As bases da ligação entre o nazismo e o comunismo estão na atuação dos
irmãos Gregor e Otto Strasser. Rafael Azevedo, especial para a Gazeta:
A eterna discussão se o nazismo era de direita ou de esquerda tem
transformado as redes sociais em terra arrasada nos últimos anos, meses,
e, principalmente, nas últimas semanas. Mas pouco se sabe ou se comenta
sobre aquela que talvez seja a mais concreta união entre conceitos
inegavelmente esquerdistas e alguns dos principais aspectos da doutrina
sanguinária professada por Hitler, Goebbels e outros líderes nazistas: o
strasserismo.
Na década de 1920, dois irmãos alemães, Gregor e Otto Strasser,
buscavam uma solução política que pudesse ser uma alternativa ao
comunismo e ao liberalismo da época. Gregor era um veterano da Primeira
Guerra que participou da tentativa de derrubada do governo de Weimar,
formou seu próprio grupo paramilitar — que depois acabou se fundido com o
Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães, mais conhecido
como Partido Nazista — e foi colega de Hitler durante o Putsch da
Cervejaria. Otto percorreu o caminho inverso, tendo sido um membro do
Partido Social-Democrata e opositor da derrubada de Weimar que acabou
seduzido pelo canto das sereias não-tão-belas do nazismo.
Ala esquerdista
Descontente com as medidas reformistas dos sociais-democratas, que
incluíam a repressão violenta a protestos de trabalhadores, Otto acabou
se juntando ao irmão no aconchego do Partido Nazista. Lá, eles se
encarregaram de liderar a ala “esquerdista” da agremiação política.
Apesar de suas diferenças ideológicas evidentes, tanto Adolf Hitler
quanto os Strasser partilhavam de um ponto em comum: a vontade de
combater a pobreza que assolava a Alemanha da época e conquistar o apoio
da classe operária, “rompendo os grilhões do capital financeiro” – mais
especificamente, o “capital financeiro judaico”.
Com o tempo, as habilidades administrativas de Gregor ajudaram a
transformar o Partido Nazista de uma pequena facção política num partido
nacional com grande apelo popular, e ele se tornou o representante do
próprio Hitler – mesmo não tendo os dons da oratória do futuro Führer –
depois que ele foi banido de fazer discursos públicos pelas autoridades
alemãs.
Nos discursos de Gregor Strasser, era possível ver uma nítida
vertente socialista em meio à verborragia típica nazista: “Nós,
nacionais-socialistas, queremos uma revolução econômica que envolva a
nacionalização da economia (...) queremos colocar no lugar do sistema
econômico capitalista exploratório um socialismo real, que não seja
mantido por uma visão judaico-materialista desprovida de alma, mas sim
pelo antigo, confiante, sacrificatório e altruísta sentimento alemão de
comunidade. (...) Queremos a revolução social que trará a revolução
nacional”.
Anticapitalismo insistente
Depois da derrota nas eleições nacionais de 1928, Gregor e Goebbels
foram incumbidos de revisar o programa do partido. A ênfase dada ao
conteúdo esquerdista, que incluía elementos escancaradamente
socialistas, como greves, nacionalização de bancos e indústrias e até
mesmo o estabelecimento de alianças com a União Soviética, acabou por
enfurecer a ala conservadora do partido e o próprio Hitler, que
conseguiu trazer Goebbels para o “lado (ainda mais) negro do Partido
Nazista” e isolar ideologicamente os dois irmãos.
A Gregor coube apenas o papel da reforma administrativa do partido, o
que ele conseguiu fazer com sucesso, transformando-o numa poderosa
organização centralizada com uma máquina de propaganda a seu favor. Com a
Grande Depressão agravando ainda mais a situação econômica do país, os
irmãos voltaram a insistir, no jornal de sucesso que publicavam então em
Berlim, numa necessidade de reformas de viés claramente esquerdista,
entre elas um exacerbado anticapitalismo, reformas sociais e uma
crescente oposição ao Ocidente. Goebbels, a essa altura já totalmente
fiel ao seu novo “mestre”, fez com que Hitler banisse o diário. A
notícia foi um golpe do qual os irmãos jamais se recuperaram. Eles se
afastaram e Otto acabou sendo expulso do partido pelo Führer.
Depois da expulsão, Otto formou seu próprio grupo dissidente, a Liga
de Combate dos Revolucionários Nacionais-Socialistas, conhecida
popularmente como Frente Negra. O grupo pregava que Hitler tinha traído a
causa anticapitalista original do nazismo. Já Gregor continuou firme no
Partido, liderando a sua ala mais radical.
Com Hitler já no poder, a Sturmabteilung (SA), ala paramilitar de
qual Gregor fazia parte, liderada por Ernst Röhm, convocou uma segunda
revolução, para finalizar o que tinha sido começado e remover totalmente
as elites alemãs do poder. Os nazistas mais conservadores se opuseram a
essa medida e Gregor caiu de vez em desfavor. Sua oposição à nomeação
de Hitler como vice-chanceler da Alemanha foi a gota d’água.
Em janeiro de 1933, o Partido Nazista começou a eliminar qualquer
forma de oposição, na chamada Noite das Facas Longas, quando toda a
liderança da SA foi eliminada juntamente com a ala esquerdista do
partido. Gregor foi preso e assassinado dentro de sua cela. Otto fugiu
do país e continuou sua militância do exterior, sendo declarado “inimigo
público número um” por Goebbels, com uma recompensa de 500 mil marcos
por sua cabeça.
Strasserismo e neonazismo
Com o tempo, o strasserismo foi encampado por diversos grupos
neonazistas e se tornou uma versão populista e anticapitalista do
nacional-socialismo. Nessa vertente, os trabalhadores seriam organizados
por “guildas” e receberiam do Estado o direito de gerir suas
indústrias. Os aspectos nacionalistas, xenófobos, antissemitas,
antiglobalização e antieuropeus do “credo” nazista não só foram mantidos
como exacerbados.
No fim da década de 1960, o Partido Nacional Democrata alemão
enxergou nas ideias strasseristas uma maneira de defender algumas de
suas ideias e, com isso, ao mesmo tempo se dissociar, de certa maneira,
da sombra de Hitler. Outros partidos logo se aproveitaram do mesmo
expediente e muitos movimentos neonazistas começaram a utilizar o
símbolo da Frente Negra de Otto Strasser (um martelo cruzado com uma
espada) no lugar dos símbolos nazistas banidos naquele país.
No restante da Europa, membros de partidos de extrema-direita também
se utilizaram dos ideais strasseristas, criando a denominação coletiva
de “Terceira Posição”. Entre os mais famosos estão a National Front
britânica, que acabaria virando o National Party, a Forza Nuova
italiana, a Renouveau Français, e a National Alliance americana. Alguns
autores se referem hoje em dia a esse movimento como
“nacional-bolshevismo” ou “nacional-comunismo”. Talvez essa seja a
grande surpresa diante do eterno debate se o nazismo foi de esquerda ou
direita: descobrir que existiram nazistas ambidestros.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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