Doença rara em participante dos testes da vacina de Oxford, agora reiniciados, evoca os casos em que imunização provocou sequelas graves e até mortes. Vilma Gryzinski:
“O
histórico de eventos adversos sérios é muito bom”, disse imunologista
Anthony Fauci. “É muito, muito, muito raro que aconteça qualquer coisa
associada à vacina que seja um evento sério”.
O especialista em doenças infecciosas que todo mundo acostumou a ver falando sobre o novo coronavírus
ao lado de Donald Trump, e que os antitrumpistas celebram como se fosse
do lado deles, não estava tratando da pandemia atual. Sua declaração
foi feita em 2009 e se referia à vacina com o instigante nome de
Pandemrix, desenvolvida pela GlaxoSmithKline contra a gripe suína,
provocada pelo vírus H1N1.
Em
escala muito menor do que acontece agora, a expectativa de uma epidemia
grave havia provocado um processo acelerado de produção das diferentes
vacinas desenvolvidas, com a “compressão” de etapas, quando a substância
imunizante começa a ser fabricada mesmo antes que terminem os testes em
massa para estabelecer as duas colunas fundamentais: eficiência e
segurança.
A
Pandemrix, que nunca foi licenciada para uso nos Estados Unidos,
provocou entre imunizados europeus um dos mais bizarros efeitos
colaterais da história das vacinas: a narcolepsia.
A
“doença do sono”, quando o é afetado o mecanismo que regula o horário
de dormir e a duração do sono, foi diagnosticada em um em cada 55 mil
vacinados dos quatro aos dezoito anos na Inglaterra. A origem foi
identificada na emulsão adjuvante, substância usada para turbinar o
efeito da vacina.
Os
anticorpos estimulados pela Pandemrix para combater o H1N1 também
podiam “colar” nos receptores do cérebro que regulam o sono e a vigília,
provocando a reação autoimune em pessoas que já tinham um risco
genético para a doença.
Praticamente
todos os vacinados afetados pela narcolepsia, tal como muitas das
pessoas que desenvolvem naturalmente essa doença rara e instigante,
tinham uma variante específica num gene da família que ajuda o corpo a
distinguir entre suas próprias proteínas e as provenientes de agentes
invasores.
Estamos,
portanto, no campo delicado e misterioso das reações autoimunes. É
exatamente nele que as vacinas, em casos relativamente isolados, podem
provocar respostas exacerbadas.
Foi
o que aconteceu com a vacinação contra a gripe suína de 1976, quando um
jovem soldado chamado David Lewis, baseado em Fort Dix, no estado de
Nova Jersey, morreu em decorrência de uma nova cepa da influenza.
Gerald
Ford, o presidente que havia substituído Richard Nixon depois do
escândalo de Watergate, queria ser eleito por direito próprio e a
corrida da vacina começou. Quando a primeira imunização ficou pronta,
tirou uma foto sendo vacinado.
O
mesmo fizeram 45 milhões de cidadãos comuns, um terço da população
americana na época. Desses, 450 desenvolveram a síndrome de
Guillan-Barré, uma das mais misteriosas doenças da família autoimune.
Trinta morreram. Curiosamente, a nova influenza não saiu dos limites de
Fort Dix e a única vítima falta foi o soldado Lewis.
A
Guillan-Barré (sobrenomes dos dois médicos franceses que a
identificaram como patologia específica) provoca dores intensas e rápida
e progressiva paralisação, resultado de um dos piores ataques que o
organismo pode fazer a si mesmo: contra a bainha de mielina que envolve
os axônios, as células nervosas.
Com
o embaralhamento nas mensagens enviadas ao cérebro, a capacidade de
respiração é afetada nos casos mais graves. Geralmente, a origem da
doença é associada a uma reação excessiva contra algum tipo de infecção,
mas a medicina ainda está longe de desvendar completamente os
mecanismos da síndrome.
O princípio da imunização é conhecido desde sempre pela humanidade: veneno de cobra com veneno de cobra se cura.
As
vacinas são feitas com vírus inativos ou atenuados da doença que
pretendem combater, ou com seus “primos-irmãos”, como os adenovírus
pesquisados e testados atualmente para criar anticorpos contra a nova
cepa da família corona.
Um
erro de fabricação levou a Cutter Laboratories a um dos episódios mais
graves da história das vacinas. O uso de um vírus vivo, em 1953,
infectou 220 mil pessoas vacinadas contra a poliomielite. Dessas, 70 mil
desenvolveram fraqueza muscular, 164 sofreram paralisia e dez morreram.
O
“Incidente da Cutter”, como o caso ficou conhecido, não impediu que a
vacinação contra a pólio viesse a se transformar num dos maiores
sucessos da história da medicina, chegando, na prática, à erradicação da
doença, com apenas 22 casos diagnosticados em 2017.
As
vacinas contra o novo coronavírus já estão sendo fabricadas, em escala,
com o objetivo de cortar etapas: quando sua segurança for comprovada,
as doses já poderão começar a ser administradas.
O
problema é que a segurança só pode ser atestada com os testes em
grandes quantidades de voluntários, na casa das dezenas de milhares,
como está acontecendo agora. A quantidade de testes tem que ser grande
justamente para filtrar as possíveis exceções, os efeitos adversos que
uma pequena quantidade de pessoas pode ter.
Idealmente,
num futuro não muito distante, quando os perfis genéticos forem
administrados por Inteligência Artificial, casos específicos estarão
identificados e dispensarão a imunização.
A
interrupção por uma semana da aplicação em voluntários da vacina de
Oxford, a mais adiantada dos oito protótipos na fase 3, descontando-se
manobras propagandísticas como a Sputinik V de Vladimir Putin, foi
causada por uma doença neurológica numa voluntária.
A
rara mielite transversa tem possivelmente uma origem autoimune. Ela
também decorre de infecções que desencadeiam a inflamação da medula
espinhal, danificando a mesma bainha de mielina envolvida na síndrome de
Guillan-Barré.
A busca em massa por uma vacina contra o novo vírus é um empreendimento científico sem precedentes.
Nos
anos cinquenta do século passado, as pesquisas sobre uma vacina para a
pólio foram financiadas por um movimento popular, a Marcha dos Tostões.
Na
época, havia nos Estados Unidos 59 mil casos por ano de paralisia
infantil, como era chamada. Ainda estava viva a memória do presidente
Franklin Roosevelt, que venceu a grande depressão e a Segunda Guerra
Mundial preso a uma cadeira de rodas, por causa da pólio.
Jonas
Salk recebeu a fortuna de 200 mil dólares e em 1954 tinha a vacina
pronta e testada (a fórmula líquida foi desenvolvida depois por Albert
Sabin).
Um
estudo que analisou dados entre 1963 e 2015 concluiu que as vacinas
contra pólio, sarampo, rubéola, raiva e hepatite evitaram 10 milhões de
mortes em escala global.
É
esse tipo de expectativa, em escala infinitamente mais ampla e intensa,
que aguarda a ChAdOx1, as iniciais, em inglês do extenso nome da
“vacina vetorizada por adenovírus de chimpanzé desenvolvida pela
Universidade Oxford”.
Ou alguma de suas concorrentes em estágio avançado de testes.
Saber
que, no passado, houve erros e casos até fatais de efeitos colaterais
não tira a urgência, no presente, de chegar à única forma totalmente
garantida de combater o vírus.
BLOG ORLANDO TAMOSI

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