Pioneiro no uso de corticoides no combate à covid-19, Roberto Zeballos
defende intervenção precoce e acredita que a vacina pode acabar com o
pânico. “Caso funcione”. Entrevista concedida a Paula Leal, da revista Oeste:
Em meio a previsões catastróficas de que o novo coronavírus mataria
entre 1,8 milhão e 40 milhões de pessoas no mundo inteiro até o início
de setembro, o clínico geral e doutor em imunologia Roberto Zeballos, 60
anos, tem um olhar bem mais realista sobre os números da covid-19. “Nem
todo mundo é suscetível a essa epidemia”, explica o médico.
Zeballos apoia o grupo de médicos que defende o tratamento precoce e
foi pioneiro na adoção de protocolo que usa corticoide via oral como
tratamento para a covid-19 no Brasil. Chamado para reverter o quadro
crítico de casos em Belém, no Estado do Pará, Zeballos orientou o
tratamento de 323 pacientes. Apenas um deles morreu. “Vi que tinha algo
muito poderoso em mãos”, diz sobre sua experiência na capital paraense.
Relutante à estratégia de vacinação em massa, o médico acredita que
não há como desenvolver uma vacina segura em tão pouco tempo. Embora
admita que a notícia possa aplacar o pânico de parte da população, o
desafio será lançar no mercado um imunizante que de fato funcione.
Zeballos recebeu a reportagem da Revista Oeste em sua clínica, no bairro
de Vila Nova Conceição, na capital paulista. A seguir, os principais
trechos da entrevista.
Previsões catastróficas propagadas por cientistas e pesquisadores
davam conta de que o Brasil teria 1,4 milhão de mortos até o final de
agosto caso não fossem tomadas medidas rígidas de isolamento. Até o
momento, o país registra cerca de 123 mil mortes. O Imperial College de
Londres previu que até 7 setembro o coronavírus mataria algo entre 1,8
milhão e 40 milhões de vítimas em todo o planeta. Em torno de 860 mil
vidas foram perdidas no mundo. O que deu errado com essas previsões?
Nem todo mundo é suscetível a essa epidemia. Chego a essa conclusão
pela observação da capital paulista. A gente sabe que 5% dos infectados
evoluem para um quadro crítico, 95% vai bem. Cinco por cento de 12
milhões de pessoas, considerando que 100% seriam suscetíveis à doença,
estamos falando de 600 mil pessoas ficando doentes ao mesmo tempo, é
quase uma cidade. E não tivemos colapso nos hospitais de campanha em São
Paulo. Mas foi por causa do isolamento? Também não. Porque grande parte
da população não tem condições de espaço para fazer isolamento em sua
residência. Então, chega-se à conclusão óbvia de que nem todo mundo é
suscetível à doença.
Como o senhor avalia as políticas de isolamento que foram adotadas no país?
Não posso criticar, porque alguns colegas acreditavam no isolamento
duradouro. É a visão deles. O isolamento que fizeram aqui em São Paulo,
por exemplo, não posso criticar, porque era tudo muito novo. Mas já saiu
estudo mostrando que é o isolamento intermitente que adianta. É
importante observar que, enquanto as pessoas não entram em contato com o
vírus, a epidemia não acaba. Aliás, é algo que se conhece de outros
históricos epidemiológicos. O propósito do isolamento é evitar que todo
mundo fique doente ao mesmo tempo para não colapsar o sistema de saúde,
ou seja, para o sistema não ficar sobrecarregado de gente, para não
morrer o cara que está infartando, a menina jovem que está com infecção
urinária generalizada, as pessoas que estão fazendo tratamento
oncológico. Por isso existe a estrutura de isolamento. Então, fui a
favor de preparar a estrutura de saúde no primeiro mês e depois liberar
os pacientes de baixo risco para trabalhar, com controle. Se aumentasse o
número de casos, isolaria de novo.
Além do baque na economia, que outros efeitos podem acarretar medidas de isolamento social?
O isolamento prolongado traz consequências graves, uma delas é a
psicológica. Nos Estados Unidos, as chamadas de emergência 911
aumentaram 800% porque as pessoas tinham medo de ir aos hospitais e
acabavam morrendo em casa. Na Espanha, aconteceu um colapso nos
hospitais psiquiátricos porque o desgaste psicológico é absurdo. Isso
quando não entramos no mérito da economia. Porque onde não tem dinheiro
não tem saúde. Onde tem miséria não tem saúde. Posso dizer que depois do
primeiro mês eu achei que deveria flexibilizar, para mais pessoas de
baixo risco se contaminarem e criarem a chamada imunidade de rebanho e,
assim, reduzir a taxa de contaminação.
As escolas devem reabrir?
Têm de voltar. Há um estudo da Harvard a favor da reabertura das
escolas, mostrando que crianças até 9 anos têm duas a três vezes menos
probabilidade de transmitir a covid-19. Após a reabertura das escolas em
muitos lugares, não houve aumento de casos. Como você explica isso? É
fato e raciocínio. Talvez porque as crianças não sejam os vetores que a
gente achou que fossem, como elas são, por exemplo, para o H1N1. E mais,
chega uma hora que a vida tem de voltar.
O senhor é pioneiro no Brasil na prescrição de corticoides no
tratamento de pacientes com covid-19. Por que resolveu apostar no
medicamento?
Sou clínico, preciso examinar o paciente e observar os sintomas. O
primeiro paciente com covid-19 que tratei com uso de corticoide tinha 44
anos, era magro, não fazia parte do grupo de risco. No décimo dia da
doença, ele estava com 80% do pulmão tomado. Precisou ser internado, mas
só piorava. Então um colega me apresentou um estudo chinês mostrando
que o uso da metilprednisolona [um tipo de corticoide] diminuía a
mortalidade. Meu paciente estava para entrar no tubo, não vinha se
comportando como a gente esperava, falei para o meu colega: “Vamos
tratar com corticoide”. Era uma novidade para mim. Em cinco dias, o
pulmão clareou, em sete dias não tinha mais o vírus. Como a gente
explica a situação? A covid-19 é uma doença imunológica desencadeada por
agente viral. Como consequência da ação direta do vírus, surgem nos
primeiros sete dias sintomas como dor de garganta, dor de cabeça,
diarreia. Se o vírus fosse o grande responsável pela lesão pulmonar, nós
deveríamos ter problemas respiratórios nos primeiros sete dias. Não. Os
problemas respiratórios aparecem em média entre o sétimo e o décimo
segundo dia, mostrando então quando se estabeleceu a resposta
imunológica do organismo. O mecanismo da doença e todas as complicações
futuras só ocorrem se o sistema imunológico não for fortalecido no
começo, porque é ele que leva à inflamação e favorece a formação de
trombos, por exemplo. Com o uso do corticoide, é possível modular a
resposta do sistema imunológico do paciente e resolver o problema.
Na última quinta-feira, dia 2, uma pesquisa publicada no periódico
Journal of the American Medical Association comprovou que o uso de
corticosteroides reduz a mortalidade em casos graves de covid-19. O
senhor adota um protocolo de tratamento com corticoides em seus
pacientes desde abril. Qual sua avaliação sobre as conclusões dessa
pesquisa?
A única droga hoje que é unânime no combate à covid-19 é o
corticoide. Essa publicação só saiu depois que o pessoal percebeu que os
pacientes que estavam na UTI melhoravam com a medicação. Os trabalhos
recentes ainda não estão aproveitando o momento certo em que o
corticoide deve ser ministrado. A preocupação que alguns colegas sempre
tiveram e ainda têm hoje é que o corticoide pode comprometer a imunidade
do paciente e, portanto, haveria um aumento na replicação viral. Mas
isso só ocorreria se você desse altas doses de corticoides na fase entre
o primeiro e o sétimo dia da doença, em média. Então, por receio de
evitar a replicação viral, eles só prescrevem nos casos críticos. Eu dou
no começo da fase inflamatória pulmonar, e isso é inédito aqui no
Brasil. O tratamento via oral com corticoide também é inédito no país.
Se quiserem me criticar por fazer uma experiência, respondo que estou
tendo resultados, não vou deixar de atender meus pacientes.
Em Belém, no Estado do Pará, o sistema de saúde chegou a colapsar,
ou seja, pacientes ficaram sem atendimento por falta de condições
hospitalares. As equipes médicas locais entraram em contato com o senhor
para pedir orientação quanto ao uso de corticoides no tratamento dos
pacientes com covid-19. Como foi a experiência?
Criamos o “Protocolo Colapso”, demos o corticoide via oral e
resolvemos a crise no Pará. Dos 323 casos auditáveis, só morreu uma
pessoa. E eram casos de internação, só que não havia leitos suficientes.
Isso abriu caminho para outra coisa. Além do tratamento com
corticoides, alguns colegas distribuíram mais de 50 mil kits com
cloroquina. E observei que lá os casos não ficaram tão graves. Depois do
que ocorreu no Pará, não era só a minha experiência, era a de mais de
250 médicos. Então, ganhei força para continuar divulgando. Vi que tinha
algo muito poderoso em mãos.
Grupos de médicos em todo o Brasil se reuniram para apoiar o
tratamento precoce no combate à covid-19. Qual a vantagem de acolher
precocemente o paciente?
Minha tese é que, quanto mais mais cedo o médico controlar o processo
inflamatório, menos complicações o paciente terá. Dá até para tratar
ambulatorialmente, de forma domiciliar, como venho fazendo. Outra
questão é que o paciente chega fragilizado. Não posso receitar uma
Novalgina e mandá-lo para casa quando ele soube que o amigo morreu de
covid-19. Então, é preciso acolher. No começo, eu prescrevia ivermectina
e vitamina D e ficava de olho no sexto dia. No sexto dia, ia com tudo,
pela confiança que tinha, no uso do corticoide. Acho que o recomendável é
falar em acolhimento precoce. Porque, se o médico não quer dar
cloroquina, por exemplo, não pode deixar de olhar seu paciente de perto
para não perder o tempo da doença. Esse é o meu critério. O que mais
mata no Brasil é o tratamento tardio, isso é um fato. Apoiei esse grupo
de médicos porque eles desenvolveram três estratégias: uma nos primeiros
cinco ou seis dias, em que o profissional pode prescrever vitamina D,
ivermectina, cloroquina; a segunda, no começo da fase inflamatória, em
que se recomenda o uso de corticoides. A última, um protocolo de
emergência para o caso de colapso do sistema de saúde, quando não há
hospitais. Se a cloroquina não se mostra eficaz, o médico traz o
paciente para perto e pode entrar com corticoide na hora certa. Porque
48 horas podem ser a diferença entre uma doença moderada e sua evolução
para quadros mais graves.
Na corrida por uma vacina contra o novo coronavírus, quem chegará primeiro?
Quem falou que temos tempo hábil para elaborar uma vacina segura? Não
temos. Quem falou que a vacina é a grande solução para esse vírus? Se
ela funcionar. A vacina pode acabar com o pânico, caso funcione. Estamos
diante de uma doença que mata quem recebe tratamento tardio. Hoje, na
Europa, não há aumento de mortes. Aqui em São Paulo, estamos em queda
livre. Quando se entende o mecanismo da doença, que o que põe a vida em
risco é a resposta do sistema imunológico e não o vírus em si, é
possível estimular o sistema imunológico dos doentes para desenvolver
uma resposta. De todo modo, no que diz respeito a vacinas, é mais fácil
ter estratégias de tratamento do que sair vacinando todo mundo. Essa
epidemia está mostrando que existe começo, meio e fim. Se houver uma
outra onda, pelo menos os médicos já aprenderam a tratar.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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