Quando a Lava-Jato
chegar às empresas vermelhas, os cidadãos conhecerão os descalabros do
PT junto a ditaduras africanas e bolivarianas. Elas foram erigidas para
manter o partido indefinidamente no poder. Texto de Denis Rosenfield no
Estadão:
A intrincada e vasta
trama de relações entre o PT, o Estado e as empreiteiras, revelada pela
Lava Jato, mostra uma face do capitalismo brasileiro que só com muita
dificuldade pode ser considerada expressão de uma economia de mercado. O
partido sempre se caracterizou doutrinariamente por ser socialista,
contra o lucro e a economia de mercado, que, segundo ele, deveriam ser
controlados estritamente. Resultado disto foi, por exemplo, o fracasso
do programa de concessões, por causa, principalmente, das tentativas de
controle do lucro, considerado um mal.
Da mesma maneira, as
privatizações foram objeto de opróbrio, pois o Estado deveria ser
onipresente. Tudo o que cheirava a “privado” deveria ser simplesmente
descartado. Aliás, além de ser um ativo interventor na economia, o
Estado deveria também ter protagonismo econômico. Dentre suas tarefas,
deveria promover empresas estatais e privadas, que seriam as campeãs
nacionais.
Do ponto de vista das
relações internacionais, tivemos uma escolha igualmente socialista,
privilegiando parceiros como os países bolivarianos e africanos. Lá
também as empresas obedecem aos ditames do Estado-partido, algo que
certamente aparecerá com os desdobramentos da Lava Jato.
Ora, essa ideologia,
esboçada aqui em alguns de seus traços, teve como instrumento empresas
que se prestaram a esse serviço de olho em lucros volumosos, possíveis
somente pelas escolhas partidárias feitas. Denominemos essas empresas de
“vermelhas”.
Em que consistia a
sua função, do ponto de vista partidário? Em financiar o projeto
socialista. Ou seja, empresas símbolos do capitalismo brasileiro
voltaram-se para a implementação de um projeto que, em tudo, contraria
os princípios de uma economia de mercado, da concorrência e do respeito
aos contratos. Lucro, para elas, só servia se fosse astronômico e
baseado numa escolha política. Não seria o resultado do menor preço de
seus produtos num mercado concorrencial.
Enfim, o PT abominava
o lucro, mas produzia lucros exorbitantes para as empresas que o
financiavam. E quem pagava a conta, evidentemente, eram os cidadãos e as
empresas – não vermelhas, claro – por meio do pagamento de seus
impostos.
Não deixa de ser
interessante o paradoxo: empresas vermelhas financiavam um projeto
socialista, que por definição seria contra os princípios que regem uma
economia de mercado e, em tese, deveriam nortear a atuação de qualquer
empresa.
As empresas
“selecionadas”, contudo, não precisariam obedecer aos princípios do
capitalismo. Elas se situariam fora dessa órbita, devendo minar seus
próprios critérios e valores. O discurso anticapitalista petista
concordava unicamente com os “princípios” dessas empresas, as vermelhas.
A “coerência” seria preservada! A cor e a estrela continuariam a
brilhar.
O preço de tal distorção ideológica foi a subversão completa dos princípios da economia de mercado. Listemos alguns.
A intervenção
estatal, no segundo mandato de Lula e nos dois de Dilma Rousseff, foi
erigida em dogma, não admitia nenhuma contestação. Caberia ao Estado
determinar margens de lucro em concorrências públicas e atender, de
forma privilegiada, às empresas que se prestassem aos seus desígnios
socialistas e estatizantes. Chegou-se ao extremo de determinar as
tarifas de energia elétrica, produzindo um déficit que até hoje
prejudica as empresas do setor. Mas o Estado petista tudo sabia... Deu
no que deu!
O lucro, conforme
observado, foi considerado algo a ser evitado, uma espécie de chaga que
não deveria ser tocada. Entretanto, as empresas vermelhas, as que
financiavam o projeto socialista, ditavam os seus preços, em conluio
entre si, onerando o cidadão brasileiro e tratando Estado como objeto de
seu butim. Tudo isso seguindo as orientações estatais e partidárias.
A livre-iniciativa
foi outro princípio completamente pervertido, pois livre era apenas o
intervencionismo estatal. As empresas eram previamente escolhidas tanto
para participar das concorrências públicas quanto na seleção das que
deveriam ser declaradas vitoriosas nessa curiosa expressão do
“capitalismo” brasileiro.
Observe-se que não se
trata simplesmente de um capitalismo de compadrio, aquele que favorece
determinados grupos que não pretendem seguir as regras da livre
concorrência; mas de um projeto político que procurava subverter de
dentro os princípios e valores de qualquer economia de mercado. Ou seja,
empresas vermelhas deveriam pôr-se a serviço da instauração gradativa
de uma sociedade socialista.
Para essas empresas e
para o projeto estatizante petista não valeriam as regras de uma
economia concorrencial, aquela em que as empresas vencedoras, as que se
afirmam no mercado, são as que se destacam pelo mérito, pela
competitividade e pela inovação.
Um dos princípios
sagrados de uma economia de mercado consiste no respeito aos contratos e
na segurança jurídica. Ora, o projeto petista desembocou na mais
completa insegurança, em que apenas as empresas vermelhas tinham a
segurança de investir, visto que seus contratos eram sistematicamente
alterados para auferirem maiores lucros. As demais ficavam à mercê do
arbítrio.
Há, ainda, todo um
novo capítulo do que está por vir, quando a Lava Jato passar a
investigar mais sistematicamente as conexões dessas empresas com certos
países africanos e bolivarianos. A operação passará a revelar como os
governos petistas serviram para o enriquecimento ilícito de seu partido e
de seus integrantes, alguns até ficaram milionários.
Será a “Operação
Angola”, que projetará uma nova luz sobre as empresas vermelhas e o modo
de atuação do PT, corrompendo governos estrangeiros e fazendo lá o que
fizeram aqui. Desnudar-se-á, então, toda uma trama de relações em que os
discursos de solidariedade se mostrarão como mera encenação, um
disfarce do vermelho que a tantos encantou.
BLOG ORLANDO TAMBOSI
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