Janaína Spolidorio
Nós, humanos, temos uma tendência a ficarmos presos em nosso passado.
Prova disso são as nostálgicas postagens que vemos sobre “você se lembra disso?”
nas redes sociais e a animação que certamente você já percebeu em conversas
quando se relembra fatos passados.
Parece que ficamos “encapsulados” em gerações e muitos de nós temos dificuldade
de sair desta cápsula e viver o presente... imagine o futuro!
É reconfortante lembrar da juventude, dos amigos, do mundo de coisas que
vivíamos entre infância e adolescência, porque simplesmente nos dedicamos ao
que esta parte da vida oferece. Quando crescemos e temos responsabilidades,
começamos a não perceber novidades, não vivenciar “o momento” e parece que
nossa experiência de mundo fica para trás e entramos nesta cápsula temporal de
coisas “do nosso tempo”.
A segunda cápsula do tempo
Quando temos um filho, nos
deixamos entregar novamente às experiências que ele vive. Os pais vivenciam com
seus filhos novidades do mundo e voltam a viver por meio de seu mensageiro, o
próprio filho, no mundo presente, aspirando o futuro.
Passamos a conhecer novos
desenhos, novas brincadeiras, revemos o mundo escolar em companhia de nossos
filhos e isso nos fornece uma nova cápsula para experimentar que, embora não
seja nossa, nos dá energia renovada e lembraremos desta época por muito tempo.
Lembramos que devemos pensar
no futuro... de nossos filhos, mas tentamos educar eles para o passado. Embora
vivenciemos as novidades do presente, com possibilidade de pensar num futuro
mais objetivo, somos movidos pela nostalgia e queremos mostrar para eles nosso
passado. Esta parte é importante e faz parte da aprendizagem: saber de onde viemos
e como o mundo era antes.
O grande perigo é ficar preso no tempo e não proporcionar a oportunidade
de pensar mais abertamente sobre o que está por vir. Sabemos ensinar bem sobre
o passado, mas tão bem que ficamos estagnamos. Não aprendemos com nossos erros
e continuamos fazendo o que nossos pais faziam. Mostramos o quanto é importante
o passado e apenas falamos que é importante pensar no que nosso filho vai ser
quando crescer.
A pergunta que deveríamos estar
nos perguntando é o que fazer para a criança conseguir conviver com o futuro.
Ensinamos a acomodação, quando deveríamos ensinar a pró atividade.
A cápsula eterna do tempo
A maior prova de nossa
estagnação em relação ao tempo é a escola, infelizmente. Aquela que deveria
olhar constantemente para o futuro é a que mais se prende ao passado, não
somente por culpa dela, mas também porque a sociedade espera que ela ensine o “legado
do passado” para as crianças e muitos professores também estão dentro da
armadilha do tempo, assim como os pais.
Dia após dia a escola perde propósito e relevância, com sua lentidão em
se adaptar aos novos sistemas educativos, com sua desorientação em relação a
novas formações e também com a resistência dos profissionais em aprenderem
novidades e aplica-las. Novamente a acomodação nos impede de avançar.
A digitalização do mundo ajuda a conectar pessoas, cidades, países,
continentes, a informação é mais rápida, mas nem por isso real, na maioria dos
casos. Qualquer pessoa pode mudar o mundo para melhor ou pior com a ajuda da
tecnologia, porém o mais preocupante é que quem deveria guiar o certo e o
errado de nosso futuro, ou seja, a escola, não consegue se organizar para estar
consciente de seu papel e poder ajudar os alunos a perceberem competências que
serão úteis em seu futuro. A digitalização tornou o mundo mais complexo, mas
volátil e mais incerto e é neste ponto que a escola deveria mostrar sua
competência, analisando o cenário e prevendo quais novas competências devem ser
incorporadas ao currículo.
A beleza fora das cápsulas
O pensamento pedagógico é que ensinamos ao aluno coisas que ele irá usar
durante sua vida, mas faz tempo que isso não é verdade, porque ensinamos fatos
e fatos podem ser pesquisados facilmente na internet. Os fatos podem ser um
ponto de partida, mas o que devemos ensinar mesmo é o que fazer com os fatos,
como entendê-los, como estudá-los, como aumentarmos nossa capacidade de
aprendizagem e adaptação. O mundo nos recompensa atualmente pelo que
conseguimos fazer e não pelo que sabemos. Não adianta saber um montão de matérias
escolares e informações fossilizadas, se não sabemos o que fazer com elas, como
aplicá-las para facilitar a nossa vida e a dos outros.
É preciso ter a habilidade de não ficar preso nas cápsulas de tempo, de
saber se adaptar ao novo. Aprender envolve muito mais do que as avaliações nos
cobram nas escolas, envolve conhecimentos e informações, conceitos e ideias,
habilidades práticas e intuição. Lidar com as pessoas também faz parte da
aprendizagem: equidade e liberdade, autonomia e comunidade, inovação e continuidade.
Tudo isso deve fazer parte de nosso objetivo de evolução. Todos sabemos
que ficar preso é ruim, mas nos prendemos inconscientemente ao tempo e acabamos
passando isso para nossos filhos e alunos.
É o momento de tomarmos consciência de que o passado é sim importante e
precisamos saber sobre ele para dar continuidade a costumes e aprender com
nossos erros, mas também precisamos saber nos libertar dele para podermos viver
melhor o presente e transformar de modo mais consciente nosso futuro.
Especialista em educação, Janaína Spolidorio é formada
em Letras, com pós-graduação em consciência fonológica e tecnologias aplicadas
à educação e MBA em Marketing Digital. Ela atua no segmento educacional há mais
de 20 anos e atualmente desenvolve materiais pedagógicos digitais que
complementam o ensino dos professores em sala de aula, proporcionando uma melhor
aprendizagem por parte dos alunos e atua como influenciadora digital na
formação dos profissionais ligados à área de educação.
Nenhum comentário:
Postar um comentário