Mesmo vendo os riscos crescerem, nada faz crer que tenhamos clareza
quanto ao rumo a seguir. Artigo do professor Bolívar Lamounier,
publicado pelo Estadão:
Ao contrário da Argentina e de Portugal, o Brasil nunca viu seu
passado como um período prolongado de decadência. Não tendo atrás de si
nada que se assemelhe a uma idade de ouro, nunca experimentou
sentimentos de declínio comparáveis aos vividos por aqueles países.
Os ciclos econômicos da cana-de-açúcar, do ouro e do café não levaram
ao esperado enriquecimento, mas, em cada caso, o empobrecimento foi
compensado pelo surgimento de atividades importantes noutras regiões. O
primeiro grande baque econômico deveu-se à crise de 1929. Assim, foi só
nas três últimas décadas do século 20 e agora, com os trancos brutais
causados pelo governo Dilma e pela pandemia de covid-19, que começamos a
refletir seriamente sobre as agruras sociais, as desigualdades, o crime
organizado, o estado calamitoso da educação, as nossas catastróficas
condições sanitárias e, naturalmente, o azedume generalizado da
sociedade em relação à política. Ainda assim, a verdade é que não
sabemos se essa terrível coleção de tragédias vai solapar ou inverter
nosso otimismo futurista de “país novo”.
Não é difícil perceber como essa identidade otimista se formou,
apesar da pobreza generalizada. Durante a primeira metade do século 20,
até os anos 70, conseguimos sustentar um ritmo acelerado de
industrialização. Essa foi a época em que o desenvolvimentismo se firmou
como mística mundial, impulsionado pelo New Deal e pela prosperidade
americana no segundo pós-guerra, pela reconstrução da Europa, pelo
“milagre japonês” e até pelos arroubos retóricos de Kruchev a respeito
dos avanços da URSS. No Brasil, em 1958, a vitória das chuteiras
nacionais na Suécia, a suavização da velha música de dor de cotovelo e o
sorriso de JK contribuíram poderosamente para melhorar nossa
autoestima. Víamos tudo no País por uma ótica dual. Agricultura era
arcaísmo, indústria era modernidade. Interior era atraso, cidade grande
era progresso. Silêncio era tristeza, barulho era alegria, a tal ponto
que a aconchegante tranquilidade dos pequenos municípios hoje
compartilha o ruído infernal produzido por potentes aparelhos de som.
Na esfera pública, nossos anseios de modernização política e
democracia esbarraram em numerosos obstáculos. Isso não deve ser
esquecido, pois, gostemos ou não, retrocessos podem acontecer na
história de qualquer país, e suas consequências podem ser duradouras.
Sinais de preocupação não faltam. Na política e nas instituições,
dificilmente veremos o Congresso aprovar uma reforma política digna
desse nome. Dificilmente conseguiremos fazer algo contra um Supremo
Tribunal Federal desnorteado ou contra as ações e omissões que empreende
com o objetivo de combater o combate à corrupção. É duro constatar que
temos na Presidência um homem tosco, agressivo, que não vacila em
sabotar o trabalho dos agentes de saúde, ignora a liturgia do cargo que
ocupa e ameaça agredir fisicamente jornalistas como se isso fosse a
coisa mais normal do mundo. E que as Forças Armadas, cristalinamente
definidas na Constituição como “instituições nacionais”, se deixam
cooptar pelo Executivo aos magotes, sem atentar para os riscos que tal
comportamento implica para sua identidade histórica.
E não esqueçamos que sinais dessa ordem estão acontecendo em
numerosos outros países. Na maior e mais exemplar democracia, a eleição
de 2016 levou à Casa Branca ninguém menos que o sr. Donald Trump, um
claro adepto do enfrentamento como forma de ação política, e cuja
desídia no combate à pandemia certamente responde por muitos milhares de
óbitos. Na Hungria, o primeiro-ministro Viktor Orbán só não impõe uma
ditadura escancarada porque não tem força para tanto. Na Turquia, na
contramão da mais elementar prudência, o sr. Recep T. Erdogan insufla
clivagens religiosas, regredindo nos importantes avanços históricos de
seu país no sentido de um Estado laico. Na Índia, o primeiro-ministro
Narendra Modi promove violências sem conta contra a minoria muçulmana,
para só ficarmos neste exemplo. E a China, como ninguém ignora, além de
manter intacta sua máquina de governo totalitária, não perde uma
oportunidade de recorrer à chantagem comercial quando se sente
incomodada pela liberdade de expressão do Ocidente.
Voltando ao Brasil, registremos, de saída, que os gastos
(indispensáveis) com a pandemia liquidaram a perspectiva de contas
públicas ajustadas nos próximos dez anos. Sabemos que tão cedo não
lograremos o nível de investimento e de aumento da produtividade de que
desesperadamente necessitamos. Milhões de famílias sentem o desemprego
bater à sua porta e outras tantas retornam, humilhadas, da paradisíaca
“classe média” para onde o governo Dilma levianamente as mandou.
Fato é que, mesmo vendo os riscos crescerem cada vez mais, nada faz
crer que tenhamos alguma clareza quanto ao rumo a seguir. Não a tem o
governo, não a têm as elites dos diferentes segmentos da sociedade e
tampouco a tem aquela parcela irresponsável que se recusa a usar
máscaras e manter o indispensável distanciamento.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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