O setor da cultura não tem servido ao titular da cultura brasileira, que
é o povo, mas a alguns selecionados, que adoram fácil dinheiro público,
para não correr riscos com seus empreendimentos. Alexandre Garcia:
Regina Duarte, a Namoradinha do Brasil, aceitou ser Ministra ou
Secretária da Cultura com a condição que começasse com um noivado, até
que passasse o medo com o tamanho do desafio.
Não precisaria ter medo quem há 50 anos frequenta o serpentário onde
crepitam as chamas da fogueira de vaidades que é o meio das artes, onde
fervem egos. O setor cultural estatal talvez seja ainda mais perigoso,
porque junta uma rima: a da vaidade com autoridade. A Namoradinha do
Brasil vai ocupar a cadeira de um exemplar dessa combinação, que ficou
sem assento por causa do pronunciamento em que parecia estar no estádio
de Nuremberg, com Goebbels e Wagner. Homem de teatro, incorporou a
persona.
Quando se soube do plágio de Goebbels, na sexta-feira pela manhã,
pensei que fosse a frase aplicadíssima no Brasil, por mentirosos
contumazes: “A mentira repetida mil vezes, vira verdade”. Se fosse, não
seria novidade, pois são velhos conhecidos esses mitômanos que primeiro
se convencem da própria mentira, para depois mentirem convincentemente.
Mas não era a frase. Foi um parágrafo inteiro de Goebbels, uma enrolação
verborrágica que o Senhor Alvim exumava.
Para conseguir almoçar naquela sexta no Clube Naval, o presidente
primeiro teve que demitir o secretário. Alvim flagrado, disse que não
sabia da origem do parágrafo plagiado, o que levou a suposições de
conspiração para atingir o presidente com a fala nazista. Mas depois,
Alvim afirma que assume tudo, isentando assessores. Difícil entender uma
mente assim. Tomara que jornalismo investigativo abra a caixa-preta
desse episódio, para apurar se guarda mera coincidência com o enredo de
“Especialista em Crise”, com Sandra Bullock.
O episódio Goebbels-Alvim serve para chamar a atenção do povo, povão
brasileiro, que existe uma fonte de consumo de seus impostos, chamada
Secretaria – ou Ministério – da Cultura. Porque o setor não tem servido
ao titular da cultura brasileira, que é o povo, mas a alguns
selecionados, que adoram fácil dinheiro público, para não correr riscos
com seus empreendimentos.
Tenho visto gente financiada pelo imposto de todos, que cobra alto
por ingressos de seus espetáculos, vistos só por quem tem dinheiro para
alcançar a bilheteria. Tenho visto falta de critério, financiando obras
que nada dizem ao povo. Vejo grandes centros urbanos centralizando
recursos culturais, a despeito de haver um interiorzão forte, rico de
cultura, de tradições, distante do estímulo estatal, e perdendo suas
raízes, esmagado pela cultura industrial massificada, alheia a seus
valores.
Serve para gente lembrar que a cultura é do povo, não tem dono, muito
menos grupos de donos. E não está jungida ao estado, como sugeriram
Goebbels e Alvim, mas é solta e livre, porque não aceita imposições. Um
povo não pode perder seu passado, ou não terá identidade no futuro.
As raízes de um país são como as raízes de uma família – países e
famílias precisam honrar e preservar seus nomes. Há uma cultura da
Humanidade que perpassa fronteiras: são os grandes nomes da música, da
literatura, das artes cênicas e plásticas. E há uma cultura nacional,
como a nossa, rica, diversificada, cheia de cores e nuances, que deve
ser preservada com o zelo do estado – e diferente do show-business, do
entretenimento industrial, que é uma atividade de risco, como tantas
outras atividades comerciais.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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