O caso da deputada Carla Zambelli é exemplar da mentalidade essencialmente golpista dessa turma. Editorial do Estadão:
Não
diz grande coisa o número de votos que elegeram a sra. Carla Zambelli
para a Câmara, porque São Paulo já votou em massa numa rinoceronte há
algumas décadas. Mas a referida senhora não é tão desimportante quanto
parece. Afinal, se alguém encarna fielmente o ethos bolsonarista, algo
que pode ser descrito, de forma sucinta, como uma busca incessante pela
instabilidade do País pela via da mentira, da desinformação e do
golpismo, é ela.
A
cassação de seu mandato, portanto, é ação profilática que se impõe à
Casa de representação política da sociedade. A sra. Zambelli é um corpo
estranho na democracia, razão pela qual deve ser expelida por seus pares
por meio do mecanismo criado pela própria democracia para se proteger
de ameaças como ela.
Porém,
mais importante para o País do que o destino político – ou jurídico –
da sra. Zambelli é entender como ela representa a mentalidade do
bolsonarismo. Nesse sentido, a operação deflagrada pela Polícia Federal
há poucos dias contra a parlamentar e um desqualificado a ela associado
não poderia ser mais elucidativa.
A
sra. Zambelli é suspeita de ter contratado Walter Delgatti Neto para
“hackear” a urna eletrônica. Por trás dessas ações insidiosas estaria o
intuito de “provar” a estapafúrdia tese de Jair Bolsonaro segundo a qual
o sistema eleitoral brasileiro estaria sujeito a fraudes.
Evidentemente,
a trama golpista foi um fiasco. Como o próprio “hacker” admitiu aos
policiais depois de ser preso, a urna eletrônica é inexpugnável, pois,
como a Justiça Eleitoral já cansou de explicar, o aparelho não está
conectado à internet.
Diante
desse revés eminentemente técnico – o único capaz de parar
bolsonaristas como a sra. Zambelli, pois barreiras morais há muito já
foram obliteradas –, a deputada, então, teria pedido ao tal “hacker”
para que “invadisse” o celular do ministro Alexandre de Moraes, a fim de
bisbilhotar mensagens que pudessem desaboná-lo e, assim, minar sua
credibilidade e isenção como membro do Supremo e presidente do Tribunal
Superior Eleitoral, além de instalar no País o caos em que vicejam esses
inimigos da democracia.
Ainda
que apenas metade dessa história seja verdadeira, ela basta para servir
de exemplo do manual clássico do bolsonarismo. Uma das regras não
escritas desse movimento, se assim pode ser chamado, é jamais se dar por
vencido quando uma tentativa de abalar a paz social ou subverter a
ordem democrática der errado.
Incapaz
de operar dentro das regras do jogo democrático, o bolsonarismo apenas
se serve de seus instrumentos, tal como um parasita, para minar suas
forças. Seus representantes, a começar por Bolsonaro, claro, jamais se
ocuparam de projetos sérios para o País. Suas ações são conduzidas, já
dissemos, sob o signo de Tânatos, o deus da morte na mitologia grega,
não raro flertando com a delinquência.
A
política, como meio civilizado de concertação em torno dos muitos
interesses da sociedade, há de ser saneada pela vida constitucional.
Isso passa pelo expurgo de políticos que não vivem bem sob a luz das
liberdades democráticas.
Postado há 3 weeks ago por Orlando Tambosi

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