Uma das chaves para o sucesso está no equilíbrio para escolher os Quandos, na sabedoria de avaliar riscos e na força para vencer a inércia. É como um tripé, você precisa das três coisas ao mesmo tempo. Flavio Quintela para a Gazeta do Povo:
Existe
uma maneira de se dividir as pessoas independentemente de sua classe
social, grau de instrução, nacionalidade, sexo, altura, peso ou cor de
pele. O critério a que me refiro é o do arrependimento. Basicamente,
existem pessoas que vivem se arrependendo do que fizeram (e do que não
fizeram também) e pessoas que raramente se arrependem. E, entre as que
se arrependem com frequência, uma grande parte acha que deveriam ter
feito um outro Quê, quando na verdade o que mais muda os resultados de
uma decisão é o Quando.
Um
de meus professores de Engenharia me disse, um quarto de século atrás,
que um ser humano tem três momentos de grande emoção e realização em sua
vida: o dia em que se forma na faculdade, o dia em que se casa e o dia
em que nasce seu primeiro bebê. E ele completava a frase dizendo: “E tem
gente cabeçuda que resolve fazer as três coisas juntas”.
O
Quando é nosso grande desafio nessa vida. Ele muda tudo, e muitas vezes
não fazemos a menor ideia se estamos no Quando certo ou não. Aliás, na
maioria das situações, somente depois de um bom tempo é que saberemos se
acertamos ou se erramos terrivelmente.
Quem
comprou ações da Amazon logo em seu primeiro IPO, em 1997, e as manteve
consigo até hoje poderia realizar um lucro astronômico de 113 mil por
cento, o equivalente a 36% de juros anuais compostos durante 23 anos. No
entanto, se você tivesse comprado o mesmo papel em setembro de 2018 e
vendido em abril de 2020, teria perdido dinheiro. No mercado de ações,
Quando é sempre mais importante que Quê.
Quem
abriu uma locadora de vídeo nos anos 1980 e vendeu seu negócio no fim
do século provavelmente ganhou um bom dinheiro. Quem resolveu comprar a
locadora desse sujeito, pensando que “se a Blockbuster não vendeu sua
operação para a Netflix por US$ 50 milhões é porque esse negócio ainda é
muito bom”, provavelmente faliu e perdeu todo o investimento. No mundo
do empreendedorismo, o Quando faz toda a diferença.
No
início de 2006, quem comprou uma casa por US$ 300 mil, em qualquer
lugar dos Estados Unidos, tomou um prejuízo monstruoso apenas dois anos
mais tarde, quando a maioria dos imóveis teve seu preço reduzido a menos
da metade em virtude da crise do subprime. Quem comprou essa mesma casa
por US$ 130 mil em 2009 pode vendê-la hoje pelo dobro do que pagou. No
mercado imobiliário, o Quando transforma barraco em mansão.
Quando
resolvi me mudar para os Estados Unidos, em 2013, fiz uma viagem com
minha esposa para escolhermos uma cidade. Naquela época, os preços dos
imóveis ainda estavam baixos, e um dólar era comprado com pouco mais de
dois reais. Vi nesses fatores uma oportunidade rara e dei entrada em uma
casa na cidade que tinha escolhido para morar, para onde me mudaria em
2014. Na volta da viagem, vendi tudo o que tinha no Brasil e comecei a
comprar dólares. A última leva de dinheiro que trouxe para cá, seis
meses depois de termos nos mudado, veio a quase R$ 2,70 por dólar.
Graças àquela decisão, hoje temos um imóvel próprio para morar. Se eu
tivesse deixado meus bens no Brasil e resolvido vender tudo somente
depois de ter meu Green Card emitido, não compraria nem um trailer.
Essa
experiência me ensinou muito a valorizar o Quando acima do Quê. Eu
poderia ter pensado “essa casa é pequena, melhor esperar um pouco e
comprar uma maior quando viermos de vez para cá”, ou mesmo “melhor morar
de aluguel um tempo para ver se gostamos do lugar, e somente depois
investiremos numa casa nossa”. A casa era pequena, realmente, mas foi
somente por tê-la comprado é que pudemos mais tarde vendê-la, e com o
lucro da venda comprar uma maior e melhor.
Quando
você presta atenção ao Quando, quando está disposto a assumir riscos e
quando entende que arrependimento é apenas uma forma de fraqueza (que
fique claro, não estou falando do arrependimento da alma, das más
ações), você fica livre para agir. No geral, as pessoas que atingem
sucesso profissional e financeiro são as que agem. Agem apesar dos
riscos e sabendo deles. Erram e acertam, porém seus acertos costumam ser
mais estrondosos que seus erros, gerando um total líquido positivo.
Eu
sou empresário, e esta não é minha primeira empresa. Já tive um
fechamento em minha história, um empreendimento que não deu certo. Não
faliu, mas foi encerrado para que não perdêssemos ainda mais.
Felizmente, o atual tem se mostrado um acerto. Minha esposa, cujo
espírito empreendedor não é dos mais fortes, já me pediu que desistisse
do negócio atual pelo menos umas 12 vezes. Hoje, em retrospectiva, ela
me agradece por não lhe ter dado ouvidos. Mas eu poderia ter feito de
acordo com a sugestão dela, e amargado prejuízo.
Por
que estou escrevendo sobre isso hoje? Porque tive contato recente com
duas pessoas que perderam a batalha com o Quando. Ambas por inércia –
uma porque não desistiu de algo que já se mostrou impossível; a outra
não se moveu por algo que tinha tudo para dar certo. O salário da
inércia costuma ser a depressão, porque a inércia e o medo levam a um
estado de constante arrependimento. A vida se torna um combinado de “eu
devia ter feito” e de “eu não devia ter feito”, e nada mais. E cada nova
decisão é vista como mais uma oportunidade de fazer a coisa errada e se
arrepender.
Você
já se perguntou o porquê de Fulano continuar naquela situação que todo
mundo vê que é insuportável, ou o porquê de Sicrano não tirar o traseiro
da cadeira para nada, nem mesmo quando seu mundo está ruindo ao seu
redor? O nome desse mal é inércia, a força que tenta manter o statu quo,
seja ele de movimento ou de paralisia.
Uma
das chaves para o sucesso está no equilíbrio para escolher os Quandos,
na sabedoria de avaliar riscos e na força para vencer a inércia. É como
um tripé, você precisa das três coisas ao mesmo tempo. E, muitas vezes,
precisa passar tempo na companhia de quem já viveu situações
semelhantes. Essa é a verdadeira mentoria, o verdadeiro coaching (quem
me conhece sabe como odeio esse movimento que repete mantras e injeta
clichês motivacionais na veia de seus seguidores).
Agora é com você.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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