Advogados brilhantes, táticas bombásticas e estratégias eleitorais,
senadores que se odeiam e são odiados e presidente explosivo. Pena que o
assunto é chato. Coluna de Vilma Gryzinski:
Não existe uma única alma ingênua entre todos os envolvidos no
julgamento do impeachment de Donald Trump que começa hoje no Senado.
Excetuando-se, claro, os manifestantes, de um lado e do outro.
Os demais são um serpentário de cobras criadas e muito conscientes de
que a possibilidade de condenação – e, portanto, remoção – de Trump é
quase nula.
Simplesmente não existe a maioria de dois terços necessária para
aprovar o que nunca foi aprovado na história americana: a remoção de um
presidente por “traição, suborno e outros crimes qualificados”.
Por isso, a intenção dos democratas é prolongar o quanto for possível
o julgamento solene, com times dos melhores advogados
constitucionalistas e criminais do país tanto na acusação quanto na
defesa.
Quanto mais a coisa durar, mais se consolida a ideia de que Trump
montou uma operação paralela para insuflar autoridades ucranianas a
investigar a atuação de atividades nada republicanas de Joe Biden e seu
filho Hunter no país.
Uma manobra eleitoreira suja e, segundo a acusação, ilegal. Embora o
assunto seja aborrecido e envolva interesses políticos desconhecidos num
país mais remoto ainda.
Nada remotamente parecido com o caso de Bill Clinton, com o interesse natural que aventuras sexuais provocam.
Ainda mais de um presidente acusado de assédio sexual por uma
funcionária pública, Paula Jones, agarrada num quarto de hotel em
Arkansas.
Poucos se lembram que foi isso que acabou trazendo Monica Lewinsky
para a história, as confidências dela a uma amiga falastrona, o perjúrio
público do presidente (“Nunca tive relações sexuais com aquela mulher”,
disse, famosamente) e uma enxurrada de revelações íntimas que desaguou
no vestido manchado de sêmen, submetido a teste de DNA como no caso dos
estupradores comuns.
Como os pobres ucranianos podem competir com isso?
Não podem. Em compensação, nada se compara ao ódio despertado por Trump.
É esse ódio que os democratas pretendem alimentar. Os republicanos,
claro, querem acabar com a coisa toda o mais depressa possível.
Por onde vão começar e quais as figuras políticas e jurídicas que mais devem parecer está no resumo a seguir.
OS DELITOS
Os americanos chamam de “artigos de impeachment”. O mais sério contra
Trump é abuso do poder conferido pelo cargo de presidente ao “solicitar
a interferência de um governo estrangeiro, da Ucrânia, na eleição
presidencial de 2020 nos Estados Unidos”.
Fez isso ao coletar ao governo da Ucrânia – o famoso telefonema a
Volodymyr Zelinsky – que anunciasse publicamente investigações que
“beneficiariam sua reeleição, prejudicariam as perspectivas de um
adversário político e influenciariam em seu favor a eleição presidencial
de 2020”.
Para complicar, e talvez esteja aí a maior encrenca para Trump,
condicionou a liberação da ajuda militar de 391 milhões de dólares para a
Ucrânia, aprovada pelo Congresso.
Uma acusação adicional é a de obstruir a ação da Câmara dos
Representantes ao orientar funcionários e órgãos do governo a não
atender as intimações apresentadas durante a fase de investigação para
um processo de impeachment.
A DEFESA
A apresentação dos argumentos dos dois lados vai se desdobrar em dois dias para cada lado, divididos em 16 horas.
Quando os democratas aprovaram o impeachment, convocaram uma equipe
de quatro advogados constitucionalistas, escolhidos pelas credenciais no
mundo acadêmico e pela repugnância por Trump.
O time de defesa do presidente tem estrelas igualmente qualificadas, mas escolhidas por outro critério.
Como fez frequentemente com seu gabinete, Trump gosta de gente que apareça bem na televisão.
O mais conhecido, justamente pela presença regular em programas jornalísticos, é o veterano Alan Dershowitz.
O constitucionalista foi o mais jovem professor de Harvard, aos 28
anos. Mas fez carreira fora da academia, dando consultoria em casos
espetaculosos como os de Mike Tyson e O. J. Simpson.
Posteriormente, ajudou a reforçar a equipe que conseguiu uma pena
excepcionalmente branda para Jeffrey Epstein, o milionário enquadrado
por abuso sexual de menores.
Preso de novo, no ano passado, ele se suicidou – ou foi suicidado –
na prisão. Uma das jovens do harém de Epstein diz que Dershowitz também
usava os serviços sexuais colocados pelo milionário à disposição de
amigos ricos e famosos.
Mas, aos 81 anos, Dershowitz continua a ser uma força formidável.
Trump também fez outra surpresinha: convocou Ken Starr, o procurador
que começou, bem lá atrás, o processo de investigações sobre Bill
Clinton.
Mas deixou de fora Rudy Giuliani, seu advogado particular que adoraria, segundo disse, tomar o depoimento de testemunhas.
Giuliani está mergulhado até o pescoço na operação paralela na
Ucrânia, para levantar podres sobre os Biden, incluindo envolvimento com
figuras mais do que duvidosas. Queimou o filme, mas certamente continua
a dar muitos, muitos palpites.
Antes de começar o processo, os advogados de Trump já deram a linha:
as acusações não apenas não se sustentam, como são anticonstitucionais.
O JUIZ
O processo americano é único. A Câmara determina se existem crimes
que justifiquem o impeachment. Aprovado, o processo vai para o Senado,
que se transforma em tribunal, sob a presidência do juiz-chefe da
Suprema Corte.
No caso John Roberts, um caso clássico de juiz constitucionalista até
a última célula, um conservador capaz de votar a favor de causas
liberais, como no caso da reforma do programa de saúde conhecida como
Obamacare.
Potencialmente, a decisão mais importante que poderá tomar é sobre a convocação de testemunhas.
E a convocação mais espetacular seria a de Hunter Biden, o filho do
então vice-presidente que encontrou um emprego do outro mundo na maior
empresa de gás natural da Ucrânia.
O que torna todo o caso mais interessante ainda é que, na tentativa
de desconstruir Trump, os democratas acabem levando junto o seu
candidato mais cotado, Joe Biden.
OS SENADORES
Mitch McConnell comanda a “resistência” trumpista, como líder da
maioria republicana. Chuck Schumer recebe de Nancy Pelosi, a presidente
da Câmara, o bastão das forças oposicionistas.
O curioso é que, antes de entrar para a política, Trump tinha
relações amistosas com Schumer. Ambos circulavam nos mesmos ambientes de
Nova York.
Quando se candidatou, Trump encontrou uma enorme resistência em seu próprio partido. Inclusive de McConnell.
Com o surpreendente resultado eleitoral, McConnell virou trumpista
desde criancinha. Já foi atacado num restaurante, onde almoçava com a
mulher, Elaine Chao, secretária dos Transportes de origem chinesa.
McConnell queria um processo tão rápido, para acabar logo com a coisa
toda, que encontrou resistência até entre alguns colegas republicanos.
Como Nancy Pelosi fez, do outro lado, McConnell tem conseguiu uma frente unida quase inabalável.
Exceto, claro, pelo fator surpresa.
Quem sabe o que pode aparecer mais sobre as tramoias de Trump na Ucrânia?
Vale lembrar que o caso todo começou quando um funcionário da CIA
lotado na Casa Branca, Eric Ciaramella, usou um mecanismo estabelecido
justamente para denúncias anônimas sobre atos discutíveis no serviço
público.
É enorme a oposição a Trump no “sistema”, principalmente entre os serviços de informações e inteligência.
Aparentemente, tudo o que os democratas tinham contra Trump já foi despejado nas audiências na Câmara.
Mas quem pode garantir?
E o que seria preciso para mudar o voto de nada menos que 20
senadores republicanos? Ou fazê-los ter uma certa conversa com Trump,
como aconteceu com Richard Nixon, “aconselhado” a renunciar antes de ser
condenado com os votos de seu próprio partido?
O caso contra Trump, até agora, é quase ridículo em comparação com as
falcatruas de Nixon. Mas o estilo trumpista não permite garantir muita
coisa. Aliás, quase nada.
O POVÃO
Todo mundo passou a, saudavelmente, desconfiar das pesquisas. Mas ninguém pode viver sem elas.
Uma das mais recentes, do Gallup, traz um resultado interessante: a tendência contra a remoção de Trump está diminuindo.
Exatamente, com toda a constante barragem contra ele, 51% dos
americanos não querem que seus senadores votem pela remoção de Trump. A
favor, são 46%.
O curioso desse resultado é que a aprovação de Trump continua na faixa dos 44%, quase inalterada.
Portanto, mesmo desaprovando o presidente, uma faixa de eleitores não quer que ele seja tirado da presidência.
Talvez a proximidade da eleição de novembro influencie esta opinião. Já que é para tirar, que seja pelo voto.
Isso tudo só torna o show que começa hoje mais emocionante ainda.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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