BLOG ORLANDO TAMBOSI
Como loucos que escaparam do hospício, somos vítimas de um ambiente hostil a nossos desejos, delírios e obsessões. Luiz Felipe Pondé para a Folha de São Paulo:
Uma das grandes hipóteses que organiza minha precária visão de mundo é a seguinte: o homo sapiens
sobreviveu até aqui porque na imensa maior parte do tempo em que tem
existido, o ambiente lhe tem sido hostil e limitante dos seus desejos,
delírios e obsessões. Agora, somos como um louco que escapou do
hospício.
A
pré-história é infinitamente mais espessa do que a história. Dentro da
história, a modernidade é um piscar de olhos, principalmente o século
21. Portanto, somos uma espécie pré-histórica perdida num ambiente que
não é o seu.
É
comum dizer que o que trouxe o homo sapiens da escuridão do baixo
paleolítico até o nosso presente foi nossa capacidade técnica,
imaginativa, criativa, cognitiva, linguística. Não acho que foi isso que
aconteceu.
Acho
que o que nos trouxe até aqui foi nossa incapacidade de controlar o
ambiente à nossa volta, o fato incontestável de sermos suas vítimas
constantes, sermos limitados pelo meio ambiente hostil ao longo de
milênios –a imensa maior parte dele na pré-história.
Sem essa contenção, teríamos desaparecido porque o cérebro é um órgão que tende à entropia em meio aos seus delírios e desejos.
Ou
seja, foi a "camisa de força" que o ambiente colocou em nossa mente
doente, desvairada, egoísta, falastrona, cheia de mundos na cabeça que
não existem, enfim, a ausência de técnica, ciência e racionalidade
sistemática que nos manteve vivos. Tais características juntas podem pôr
fim à história da adaptação do homo sapiens ao longo da seleção natural. Os riscos da IA são apenas a cereja do bolo nessa entropia da espécie.
Minha
hipótese é que o progresso em larga escala é um surto. Mas não existe
nenhuma possibilidade de voltarmos atrás. Vamos adiante, até implodir
nossa própria espécie em micro-obsessões típicas de um pequeno animal
que vê seu reflexo no espelho e enxerga um deus. São muitos os exemplos.
Daremos dois.
Exemplo
um. "A vida é feita de escolhas", nos dizem as psicólogas. A
impossibilidade de fazer escolhas nos trouxe até aqui. A mania, o
imperativo, a obsessão por fazer escolhas que, na verdade, nunca sabemos
direito o que estamos escolhendo, nos leva a infinitos labirintos de
delírios de onipotência que, na sua raiz, não passam de gestos de um
animal inquieto.
O
homo sapiens escolhe em meio à escuridão, mas a modernidade criou a
ilusão da "luz racional da razão" como fundamento da escolha, quando, na
verdade, escolhemos a partir de nossos afetos, traumas, ódios, paixões
que tentamos travestir de argumento racionais.
Não
que não existam, hoje, possibilidades de diferentes destinos, mas é
justamente o fato de haver esses diferentes destinos que cria o caos do
cotidiano e nos obriga a escolher em meio à cegueira das variáveis que
nos atravessam e atravessam o mundo exterior que despenca sobre nós.
Muitas
opções diante de um animal que evoluiu tendo quase absolutamente
nenhuma opção gera esse constante mal-estar. Melhor que não houvesse
nenhuma opção. Cada cabeça, uma sentença, um projeto de futuro para o
mundo.
Exemplo dois. Em breve discutiremos o direito dos pets ao voto democrático. O departamento dos direitos dos animais do Ministério Público
acatará a denúncia da associação dos profissionais de saúde mental dos
animais de que a negação aos pets o direito de votar é uma limitação do
estado de direito. Puro especismo.
Métodos
desenvolvidos por especialistas de grandes marcas acadêmicas criarão
uma cacofonia –científica, claro– de teorias de como acessar o que pensa
um animal a fim de identificar suas preferências. Apenas cães e gatos ou outras espécies devem ser cidadãs?
O
que quero que fique claro em minha hipótese é que a entropia sapiens
não será grandiloquente do tipo destruir o meio ambiente ou causar uma guerra nuclear.
A entropia virá de modo invisível, nos detalhes, nos contenciosos
jurídicos, e implodirá esse mundo de escolhas, desejos, delírios e
projetos.
Uma
hora, os acordos e consensos se esgotarão. Assim como um grande império
de super-heróis que se desmancha no ar. O homo sapiens é uma espécie
psicótica.
Postado há 3 weeks ago por Orlando Tambosi

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