BLOG ORLANDO TAMBOSI
Não há uma crise de fertilidade, mas, sim, uma recusa de fecundidade. Luiz Felipe Pondé para a Folha de São Paulo:
Estará o número de brasileiros menor do que se imaginava? Esse assunto é velho. E não é um fenômeno nacional.
Mas,
ao contrário do que dizem, não se trata de uma crise de fertilidade.
Apenas chegamos à conclusão de que filhos são um mau negócio. Mas,
claro, mente-se sobre essa conclusão também e inventa-se desculpas inteligentinhas.
Algumas
desculpas inteligentinhas: o mundo já tem gente demais, prefiro adotar
—quase ninguém adota, só ricos americanos e europeus para ficar bem na
fita. Ter filhos num mundo patriarcal e capitalista é uma forma de
opressão sobre as mulheres —essa então merece gargalhadas, não?
Mais:
a espécie é má, melhor deixar a Terra para as formigas que têm
consciência social altamente desenvolvida. Gente morre e polui o planeta
com seus cadáveres e cinzas, e, mesmo quando viva, produz lixo. Enfim,
escolha a sua. Ah! Claro: as pessoas têm todo direito de não querer ter
filhos.
Mas
a verdade dos fatos é a de que gente com mais formação, mais opções na
vida e mais visão do futuro em perspectiva não quer ter filhos. Quando
tem, é um só, e o coitado vai ter que aguentar as projeções
narcísicas dos pais e mães.
Ter filhos é mais frequente entre pobres ou religiosos de altíssima aderência à prática institucional da sua religião.
Enfim,
vamos chegando à conclusão pura e simples de que ter filhos é coisa de
pobres, de fanáticos religiosos ou de gente sem opções na vida.
Reconheçamos
que a alta natalidade da humanidade caminhou lado a lado com a pobreza,
a ignorância e a violência contra as mulheres. Muitas crias humanas, ao
longo dos milênios, foram fruto de estupro, de violência sexual durante
guerras, da escravidão, de crimes de todos os tipos. Ou seja, o número
alto de filhos sempre foi fruto de um passivo social sobre as mulheres.
Agora,
elas não querem mais esse ônus. A queda da natalidade é fruto de
informação, da emancipação feminina, do sexo só para lazer, da melhoria
das condições materiais de vida —filhos derrubam o padrão material das
pessoas, aliás.
Logo, a menos que o mundo despenque para um abismo histórico, os jovens se tornarão uma espécie em extinção.
Pouco importa todo o mimimi do marketing
sobre crianças e o futuro da humanidade. As pessoas estão preocupadas
com o futuro delas. Dane-se a humanidade —é o que pensam na calada da
noite, fora do Instagram.
De
nada adianta essa moda besta das pessoas se apresentarem como
"advogado, ativista contra preconceitos e pai do Joaquim e da Maria
Antônia". Ou "atriz, negra e mãe de Ariel". Práticas assim apenas
reforçam o ridículo da coisa.
Sendo
assim, não há uma crise de fertilidade, mas, sim, uma recusa de
fertilidade. E, sendo isso fruto de transformações materiais da vida e
do modo de produção em que vivemos, nada indica uma
mudança nessa curva.
Em
qual modo de produção vivemos? Os marcadores são: produtividade
material individual e social, eficiência a todo curso, entrega de
resultados de forma cada vez mais acelerada e a retirada sistemática de
obstáculos para a realização desses marcadores do PIB.
Filhos
atrapalham a carreira das mulheres e das empresas. Empresárias de
sucesso só têm filhos se terceirizados. E não me venham com esse papo do
seu tio que cuida dos filhos enquanto a mulher brilha nos negócios. A
chance desse casamento ir para o saco é de quase 100%, quando não
estamos fazendo marketing de comportamento descolado.
Nada
disso implica em zerar a fertilidade. Muita gente opta por um filho só,
o que implica, ainda, na queda da fertilidade a médio e longo prazo.
Os
próprios jovens na faixa dos 20 anos temem ter filhos porque sabem, no
fundo do coração, o pepino que eles são para seus pais e mães.
Em
breve o censo de pets será mais importante para o PIB do que de
crianças. As escolas, então, abrirão cursos para pets, onde aprenderão a
latir de forma bilíngue.
O
que mudará isso? Uma catástrofe que traga de volta guerras em que
soldados violentam as mulheres por onde passam e façam o número de
estupros voltarem às estatísticas do passado ou as mulheres saírem do
mercado de trabalho. Difícil ser adulto, né?
Postado há 3 weeks ago por Orlando Tambosi

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