A Índia é um gigante da indústria farmacêutica e isso contou pontos na hora em que o primeiro-ministro proibiu a venda dos imunizantes feitos no país. Vilma Gryzinski:
Quem
acha que tem líderes nacionalistas da boca para fora, geralmente por
causa de patriotadas inconsequentes, não sabe o que é um verdadeiro
representante da espécie do tipo Narendra Modi.
O
primeiro-ministro do país chamado de “farmácia do mundo”, pela enorme
produção de medicamentos, não está no ramo da benemerência nem quer
fazer “diplomacia da vacina” como a China.
Aliás, não parece querer diplomacia nenhuma que envolva a pandemia.
A
vacina de Oxford e da AstraZeneca foi aprovada emergencialmente no
domingo pelas autoridades indianas e teve sua exportação proibida pelo
governo menos de 24 horas depois.
“Só
podemos dar para o governo indiano”, resumiu Adar Poonenawalla,
presidente do maior fabricante de vacinas do mundo, o Serum Institute of
India – o inglês é a língua franca no país, com seus estonteantes
19.500 idiomas e dialetos falados por 1,3 bilhão de pessoas.
Lá
se foi, pelo menos por enquanto, o acordo com a “aliança dos pobres”, o
COVAX, criada pela Organização Mundial de Saúde, para proporcionar
vacinas aos países que têm menos condições de competir.
A AstraZeneca tinha contratado o Serum Institute para fornecer um bilhão de doses para países mais pobres.
O
Serum Institute também estava para assinar um novo acordo de
fornecimento de 300 a 400 milhões de doses para o COVAX. Nenhuma menção
aos dois milhões de doses que pingariam no Brasil.
Detalhe: a venda para instituições particulares também foi proibida.
Vacina feita na Índia, só para os indianos.
Apesar das dimensões populacionais do país, a Índia tem um número comparativamente moderado de 150 mil mortes por Covid-19.
Em
termos absolutos, fica em terceiro lugar, depois dos Estados Unidos e
do Brasil. Em mortes por milhão de habitantes, são 108, um décimo do
índice de países desenvolvidos como França e Inglaterra.
A
Índia detém 20% do mercado mundial de genéricos e fornece 60% das
vacinas em geral. O baixo custo da mão de obra e a alta flexibilidade
com detalhes como patentes, depois atenuada, impulsionaram o
extraordinário desenvolvimento da indústria farmacêutica indiana.
Além
da aprovação ao produto Oxford/AstraZeneca, a agência reguladora
indiana liberou também a Covaxin, produzida pela Bharat Biotech, em
condições excepcionais: a terceira fase de testes ainda está em
andamento.
“Nossa vacina é 200% segura”, disse o presidente do laboratório, Krishna Ella, diante de protestos de associações médicas.
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O
objetivo da aprovação que queima fases é evidente: como qualquer
governante, pelo menos dos guiados pela lógica política, o
primeiro-ministro Modi quer ser visto como um líder que coloca seu povo
acima de tudo.
Quando esse impulso se soma a um populismo de raiz, os efeitos se multiplicam.
Modi
foi uma surpresa que saiu das urnas em 2014, procedente de um partido
declaradamente sectarista, ou seja, defensor da predominância dos
hinduístas, a religião majoritária (maioria indiana: 960 milhões).
Quem
associa o hinduísmo apenas a gurus pacíficos e ascetas espiritualizados
– uma vida que o próprio Modi chegou a pensar em seguir na juventude –
não sabe como a realidade é diferente.
Com
as marcas do passado de submissão a invasores estrangeiros – o Islã
vindo da Pérsia e o colonialismo vindo da Inglaterra -, o hinduísmo
militante prega uma identidade nacional exclusivista e agressiva.
Foi
desse caldo que saiu o militante que assassinou, em 1948, o maior herói
nacional, Mahatma Gandhi, considerado excessivamente condescendente com
a minoria muçulmana (minoria indiana: hoje, são quase 200 milhões).
A
Índia moderna nasceu justamente de um banho de sangue de proporções
épicas. Com a declaração de independência, os hinduístas que fugiam da
parte muçulmana que viria a ser o Paquistão, e vice-versa, mergulharam
numa sequência de massacres que deixou um milhão de mortos.
A tensões subsistem e eventualmente explodem em dimensões menores.
O
próprio Modi, antes de se tornar primeiro-ministro, não conseguia visto
para os Estados Unidos por ser considerado instigador de um episódio de
violência sectária: muçulmanos atearam fogo num trem cheio de
peregrinos hinduístas, matando 58 pessoas; e os ataques em represália
deixaram mil mortos.
Depois
de eleito, provocou: “Vou fazer tantos prodígios que todos os
americanos vão ficar na fila para conseguir um visto para a Índia”.
A
eleição de Modi foi recebida como precursora de um grave
recrudescimento dessas tensões entre religiões, mas a tragédia
antecipada não aconteceu.
Modi
é imensamente popular e intensamente populista, do tipo que põe seu
retrato nos fogões a gás distribuídos à massa de destituídos que
subsiste apesar dos extraordinários avanços econômicos do país.
Culto
a personalidade é uma expressão que empalidece quando Modi está
envolvido. Em alguns aspectos, lembra a veneração oficial ao vizinho Xi
Jinping. Obviamente, com a diferença que a Índia é uma democracia.
A
política indiana foi dominada desde a independência pela dinastia
iniciada por Jawaharlal Nehru; prosseguida por sua filha, Indira Gandhi,
e o filho dela, Rajiv – tanto ele quanto a mãe foram assassinados por
motivos sectários, ela por guarda-costas da minoria sikh, ele por
rebeldes da etnia tamil.
Modi
quebrou essa hegemonia e foi colocado na categoria de fenômenos
políticos recentes protagonizados por outsiders. É uma rotulação
excessivamente simplista, mas com raízes nos fatos.
Ele
é, indubitavelmente, um líder popular que desbanca políticos
tradicionais e defende a bandeira da “Índia acima de tudo”. E namasté
para todos, mas vacinas primeiro para nós.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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