Em artigo publicado pelo Observador,
o professor João Carlos Espada comenta a polêmica disciplina "Cidadania
e Desenvolvimento", introduzida nos currículos escolares:
O abaixo-assinado sobre os alunos de Famalicão terá tido pelo menos o
mérito de suscitar um intenso debate sobre um tema que até agora estava
ausente na nossa praça pública. Refiro-me sobretudo ao conteúdo da
disciplina ‘Cidadania e Desenvolvimento’. (Declaração de interesse:
subscrevi aquele abaixo-assinado.)
No âmbito deste estimável debate, artigos inflamados e extensos
(contra) abaixo-assinados têm vindo a defender a obrigatoriedade da
referida disciplina. Mas parece haver nesta causa uma dissonância
cognitiva. Não se trata sobretudo de saber se a disciplina deve ou não
ser obrigatória. Trata-se de saber, em primeiro lugar, se a disciplina
deve ser monista ou pluralista. Se for monista, não pode ser obrigatória
— de acordo com a nossa Constituição pluralista.
Esta dissonância cognitiva faz lembrar um debate antigo sobre a
Constituição de 1975. Devem as nacionalizações ser consagradas na
Constituição?
Ralf Dahrendorf abordou este tema crucial de forma relativamente
simples a propósito de um impulso de sinal contrário ocorrido na Europa
de Leste após a queda do comunismo em 1989. Em Reflexões sobre a
Revolução na Europa (Gradiva, 1991), ele tentou refrear a tentação de
colocar nas Constituições das novas democracias pós-comunistas um modelo
de ‘capitalismo puro’. Tratava-se de certa forma de um impulso
simétrico ao de colocar o ‘socialismo’ na Constituição portuguesa após a
queda da ditadura em 1974.
Contrariando esses impulsos, Dahrendorf recordou a distinção entre
política constitucional e política normal. Na política constitucional só
há duas opções: ou uma Constituição demo-liberal pluralista, ou uma
Constituição autoritária e monista. A diferença reside sobretudo no
facto de que a Constituição demo-liberal pluralista permite e garante a
concorrência entre várias opções ao nível da política normal.
Por exemplo, privatizar ou estatizar os caminhos de ferro são opções
da política normal e por isso não devem constar das normas
constitucionais — mas apenas dos programas de diferentes partidos que
concorrem entre si civilizadamente no Parlamento, sob a protecção da
Constituição pluralista.
Na época actual, a estatizacão dos meios de produção deixou de estar
na moda como alegado requisito indispensável da democracia. O seu lugar
foi agora ocupado por teorias alegadamente emancipadoras sobre sexo,
género e questões afins (designadamente ambientais). A teoria da moda
actual consiste basicamente em dizer que não há democracia sem o
reconhecimento de que a identidade sexual é uma construção social, por
isso arbitrária e que, por isso, todos os comportamentos sexuais são
arbitrários ou equivalentes.
Pessoalmente, não tenho nada contra a expressão pública e livre desse
ponto de vista. Até acho estimulante que o argumento possa ser
amplamente apresentado — como diria John Stuart Mill, gerará um
estimável esforço intelectual para justificar a posição clássica de que a
identidade sexual tem um fundamento natural.
Mas ficaria bastante aborrecido (para dizer o mínimo) se me viessem
dizer que eu, para poder ser considerado cidadão democrata, teria de
subscrever a teoria da identidade sexual como construção social. Em
rigor, para regressar ao exemplo de Dahrendorf, isto equivaleria a dizer
que, para ser democrata, seria necessário defender ou a estatizacão dos
caminhos de ferro (no caso português pós 1974) ou a sua privatização
(no caso da Europa de Leste pós 1989).
Acontece, simplesmente, que é isto mesmo que diz a disciplina de
‘Cidadania e Desenvolvimento’. Por outras palavras, a disciplina de
‘Cidadania e Desenvolvimento’ sustenta a doutrina monista segundo a qual
a defesa das regras gerais da cidadania democrática impõe a
concordância com doutrinas específicas sobre sexualidade e identidade de
género.
Acontece, simplesmente, que esse entendimento da identidade de género
é apenas um entendimento particular — o qual, numa democracia
pluralista, é livre de se exprimir e de concorrer com outros
entendimentos particulares. E, por isso mesmo, numa democracia
pluralista, esse entendimento particular não pode ser imposto como único
intérprete da democracia.
Por outras palavras ainda: uma disciplina sobre ‘Cidadania e
Desenvolvimento’ poderá eventualmente incluir a teoria sobre o género
como ‘construção social’. Mas, se o fizer, terá obrigatoriamente de
citar essa teoria como uma proposta particular que concorre com outras —
que terão necessariamente de ser citadas, pelo menos em pé de
igualdade.
Há, naturalmente, uma outra hipótese mais simples: que a disciplina
de ‘Cidadania’ (o ‘desenvolvimento’ poderia ficar na gaveta, como diria
Mário Soares) se centre basicamente no estudo da nossa Constituição
pluralista e das regras de civilidade, cortesia e respeito mútuo que nos
permitem viver em liberdade ordeira sob a lei — e não sob os caprichos
autoritários dos chamados “teóricos do género”.
Post scriptum: Na noite da passada sexta-feira, patrulhas
activistas da chamada ‘Extinction Rebellion’ (alegadamente
ambientalistas) bloquearam as tipografias de vários jornais britânicos
que consideram ‘reaccionários’ (incluindo The Telegraph e The Times).
Denunciando o inadmissível ataque à imprensa livre, o Telegraph abriu
durante o fim da semana as suas edições online a leitura gratuita. Disse
o jornal: ’Do enjoy — and feel free to agree or disagree. That’s
democracy…’ [Talvez a recomendação pudesse ser recordada aos
autoritários defensores da doutrina monista oficial de ‘Cidadania e
Desenvolvimento’…]
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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