Vitória seria contar histórias novas, não usar atores negros ou femininos para interpretar personagens brancos ou masculinos. A crônica de João Pereira Coutinho para a FSP:
Diversidade?
A favor. Quando penso nos autores que me fizeram a cabeça, começo em
Montaigne e acabo, sei lá, em William James ou Isaiah Berlin. O que os
une? A rejeição de que existe uma única forma de vida válida para toda a
gente, em todos os lugares e em todas as circunstâncias. Eis a razão
por que sempre desprezei o pensamento utópico e qualquer forma de
fanatismo ideológico: a imposição de um único modelo de sociedade a
todos os indivíduos procede de uma alma tirânica, incapaz de aceitar a
variedade da existência. Prefiro excêntricos, dândies, decadentes – ou,
em linguagem filosófica, prefiro os românticos aos “racionalistas”.
Em
teoria, vivo no melhor dos tempos: nunca como agora os seres humanos
foram tão livres para escolher. Mas, na prática, será que a diversidade é
real? Ou tudo que temos é uma aparência de diversidade que, no fundo,
apenas esconde uma crescente uniformidade?
Essa
sensação foi amplificada na virada do ano: eu, fechado em casa, com a
tevê ligada. Por todo o mundo, o mesmo tipo de festejos – fogos de
artifício iluminando os céus de várias capitais. As ruas estão desertas.
Se não fosse esse pormenor, as imagens de 2021 seriam indistinguíveis
de 2020, de 2019, de 2018... Cópias de cópias de cópias.
Horas
depois, a televisão permanece ligada. Várias reportagens sobre política
internacional. O jornalista está em Madri, São Paulo, Pequim, Lisboa.
Tudo igual. As pessoas vestem-se da mesma forma, compram nas mesmas
lojas, até sorriem e gesticulam com arrepiante mimetismo. O mundo
inteiro é uma única grande metrópole, onde a diversidade é cosmética,
não substancial. Que se passa?
O
historiador Russell Jacoby, em ensaio luminoso (On Diversity: The
Eclipse of the Individual on a Global Era), ajuda no diagnóstico. Sim, a
retórica do momento usa e abusa da palavra diversidade, sobretudo em
matéria sexual ou racial. Mas a verdade é que estamos cada vez mais
parecidos, apesar de passarmos grande parte do tempo a proclamar as
nossas diferenças. Aliás, é precisamente pelo fato de estarmos cada vez
mais iguais que “fetichizamos” essas diferenças, como se elas nos
salvassem da massa informe que engole o indivíduo.
Essa
uniformização começa na infância, quando as crianças assistem aos
mesmos vídeos, jogam os mesmos jogos e experimentam a mesma vida em
clausura, sem espaço ou oportunidade para explorar e arriscar.
Fabricamos robôs que depois seguem o mesmo tipo de ensino, para o mesmo
tipo de carreira, onde se vestem da mesma forma e desejam as mesmas
casas com os mesmos brinquedos tecnológicos.
Isso
é apenas válido para a turma branca, hétero, burguesa e ocidental?
Russell Jacoby discorda: mesmo as minorias, na luta justíssima por maior
representatividade, apenas aspiram ao mesmo modelo existencial da
maioria (nem todas, é um fato: como lembra o autor, os amish ou os
judeus hassídicos são exemplos de diversidade no sentido mais profundo
do termo. Não aspiram a ser como todo mundo; desejam ser diferentes de
todo mundo).
Nas
artes, e sobretudo no cinema, vemos esse “desejo mimético” (expressão
de René Girard) com a apropriação de personagens tradicionalmente
brancos ou masculinos por atores negros ou femininos. No próximo filme
da saga Thor, o martelo do super-herói será usado por uma mulher. O novo
007 também será mulher (e negra). E na série Bridgerton, da Netflix,
metade da aristocracia inglesa de inícios do século 19 é negra (e não
falo da rainha Anne, que provavelmente até seria; uma longa discussão). O
gesto, para além de anacrônico, ganha contornos bizarros: vemos atores
negros no papel de presumíveis escravocratas ou protetores de
escravocratas, como seria grande parte da nobreza britânica do período
da Regência.
Será
uma vitória para a diversidade? Pelo contrário: vitória seria não
precisar dessas apropriações; vitória seria contar histórias novas com
vozes novas e genuinamente diversas. Um dos grandes filmes de 2020, que
comentei aqui, conseguiu essa proeza: falo de Radha Bank e do seu The
Forty-Year-Old Version, uma comédia brilhante sobre uma mulher negra de
meia idade que tudo faz para preservar a sua singularidade.
Respeito
isso – essa “superioridade aristocrática do espírito”, como lhe chamou
Baudelaire ao descrever o dândi do seu tempo. No meio da falsa
diversidade em que vivemos, precisamos de mais dândies e menos
plagiários.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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