Tradicionalismo combinado a progressismo é a ameaça que a esquerda enfrenta. Coluna de João Pereira Coutinho para a FSP:
1. Como vencer Donald Trump em 2020? A pergunta inquieta os espíritos progressistas, que vão perdendo a fé no processo de impeachment.
Além disso, olhando para os candidatos à indicação democrata, o
cenário é desolador (para dizer o mínimo). Será que a ciência pode
ajudar?
Talvez. No New York Times, os cientistas políticos Christopher Ellis e
James Stimson partilharam os resultados de uma experiência ideológica.
Basicamente, criaram um candidato fictício —Scott Miller— e depois
confrontaram os inquiridos com duas versões desse mesmo candidato.
Na versão mais moderada, o nosso Scott defendia posições
economicamente progressistas (aumento do salário mínimo, seguro de saúde
mais abrangente para a população etc.) e valores tipicamente “liberais”
(justiça social, solidariedade, tolerância etc.).
Na versão mais extremada, Scott Miller era ainda mais progressista em
matéria econômica —mas, em termos de valores, defendia posições mais
“conservadoras” (patriotismo, família, o sonho americano etc.). Moral da
história?
Um candidato democrata que seja progressista em economia e
conservador em valores é aquele que tem mais sucesso junto dos
eleitores.
Mas onde está esse candidato?
A minha resposta aos autores é simples: do outro lado do Atlântico.
No Reino Unido, para sermos precisos, e com uma vitória fresca para
mostrar.
O nome é Boris Johnson
e, nas análises sobre o bicho, tudo é resumido à questão do brexit: ao
batalhar por ele, Boris foi premiado pelos britânicos que já estavam
cansados dessa interminável novela.
Existe uma parte de verdade nisso. Mas não é toda a verdade. Olhando
para Boris e para o seu programa eleitoral, ele quase encarna as
qualidades fundamentais do imaginário Scott Miller.
Sim, os valores conservadores estão lá. Mas Boris também abandonou, pelo menos na retórica, os últimos resquícios neoliberais do partido conservador,
prometendo um ponto final nas políticas de austeridade, maior atenção
às classes trabalhadoras e ao precarizado e um investimento generoso nos
serviços públicos.
Não é de espantar que bastiões tradicionalmente trabalhistas no norte
do país tenham comprado o “conservadorismo social” de Boris Johnson,
decidindo a eleição a seu favor.
Saber se Boris vai cumprir o que promete, eis a dúvida que fica para o
futuro. Mas, no presente, esta combinação de tradicionalismo com
progressismo é a maior ameaça eleitoral que a esquerda contemporânea
enfrenta.
2. Passei anos procurando o filme “Cuba e o Cameraman”. A
literatura crítica era elogiosa e a minha curiosidade crescia com os
aplausos.
Felizmente, a Netflix escutou
as minhas preces. É um documento soberbo —e documento é a palavra.
Durante cinco décadas, o jornalista Jon Alpert foi visitando e filmando a
ilha de Fidel, traçando a sua evolução pela vida do povo cubano.
No início, tudo é promessa —e Jon Alpert, ele próprio um idealista da
revolução, vê em Cuba tudo aquilo que deseja para o seu estado de Nova
York. Educação grátis, saúde para todos, habitação idem. O paraíso na
Terra.
É essa identificação ideológica que o leva a conhecer Fidel, a viajar
com ele em 1979 para os Estados Unidos quando o ditador discursou na
ONU e até a conhecer os seus hábitos mais cotidianos.
Fidel,
por quem tenho simpatia nula, revela nas conversas e nos gestos um
sentido de humor bastante atípico entre ditadores. Mas depois chega
1989. O Muro de Berlim cai. A União Soviética segue ladeira abaixo. E o paraíso, que nunca verdadeiramente existiu, mostra as suas garras.
As prateleiras dos supermercados enchem-se de pó. As famílias
amontoam-se em cubículos imundos. Os hospitais são açougues, com
instrumentos médicos medievais e fármacos inexistentes.
Só o mercado negro permite aos cubanos uma vida ligeiramente acima da
sobrevivência. Aos cubanos que não conseguem fugir, entenda-se.
Mais: quando o dinheiro soviético desaparece, o estado de natureza se
instala. Fome, pilhagem, destruição —a natureza humana como ela é em
plena selva.
A tudo isso, os cubanos respondem com um estoicismo que chega a ser
cômico —e o filme é, primeiro que tudo, uma homenagem a esse povo
admirável.
Se existe algum defeito no documentário, ele só chega no final,
quando Jon Alpert consegue uma última conversa com o nonagenário Fidel.
Não sabemos do que falam, a câmera fica à porta.
Mas a admiração que Jon Alpert ainda sente pelo “símbolo” da revolução é indisfarçável.
Há doenças que não têm cura.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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