Os
incêndios no Estado da Califórnia não são decorrência do famigerado
"aquecimento global": as florestas arderam impiedosamente em 1894, 1889,
1919, 1932...Luciano Coutinho para a Gazeta do Povo:
A
fumaça que se vê acima é resultado de milhares de incêndios que, no
verão, ardem na vegetação ressequida do Oeste dos Estados Unidos,
sobretudo no estado da Califórnia. O fogaréu deste ano já torrou mais de
12 mil quilômetros quadrados de vegetação. Pelo caminho do fogo, foram
incineradas mais de 4,3 mil edificações e propriedades inteiras, carros e
animais. Mortes já foram registradas.
Comparada
com a de 2019, a temporada de incêndios deste ano pode ser considerada
superlativa. A área queimada em 2020 já é 24 vezes maior que a do ano
passado. O bloco de fumaça é tão denso que quando o sol raiou na última
quarta-feira (9), sua luz foi bloqueada e cidades como São Francisco
ficaram sob um céu alaranjando, com tons de apocalipse.
O
ex-presidente Barack Obama não perdeu a chance de pedir votos para Joe
Biden. “Vote como se sua vida dependesse disso, pois ela depende”,
escreveu desavergonhadamente no Twitter.
Obama
recorreu ao surrado aquecimento global para dizer que a situação
dramática em que vivem milhões de pessoas no estado mais democrata dos
Estados Unidos é exemplo de uma catástrofe cujos efeitos são globais,
mas a solução pode começar pela eleição de Biden. Obama sendo Obama.
Mesmo
tendo destruído uma área 24 vezes mais extensa que em 2019, os
incêndios que o ex-presidente Obama descreve como uma mensagem
derradeira de vida ou morte para os eleitores americanos não chegam a um
quarto das queimadas que ocorriam na mesma região antes de qualquer
colonizador europeu colocar os pés na América, conforme concluíram os
cientistas.
A
humanidade estava a pelo menos quatro séculos de distância da queima do
primeiro litro de petróleo e o que hoje conhecemos como Califórnia já
ardia em chamas todos os anos. Os índios manejavam a paisagem com fogo.
Pode parecer esquisito, mas o ecossistema local é adaptado às chamas.
Até se beneficia delas. Relatos mais recentes mostram que nativos
chegavam a percorrer longas distâncias a cavalo carregando tochas para
espalhar as chamas pela maior área possível. Invariavelmente, as chamas
fugiam do controle. Mas a tática era eficiente. Queimavam muito para
evitar que naturalmente o fogo queimasse muito mais.
Os
arquivos do The New York Times estão repletos de reportagens do século
XIX que – se fossem consultadas pelo staff da publicação ou qualquer
outro jornalista que se mete a escrever sobre os incêndios na Costa
Oeste – seriam uma fonte preciosa para entender as dinâmicas das
queimadas naquela parte dos Estados Unidos.
Há
relatos de incêndios colossais em 1860, 1864 e referências a um
ocorrido em 1781, que produziu uma “fumaça que era tão densa que muitas
pessoas pensavam que o juízo final tinha chegado”. O arquivo do jornal
traz outros relatos sobre o passado enfumaçado da Califórnia. As
florestas arderam impiedosamente em 1894, 1889, 1919 e 1932.
Não
se trata, portanto, de negar as mudanças climáticas, mas atribuir
fenômenos como o da Califórnia ao aquecimento global é um truque no qual
não dá para cair.
A
história das queimadas na Califórnia começou a mudar no início do
século passado. A elite local passou a cobrar o fim das queimadas – que
eram mais que um transtorno, mas sinônimo de prejuízos. Na década de
1920, aproximadamente mil casas foram devoradas pelas chamas.
Nos
primeiros anos, os esforços de redução de queimadas foram promissores,
mas não demorou para que os efeitos se revelassem paliativos; os
resultados não passavam de uma bomba-relógio. Sem fogo, o acúmulo de
matéria orgânica criava condições para queimadas gigantes de tempos em
tempos. É o que está ocorrendo nesta temporada na Califórnia.
A
solução seria o manejo das áreas florestais, mas não como os índios,
que tocavam fogo em larga escala na vegetação e perdiam o controle da
queimada. Falo de fogo controlado, combinado com exploração madeireira e
coleta de matéria orgânica. Mas os dois primeiros recursos sofrem com a
oposição da população e de ambientalistas, que são contrários ao corte
de árvores antigas e ao fogo provocado em épocas certas e sob controle.
Mais
ou menos como o discurso da candidata democrata à vice-presidência,
Kamala Harris, que é senadora pela Califórnia. Ela defende o fim das
usinas nucleares no estado e a substituição por energia limpa. Conceito
lindo e muito popular no Brasil também.
O
que acontece é que o fechamento gradual das usinas nucleares
californianas tem um resultado grotesco. O preço da energia disparou e a
população enfrenta apagões constantes. Em muitas casas, ligar o
ar-condicionado em dias de calor extremo é um luxo pelo fica difícil
arcar. O suplício é ainda maior quando o ar se torna irrespirável fora.
As pessoas se refugiam em casa e, de janelas fechadas e sem
ar-condicionado, cozinham enquanto a Califórnia manda para o mundo o seu
exemplo torto de sustentabilidade.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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