Há dois caminhos para obter o respeito duradouro na esquerda: a morte prematura e a decrepitude. Bruna Frascolla para a Gazeta do Povo:
Um
professor aposentado, alarmado, me mostra que outra vez Marilena Chaui
foi convidada pelo reitor para uma conferência inaugural da UFBa. O
título da conferência é “O exercício e a dignidade do pensamento: o
lugar da universidade brasileira”. Ela foi realizada no dia 22, quando
escrevo a lápis em papel ofício porque o computador está pifando. (Já
dizia Millôr que livro não enguiça, e isso vale também para o lápis e o
papel). Eu poderia usar o computador combalido como álibi para me evadir
de uma palestra online de Marilena Chaui, mas a verdade é que Marilena
Chaui é uma pessoa pública irrelevante fora dos quadros do PT e seus
satélites. Qualquer universidade que a trate como grande figura
respeitável passa o seu atestado de irrelevância.
Quem
achar que estou exagerando, pergunte: que fez Marilena Chaui de
excepcional relevância? Oficialmente, ela é uma historiadora da
filosofia especialista no pensamento de Baruch Spinoza. É algo bem comum
na filosofia acadêmica, sobretudo se brasileira. Eu sou a mesma coisa,
só que trocando Spinoza por David Hume.
Seu
livro sobre Spinoza ganhou um Jabuti (o que depõe contra o Jabuti), mas
não teve nenhuma grande repercussão internacional, uma vez que sequer
foi traduzido para uma língua que especialistas em Spinoza mundo afora
pudessem ler. Ela até tentou consolidar a imagem de filósofa política
contemporânea. Aí pegou um livro do seu professor Claude Lefort e
plagiou. Merquior percebeu, denunciou no jornal e, então, se impôs uma
lei do silêncio na academia. No fim das contas, ela era uma histérica do
PT que usava o prestígio da USP para lavar a histeria petista. Hoje ela
é uma histérica do PT que acha que Sérgio Moro foi treinado pelo FBI
para tomar o pré-sal por meio da Lava Jato. E ninguém chama a doutora de
fake news.
Se,
ainda assim, a criatura vem pra UFBa como grande figura do pensamento,
que dizer da UFBa? Que de onde menos se espera, daí é que não sai nada
mesmo. Fiquei aliviada ao ver que desta vez o evento era online, porque
da outra vez em que Chauí abriu esse evento, o Teatro Castro Alves foi
depredado pela gentalha (uma peculiar gentalha que se acha reserva moral
da humanidade) que ofendeu os trabalhadores da segurança e arrombou os
portões para entrar.
Um ex-guerrilheiro se importa e é ignorado
Dado
esse estado de coisas, surpreende que ainda haja gente, como esse
professor aposentado, que se preocupe com a reputação atual da UFBa. O
professor em questão chama-se Amílcar Baiardi, antiga liderança da
esquerda armada. Ele passou anos preso e foi torturado. Deve estar com
uns 80 anos e pertenceu à geração que acreditou nas lorotas
propagandeadas mundo afora pela União Soviética. A orientação teórica
dele, em particular, estava no panfleto de Régis Debray, que fez muito
sucesso no Brasil e visava a fundamentar a ação de Che Guevara.
Depois
de sair da cadeia, Baiardi começou a duvidar da fé revolucionária.
Acabou se convencendo da democracia e do liberalismo. Nunca desenvolveu
nenhuma síndrome de Estocolmo e segue detestando os torturadores da
última ditadura. Apesar disso, como antipetista, defendeu abertamente a
eleição de Bolsonaro em 2018, porque não colocou a questão 1964 como
fator único de suas escolhas. Pensando bem, quem vota focado em
controvérsias historiográficas?
Ora,
o PT e seus satélites colocam a luta armada dos totalitários como única
força contrária ao regime de 1964 e pintam-na como campeã democrática,
em detrimento dos êxitos reais e pacíficos do Movimento Democrático
Brasileiro (MDB). A luta armada, para eles, foi uma jihad, cheia de
mártires e boa em si mesma. Assim, cabe perguntar: que fez Marilena
Chaui pela Revolução? Não consta que tenha passado um dia na cadeia e,
se tivesse, contaria isso para todo o mundo o tempo inteiro. Iria achar
que tem uma estrela na testa e que deveria ser tratada com reverência.
Coisa que uma ex-liderança que passou por POLOP, COLINA e VAR-Palmares
não faz, e só fala de tortura quando perguntado. Tampouco consta que o
atual reitor, que se orgulha de ter integrado a APML, tenha feito algo
de relevante pela Revolução.
Esquerdista bom é esquerdista botton
Se
o Prof. Baiardi foi tão longe na luta pela Revolução, tão estimada pelo
reitor e seus correligionários, por que ele tem mais esperanças de que
eu o ouça, em vez de ter o reitor por fã? Por que o reitor, com seus
menos de 60 anos, não ouve com deferência um ex-guerrilheiro preso e
torturado? “Porque ele mudou de ideia” é uma péssima resposta. Se alguém
foi tão longe e resolveu voltar, aí sim é que há mais razões para
ouvir. Atenção e respeito não implicam concordância nem obediência:
implicam enriquecer o próprio pensamento com a experiência alheia.
Ninguém
olharia para o Prof. Baiardi e diria que é um decrépito. Dou-lhe uns 80
anos por causa de cronologia (já tinha tempo no Exército em 1964). Ele
tem postura e vivacidade que dão aspecto melhor que muito jovem, pois o
que não falta é gente pusilânime que anda com a cara enfiada no celular e
chama Uber para não fazer uma caminhada de 20 min. Se ele está bem na
velhice, imagine-se nos tempos de juventude, com preparo física. Com
certeza deve haver por aí alguma foto bonitona dessa época. Aí, se ele
tivesse morrido, sua cara estaria estampando camisetas, canecos e
broches. Seu nome concorreria com o de Carlos Marighella (1911 – 1969)
para batizar escolas públicas e campi. Calado sob sete palmos, ganharia a
reverência dos sindicalistas balofos e dos universitários que não tomam
banho.
Há dois caminhos para obter o respeito duradouro na esquerda: a morte prematura e a decrepitude.
Nuanças necessárias
Da
outra vez em que Marilena Chaui foi convidada para abrir o evento, quem
se manifestou contra foi Luiz Mott. Sim, ele mesmo: o militante gay dos
cambalachos estatísticos expostos por Eli Vieira, que por acaso também
gay. O PCdoB pega as más estatísticas de Mott para fazer escarcéu, mas,
por sua firme posição antipetista e independente, ele vira um direitista
reacionário indigno de atenção.
Há
mais de um Mott, e o meu favorito é o historiador que revira os
arquivos da Torre do Tombo para esmiuçar processos da Inquisição. Um
militante disfarçado de historiador, ao descobrir um processo em que o
inquisidor foi movido por impulso humanitário, enterraria os papéis para
criar uma ficção maniqueísta. Mott, não: pôs aqui, no cap. 4, um relato
favorável de uma atuação num caso particular da Inquisição. É o Mott
historiador, também, que desmente a estranha tese de Foucault segundo a
qual os gays são invenção moderna, assim como os loucos.
Mas
se eu fosse um militante do movimento gay, meu Mott favorito seria
aquele que, no surgimento da AIDS, se mobilizou para pregar o uso de
preservativos, visitou os cortiços de travestis miseráveis, arrecadou
milhares de camisas-de-vênus de organizações estrangeiras para
distribuí-las com ajuda do governo estadual, quando a importação (até de
doação) era coisa dificílima no Brasil. Quando a AIDS eclodiu, o
carnaval de Salvador tinha uma consolidada festa gay a céu aberto que
atraía homens do mundo inteiro para a Praça Castro Alves. Se a cidade
não virou uma bomba sanitária, é muito provável que isso se deva à
atuação de Luiz Mott. Itajaí, que não tinha nenhum carnaval gay a céu
aberto, ficou bem pior que Salvador.
Que fez o militante gay que hoje aponta o dedo para o septuagenário Luiz Mott? Nada. Nem era nascido.
Nós com isso
A
postura da esquerda com os seus velhos é detestável. Se eles debandam
da esquerda, toda a sua experiência é jogada no lixo e eles não valem
mais nada. Se permanecem na esquerda, têm que ficar mudando de opinião
conforme a banda toque. Se, por exemplo, antes era um antirracista pró
liberdade sexual, agora tem que defender o uso político do conceito de
raça e lutar contra a “objetificação” da mulher.
Pessoalmente,
gosto de Luiz Mott, e posso conversar com ele sobre mil assuntos que
não são as estatísticas do GGB. Ele inclusive sabe que dou razão a Eli.
Conhecidas as opiniões irredutíveis, não falamos mais das estatísticas,
mas sim do antigo hábito brasileiro de criar papagaios, de culinária, ou
da vida alheia, que ninguém é de ferro. Mas nem Mott, nem Baiardi,
podem se sentar para conversar sobre a vida alheia, ou os papagaios, com
um militante do PT e seus satélites.
Toda
gente normal é multifacetada. Não tenho a pretensão de encontrar no
mundo uma alma que concorde comigo em cada opinião moral e política. Os
militantes de esquerda, totalitários que são, presumem que todos os
interlocutores dignos estão de acordo em cada opinião moral e política.
Hoje
vemos nas redes sociais as pessoas exaltadas, antipetistas até ontem,
se orgulhando de suas opiniões políticas como se isso atestasse algum
êxito relevante na vida. Mais: deixam de enxergar os outros como
multifacetados e ficam com um martelinho de juiz na mão, dando vereditos
a seres unidimensionais. “Passapanista”, “bolsomínion”! Uma vez
carimbado, o outro não pode se sentar para conversar sobre culinária ou
vida alheia.
Os
carimbos são distribuídos a cada discussão política. Toda hora tem uma
discussão política com uma opinião-slogan. No fim do mês, ninguém seria
capaz de listar todas as controvérsias, mas o juiz terá uma lista de
passapanistas e bolsomínions atualizada.
Uma
controvérsia deste mês, porém, é inesquecível: vimos autodeclarados
liberais, democratas, defenderem o fim da imunidade parlamentar e do
devido processo legal. Nada importa mais que contrariar os bolsomínions
(bolsomínion é todo mundo que não apoiou aquele juiz em situação de
carência capilar).
O petismo pode estar em seus estertores, mas a mentalidade totalitária grassa por variadas posições políticas.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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