Mandetta não os deixou emplacar a sua narrativa. Os jornalistas queriam que Bolsonaro sofresse um impeachment por crime de responsabilidade, que o STF tomasse providências, e lembraram que a esquerda o denuncia como genocida. Bruna Frascolla para a Gazeta:
Foi-se
o tempo em que os jornalistas costumavam se portar como a voz do
público questionando as autoridades. Hoje, muitos até questionam, mas
sempre à luz da agenda de sua bolha. Quando Haddad foi entrevistado no
Roda Viva, os entrevistadores faziam um recall do seu candidato, que
deveria ter se saído melhor nas urnas. Se você – como a maioria do
eleitorado brasileiro – nunca foi um eleitor de Haddad, então o programa
não é para você. É o programa da bolha bem pensante.
Com
Luiz Henrique Mandetta, os entrevistadores tentavam emplacar a seguinte
visão: Bolsonaro é Satanás, a culpa das mortes por covid é toda dele,
Mandetta tem um pé no Inferno por ter sido seu ministro e não ter
proibido todo mundo de tomar cloroquina, mas tem um pé no Céu por ter
saído do governo brigado com Bolsonaro e por ter defendido a Ciência. Um
dos pecados de Mandetta é ter aderido a um governo conservador, pois o
conservadorismo é contrário à Ciência e, portanto, à saúde.
Confusões dos entrevistadores
Uma
confusão subjacente à entrevista é a de colocar Mandetta como um
defensor intransigente do lockdown nacional à moda argentina, o que não é
verdade. Tudo se passa como se Bolsonaro fosse um antilockdown e
Mandetta um pró lockdown, sem nuances.
Quem
assistiu às coletivas lembrará que a defesa do lockdown era
condicionada à disponibilidade de leitos, e que o ministério, ao
contrário do telejornalismo, frisava que somos um país continental que
não deveria ser tratado de maneira igual. Não fazia sentido, por
exemplo, fechar uma cidade do interior do Piauí porque a capital de São
Paulo estava com um surto.
Outra
confusão subjacente é quanto ao modo de proceder numa pandemia inédita.
Tudo se passa como se a Nossa Senhora da Ciência tivesse na manga uma
solução para a covid já em fevereiro, e toda morte pudesse ser imputada à
má administração. De fato, a humanidade está muito mal acostumada com o
progresso científico, e os bem pensantes não sabem que a ciência começa
com a incerteza. Num vírus novo, surgido de uma ditadura que oculta
dados e dá chá de sumiço em médicos, as dúvidas são abundantes, e as
certezas são escassas.
Mandetta mais democrático que os entrevistadores
Mandetta
não os deixou emplacar a sua narrativa. Os jornalistas queriam que
Bolsonaro sofresse um impeachment por crime de responsabilidade, que o
STF tomasse providências, e lembraram que a esquerda o denuncia como
genocida. Mandetta discordou, e, didático, comparou a situação da covid à
de uma guerra. Se o Brasil manda seus soldados para uma furada, o
presidente será julgado por isso pelas urnas, pela opinião pública e
pela apreciação de sua conduta, passada a guerra. Na pandemia, não
existia procedimento certo já descoberto. Menciona como exemplo a crença
de que lugar quente não tem coronavírus – crença que, segundo ele,
levou os amazonenses a não fechar as fábricas da Zona Franca.
Essa
falta de conhecimento dizia respeito sobretudo à medicação. A opção de
Mandetta, que o levou à maior briga com Bolsonaro, foi a coisa da
cloroquina. Para ele, só coisas que tivessem a eficácia provada deveriam
ser usadas no protocolo de atendimento. A definição de um protocolo de
atendimento não é a mesma coisa que um atendimento compulsório para todo
e qualquer brasileiro. Não há uma planificação central, à maneira
tecnocrática, que proíba médicos de testarem novas soluções. Por isso,
apesar de não ser protocolo, médicos estavam livres para receitar
cloroquina se bem entendessem. Caso o médico matasse o paciente, seria
responsabilizado por isso. Eu até agora não sei se eles entenderam que a
criação de um protocolo não é a mesma coisa que uma planificação
central autoritária do tratamento, e acho que não.
A
briga de Mandetta, portanto, foi causada por essa não-inclusão da
cloroquina no protocolo, bem como pelos pronunciamentos do presidente,
que chamava a covid de gripezinha e apresentava a cloroquina como uma
espécie de garrafada infalível.
Natália
Pasternak, dona de um site de divulgação científica, apontou com razão
que a homeopatia é pseudociência, e reprovou o fato de ela ter sido
usada em Campo Grande durante a gestão de Mandetta como secretário
municipal. Este se defendeu dizendo que a área é reconhecida pelo
Conselho Federal de Medicina, e ele apenas obedece. Ela, como que
mostrando a invalidade do órgão, apontou que ele aceita a cloroquina
também.
Mandetta,
ao meu ver, foi democrático ao considerar que o Conselho tem autonomia,
e que ele não manda nos médicos que querem usar homeopatia. Pondera que
homeopatia não traz malefício nenhum, e que os médicos podem ser
punidos caso ministrem de modo danoso a cloroquina aos seus pacientes.
De minha parte, não creio que um secretário de saúde, e nem um ministro,
devam ter poderes para cassar práticas médicas. A discussão do
financiamento de práticas pseudocientíficas é muito pertinente; mas a
centralização do poder sobre as práticas na mão do Executivo, não.
Fiquei
com a impressão de que, para uma das vozes da divulgação científica no
país, um Conselho de Sábios plantado pelo Poder Executivo deve mandar em
cada pormenor da saúde brasileira, desde prefeituras até médicos
particulares. E essa crença não é a de quem está acostumado a eleições
livres, que podem eleger um “obscurantista”.
Mas
foi pior ainda, na fala de Pasternak, o abuso de dados para imputar
qualquer coisa de ruim ao conservadorismo. Ao que parece, todo mundo que
não é antibolsonarista é um terraplanista que odeia vacinas. No Acre,
segundo Pasternak, 75% das meninas ficaram sem tomar a vacina de HPV, e
isso prova que a agenda conservadora prejudica a vacinação. Que
raciocínio é esse? Que se escolhesse um estado, vá lá. Que tal o Rio de
Janeiro, cuja capital elegeu um bispo da Universal? Que tal São Paulo,
cuja imensa população é representativa do estado de coisas no Brasil?
Que tal o Mato Grosso do Sul, estado do ministro? Não: escolheu o Acre.
Isso não faz o menor sentido, e esse raciocínio de Pasternak nos leva a
desconfiar de sua prudência em qualquer questão que envolva política.
Ela catou o ex-feudo de Tião Viana por causa dos 75% e colou no
conservadorismo do governo federal. Mandetta, mais sério do que ela,
apontou como causa da baixa vacinação uns casos de convulsão que
deixaram os acrianos com medo da vacina.
Os
entrevistadores imputavam, também, a queda da vacinação a uma simples
mudança de governo. Bolsonaro se elege, e pronto: 75% do Acre, e sabe-se
lá quantos por cento do Brasil, viram terraplanistas antivacina. A
crença no poder central é uma coisa de cair o queixo. Mandetta,
prudente, dá aquela explicação nada original, nem contraintuitiva, de
que as doenças não assustam mais como antes, ou para usar a expressão
batida, as vacinas são “vítimas do próprio sucesso.” Quando tinha surto
de poliomielite, ninguém era antivacina.
Coisas interessantes
Sem
dúvida, a crise global de 2020 é um evento histórico que sofrerá muito
escrutínio no futuro. Como é uma crise global, Bolsonaro é um ator
miúdo, como tantos líderes engolidos pelas contingências externas.
Bolsonaro tinha a peculiaridade de ter um ministro mais respeitado do
que ele mesmo na pandemia. (Quem se lembrar do pronunciamento sobre o
próprio “físico de atleta” não precisa ser um fã de Mandetta para
respeitar mais as suas coletivas, ao menos as do começo.) O ministério
da saúde liberou recursos, e então podemos dizer que o auge da pandemia
foi gerido, no Brasil, pelo Ministro Mandetta em conjunto com prefeitos e
governadores. Bolsonaro foi um coadjuvante nessa história. Mas os
entrevistadores, obcecados que são pelo seu Satanás, transformam o
presidente em assunto principal.
A
meu ver, a coisa mais interessante da entrevista ficou por conta de
Mandetta, logo na primeira pergunta – que foi cortada por Vera Magalhães
para falar coisas desinteressantes. Ele conta que uma das principais
dificuldades, que inclusive atrapalhou o atendimento às pessoas, era a
falta de material médico. Diz que uma máscara chinesa entra no Brasil
custando R$ 0,06, ao passo que uma máscara fabricada em São Paulo custa
R$ 0,20. Por essa razão, o mundo inteiro, Brasil incluso, ficou em
carestia com a quarentena da China, mais a corrida por global e
concomitante por equipamentos de saúde.
Na
prática, vimos que a China fez um dumping global, pois as indústrias
fecharam por causa dos preços chineses. A discussão desse dumping e os
meios que o Brasil encontrou para enfrentá-lo na pandemia são assuntos
interessantíssimos. Envolveu, segundo Mandetta, reabrir fábricas de
empresas brasileiras, como a Positivo.
Outro
assunto interessante é a apreciação da saúde no Brasil daqui pra
frente. No lugar de Mandetta e Teich (o breve), entrou um general que
acha que no Nordeste tem inverno ligado à Europa. Esse homem é o que vai
pegar um SUS cheio de cirurgias represadas por causa da covid.
Por
fim, vale registrar que nenhum entrevistador relembrou as falas de
Mandetta sobre contar com colaboração de traficante para bater a
pandemia. Tocaram no assunto de ele entrar em favelas para – segundo os
jornalistas tarados por Brasília – concorrer à presidência. Mas ninguém
menciona esse fato escandaloso que é a aceitação pública, por uma
autoridade federal, do fato de que em favela quem manda é traficante.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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