obra menos qualificada ou em
processo de qualificação, mão de obra que se perpetua na mendicidade e
dependência de subsídios. Um partido de ideias tem de ter a coragem de
propor a abolição do salário mínimo.
3.
O estado da sociedade pós-Covid acentuou a diferença entre uma economia
privada, que vive da produção e trocas voluntárias, e uma economia
pública, que providencia bens e serviços públicos (necessários ou não).
Se parte da economia (privada e pública) foi obrigada a parar, total ou
parcialmente, seria da mais elementar justiça que se aplicassem as
mesmas regras a ambas. Qualquer partido sério, desprendido das
clientelas eleitorais, proporia isto.
Estes
são temas muito difíceis, e estão cheios de armadilhas e alçapões. São
causas condenadas a uma derrota democrática numa primeira fase e,
inclusive, ao opróbrio decretado pela esquerda e pelos seus arautos. Por
isso mesmo, no mundo em que vivemos, são estas as causas que vale a
pena defender.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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