Preso por lavagem de dinheiro e enriquecimento ilícito com fundos para a campanha do pai, Nicolás Petro fez um acordo de delação premiada. Vilma Gryzinski:
Com
lágrimas rolando pelo rosto moreno, uma versão melhorada dos traços do
pai, Nicolás Petro disse as palavras que estão tirando o sono de muita
gente na Colômbia: “Quero anunciar que decidimos iniciar um processo de
colaboração no qual me referirei a novos fatos e situações que ajudarão a
justiça. Faço isso por minha família e por meu bebê que está a
caminho”.
Como
o jovem deputado estadual pela província do Atlântico chegou a esse
ponto? Provavelmente esquecendo-se de que ex-mulher é para sempre. Tendo
se casado com a loira com cara de influencer Day Vásquez, ele muito
rapidamente teve um caso com outra loira com cara de influencer, Laura
Ojeda, agora grávida de oito meses.
Não
foi uma infidelidade sem consequências. Day fez uma espionagem básica,
clonou o celular da rival (invasão de privacidade pelo qual também foi
presa) e depois entregou para a justiça as conversas por WhatsApp
mostrando como ex-narcotraficantes colaboraram para a campanha
presidencial, esperando futuros favorecimentos.
Um
dos doadores, Samuel Santander, alcunhado “Homem do Marlboro”, com
quinze anos de cadeia por tráfico de drogas cumpridos nos Estados
Unidos, deu o equivalente a 150 mil dólares. Outra figura comprometida,
Alfonso Hilsaca, o “Turco”, ligado a um cartel, contribuiu com o
equivalente a 103 mil dólares.
Como
ladrão que rouba ladrão etc etc, Nicolás se apropriou das doações para
uso próprio. Entre outros mimos, comprou uma casa de luxo e um Mercedes
Benz. Outros bens foram comprados em nome de parentes da ex-mulher.
Dessa forma, ele enganou o próprio pai.
Talvez essa manobra explique a frieza de Gustavo Petro.
Quando os detalhes irretorquíveis do caso foram revelados, o presidente
disse sobre o filho: “Não o criei”. Estava na luta armada quando
Nicolás nasceu, em 1986, e conviveu pouco com a primeira mulher.
Depois
da prisão, tuitou que “como pai me dói muito tanta autodestruição”,
desejando ao filho “sorte e força” e que os acontecimentos “forjem seu
caráter e que possa refletir sobre os próprios erros”.
Ou seja, na prática, condenou o filho.
Será
que Gustavo Petro imagina faturar com a imagem de pai que, embora
sofredor, não levanta obstáculos à prisão do próprio filho? Isso é o que
vários políticos da esquerda estão tentando vender. Não é exatamente
fácil. Inclusive porque Petro está fazendo um governo péssimo, com o
pior dos dois mundos: assusta investidores com maluquices como dizer que
o petróleo é pior do que a cocaína e não abriu as portas da terra de
leite e mel que prometeu aos mais pobres.
Dependendo
da pesquisa, seu índice de aprovação varia de 33% a 45%. Sua maior
aposta, a “paz total” com grupos armados que continuam em atividade na
Colômbia é rejeitada por 47% da população. A reforma trabalhista e a do
sistema de aposentadoria têm uma pequena vantagem entre a opinião
pública.
Como
as encrencas do filho podem prejudicar o pai? Se ficar provado que
apenas Nicolás saiu ganhando com o desvio das doações, o presidente
estará preservado, apesar do constrangimento de ter o filho envolvido em
falcatruas. Se, como diz Day Vásquez, tiver entrado dinheiro sujo na
campanha presidencial, o problema político será muito maior.
Ameaçada
de processo por um dos partidos da frente de esquerda, Ingrid
Betancourt, famosa por ter sido libertada do campo na selva onde era
mantida sequestrada pelas FARC, afirmou: “É o cúmulo da hipocrisia usar o
manto da dignidade e ameaçar com processo por dizer algo que o próprio
Petro confessa. Diz que o comportamento do filho é autodestrutivo, mas
foi ele quem o levou a se queimar ao dar a ordem de receber dinheiro do
narcotráfico para sua campanha”.
Seria
uma acusação que Nicolás Petro confirmaria na delação premiada? Nesse
caso, o presidente que fala coisas estapafúrdias – “a coca é um presente
dos deuses” – como um caudilho de opereta latino-americana, ganharia
ares shakesperianos de pai simbolicamente morto em público pelo filho.
Nunca houve uma delação premiada desse nível, embora tenhamos visto no Brasil um conflito familiar similar.
Nicolás
Petro, que cometeu erros primários como ter rendimento comprovado
equivalente a 70 mil dólares em 2022 e gastos de 250 mil, está sendo
comparado a um enorme ventilador. Irá “refletir sobre os próprios
erros”, como disse Gustavo Petro, ou arruinar o pai?
Postado há 3 weeks ago por Orlando Tambosi

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