No Brasil de hoje, colonizado pelo progressismo, há uma confusão dos diabos por causa de antropólogo louco do relativismo cultural que se junta com ambientalista hippie e aciona MP para impor aos índios um estado pré-cabralino. Bruna Frascolla para a Gazeta do Povo:
Recentemente
fui tentada a crer que a democracia surgiu em alguma aldeia xavante. Há
quem diga que surgiu na Grécia, como indica a origem grega do nome.
Demos é povo, krátos é poder, democracia é poder do povo. Mas logo
haveria quem dissesse que dar poder ao povo é populismo. Seja como for, a
democracia foi reputada uma coisa ruim na maior parte da Antiguidade.
No final da Modernidade é que a coisa começou a mudar de figura, com o
experimento realizado por rebeldes ingleses na América do Norte. Ali
surgiu uma República um pouco mais velha do que a francesa da Revolução,
mas a francesa acabou sendo mais famosa. Talvez seja por isso que houve
um rebranding e o regime dos Estados Unidos passou a ser divulgado como
Democracia. O primeiro grande divulgador do modelo foi Tocqueville, um
aristocrata francês na República. Com certeza ele via que o novo regime
de sua terra natal era bem diferente daquele sistema descentralizado que
os norte-americanos chamavam de federalismo.
Mas
nem a Grécia Antiga, nem os Estados Unidos do século XVIII são uma
aldeia xavante, e eu receio que tampouco sejam democráticos segundo o
novo critério em vigência. Pois eu cresci ouvindo que numa democracia
existia liberdade de expressão – e prenderam um cacique xavante por
“ataques à democracia”. Ataques verbais, diga-se. Nesse conceito
pós-moderno de democracia, as instituições (que são a mesma coisa que a
democracia) são uma espécie de donzela em apuros, no alto de uma torre,
ameaçada pelo dragão do populismo, e o Judiciário é o cavaleiro que a
salva. E não me peçam maiores explicações, porque é tudo muito mítico e
confuso – mais digno, talvez, da tradição oral passada numa aldeia
xavante do que do trabalho acadêmico de doutores em direito.
Mas
tampouco era por isso que eu comecei a suspeitar que a democracia
pós-moderna tenha surgido numa aldeia xavante. É porque eu passei os
últimos anos ouvindo que os índios têm que ter a sua cultura respeitada
de modo absoluto – mais até do que a própria pessoa do índio. Se o índio
quiser eletricidade, nananinanão. Vai acabar com seus modos de vida
tradicionais, os seus saberes e conheceres. Se o índio quiser praticar
infanticídio, é correto deixar o indiozinho morrer, porque é a cultura
deles e não cabe impor o discurso “racista” da dignidade do homem. Se
for pra deixar o índio na idade da pedra contra a vontade, ou para matar
criança indígena, a Cultura é soberana. Só resta concluir, então, que a
“democracia” ora vigente no país foi inventada numa aldeia xavante, já
que o índio não pode atacá-la. Registre-se que a democracia pós-moderna é
um legado cultural xavante para o mundo.
Entre oito e oitenta
Entre
liberar o infanticídio e obrigar a ter um estilo de vida totalmente
desaculturado, há um abismo. O que seria um índio totalmente
desaculturado? Um proibido de falar a própria língua, por exemplo, e
obrigado a falar só a do colonizador. Um nativo que passasse a
considerar inferior qualquer vestígio de sua própria cultura, e tivesse
de se vestir conforme a moda europeia, usando roupas quentes demais para
o clima e fazendo penteados impossíveis no seu cabelo. Muito do
colonialismo inglês foi assim na África; e nos Estados Unidos os índios
que não foram mortos deveriam ser “assimilados”, isto é, proibidos de
preservar traços da própria cultura tão elementares como a língua.
Esse
é um dos assuntos em que o Brasil é melhor do que o resto. O Marechal
Rondon, ele próprio descendente de índios e poliglota fluente em algumas
línguas indígenas, tentava atrair os índios para a civilização
seduzindo-os com mostras do poder da tecnologia. A fim de convidar à
troca de presentes os índios mais isolacionistas, fazia coisas como
botar uma vitrola tocando o hino nacional no meio do mato para
impressioná-los. Esse positivista, crente na marcha da Humanidade rumo
ao progresso, apenas tentava seduzi-los porque obrigá-los estava fora de
questão. Rondon era um grande respeitador de culturas indígenas e, ao
mesmo tempo, um entusiasta do progresso. Seria irrazoável decidir se os
índios todos, in bloco, vão viver ou na Idade da Pedra, ou no
agronegócio tecnológico.
Cultura
nenhuma se reduz a um mero atraso tecnológico. A eletricidade chegou à
Europa, à América e ao Japão sem que todos passassem por isso a falar
uma só língua e a ter os mesmos costumes. Os índios não têm por que ser
excluídos. A ideia de que só descendentes de europeus têm o direito de
se beneficiar da ciência moderna é de um racismo evidente, e se
antropólogos de boa fé não enxergam isso, é porque estão loucos.
Até ontem, relativismo extremo
No
Brasil de hoje, colonizado pelo progressismo, há uma confusão dos
diabos por causa de antropólogo louco do relativismo cultural que se
junta com ambientalista hippie e aciona MP para impor aos índios um
estado pré-cabralino. Nenhum descendente de europeu quer usar dos
saberes e conheceres quinhentistas para tratar dor de dente, mas os
índios estão obrigados a viver como se ainda não tivessem contato com
metal. (Não obstante, há casos de sucesso de índios desenvolvimentstas
que conseguem fazer valer as suas vontades, como este aqui.)
Até
ontem, o normal das elites acadêmicas era o relativismo mais
hiperbólico. Os povos tradicionais têm seus saberes e conheceres, então
transmitir conhecimento científico é racismo. Como lembra Eli Vieira,
“um exemplo recente da influência das ideias relativistas sobre a
ciência na academia foi o de uma reunião de estudantes na Universidade
da Cidade do Cabo (UCC), na África do Sul, que circulou nas redes
sociais em 2017. Os estudantes diziam que deviam ‘descolonizar a
ciência’, o que implicava que ‘a coisa toda deve ser eliminada’ e
substituída por uma ‘perspectiva africana’ que aceita que ‘através da
magia negra, você pode mandar um raio para atingir alguém’".
Mas
2017 parece distante como 1917. Mal se passaram 5 anos, e o mundo viu
os progressistas achando que têm o direito inalienável de usar bandeira
gay no Catar, sem contar com a resistência de autoridades locais. E
aqui, na Terra de Santa Cruz, prenderam um xavante por “ataques à
democracia”, sem que a Associação Brasileira de Antropologia desse um
pio.
Absolutismo moral totalitário
Alguma
dose de relativismo cultural é necessária à boa convivência entre os
povos. Nunca as culturas foram todas iguais, e nunca serão – a menos que
um poder de coerção insuportável tenha êxito global.
E
é bem isso que as elites ocidentais, recém-ex-relativistas, passaram a
querer de repente. A noção universalista de Direitos Humanos do
pós-guerra já trazia conflitos com povos tradicionais. Vide o exemplo do
infanticídio: se todo ser humano tem direito à vida, então índios que
praticam infanticídio são contrários aos direitos humanos. Antes,
dizia-se que eles não eram cristãos e deveriam ser catequizados. O
Brasil foi feito assim, mas de repente isso virou “supremacismo branco”
na boca dos relativistas culturais. Com a laicização, deixou de existir
essa consciência de que os homens não são passivos perante a cultura e
escolhem mudá-la com base em valores – sendo a conversão ao cristianismo
uma das formas mais tradicionais na história do Ocidente. A laicização
faz de conta que somos passivos, e que culturas com infanticídio não
existem.
No
século XXI, essa esquizofrenia só fez piorar, porque a noção de
direitos humanos foi ficando cada vez mais radical. Se era tangível
fazer os Estados nacionais convencerem suas tribos a pararem de matar
bebês, de repente os direitos humanos passaram a se equivaler aos
valores particulares das elites urbanas e acadêmicas do Ocidente. Creio
que a melhor representação disso sejam as quotas para mulher no
parlamento afegão criado pelos Estados Unidos – e que a Dona Tabata de Harvard quer pôr aqui, inspirada em Ruanda. Brasil, Afeganistão, Ruanda: tudo a mesma porcaria a ser civilizada, aos olhos de Harvard.
Imaginem
se uma potência resolvesse sair tacando bomba em países que não
respeitam a homossexualidade, nem dão igualdade de oportunidades a
homens e mulheres, nem consideram o aborto um direito: iriam pelos ares
uma porção de países do Oriente Médio, do Leste europeu, da Ásia, da
África e da América Latina. Nisso, ia pelos ares a aldeia xavante,
claro. Onde já se viu ficar contra a “democracia”? Não se pode tolerar
os intolerantes. E todo o mundo é ou intolerante, ou espelho.
É tipo o Estado Islâmico, só que do bem.
Postado há Yesterday por Orlando Tambosi

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