Ensaio do diplomata André Chermont de Lima, publicado pelo Estado da Arte:
Qualquer
brasileiro que conheça Thomas Mann sabe da origem de sua mãe. Não é
preciso ter lido uma linha sequer do escritor. Mann foi “metade”
nacional e isso é o que importa — ainda que ele tenha afirmado, em um de
seus escritos autobiográficos, que seu sangue fosse apenas “um quarto
latino-americano”, uma vez que o avô materno era alemão. Ou ainda que
sua afinidade com o Brasil tenha sido quase nula, como veremos a seguir.
Já
na Alemanha o fato não é tão notório, ou ao menos tão digno de atenção.
O local de nascimento de Julia da Silva Bruhns nunca recebeu grande
atenção ou tratado como relevante. Se as biografias são obrigadas a se
referir a Paraty, a crítica e os estudos literários sobre Thomas Mann
dedicam ao país curtas linhas desatentas ou puro e simples silêncio.
Algum embaixador brasileiro em Berlim já lamentou, de forma repetida e
quase cansativa em seus discursos, a negligência com que os alemães
consideravam o papel do Brasil na formação dessa família de grandes
artistas. Não se pode, claro, explicar a diferença de tratamento por
esnobismo, desprezo deliberado ou condescendência: é preciso entender
que Thomas Mann — e em menor grau seu irmão Heinrich e seu filho Klaus —
já personifica um imenso patrimônio para a cultura alemã, é motivo de
orgulho tal como é e não precisa ser “explicado” por distantes origens
exóticas. Em poucas palavras, cabe ao alemão gabar-se dos Mann e cabe a
nós nos gabarmos de Julia.
Para
fazer justiça ao triste diplomata, é nosso dever resgatar e cuidar da
memória de Paraty sempre que pudermos. Estamos autorizados a fazê-lo por
mera curiosidade biográfica e ir além, ousar buscar tal memória como
fator de real influência sobre a obra de Thomas. Por mais complicada que
possa parecer essa tese, devemos muito ao livro Terra Mátria a luz que
nos lança sobre a análise da presença do “estrangeiro” na obra do
escritor e da família Mann em geral.

Terra Mátria
Os
críticos literários Karl-Josef Kuschel e Paulo Soethe juntaram-se ao
neto de Thomas Mann, Frido (também escritor) para elaborar minucioso
estudo sobre as ligações entre o Brasil e a família Mann.[1] O
resgate documental e historiográfico é notável: ali estão todas as
informações disponíveis sobre a ascendência luso-alemã, a infância em
Paraty e a posterior vida de Julia Bruhns, depois Julia Mann, em Lübeck e
Munique, além das conexões — diretas e indiretas — de seus filhos,
netos e bisnetos com o Brasil. A contribuição do trio de pesquisadores
para a crítica literária é também do maior interesse: tomando como ponto
de partida observações soltas de Adorno e um estudo do acadêmico suíço
Alexander Honold, os autores identificam “diversos recursos literários
na obra de Thomas Mann [que] direcionam a atenção do leitor para a
condição de estrangeiro de suas personagens. Detalhes de sua
caracterização, comportamento e entorno convidam para o deciframento de
alusões à estrangeiridade e à alteridade”. Não é mistério para qualquer
leitor de Thomas Mann, mesmo o mais distraído, que muitos dos seus mais
memoráveis personagens passam o tempo todo defrontando-se com
interlocutores vindos de longe, envolvidos em circunstâncias ou cenários
exógenos, em interações algumas vezes construtivas e enriquecedoras,
outras vezes desafiadoras ou mesmo destrutivas. A presença do exótico,
do estranho, é apenas perceptível em Buddenbrooks, adquire contornos
mais claros em Tonio Kröger e Doutor Fausto e constitui a própria
essência de Morte em Veneza, A Montanha Mágica e Felix Krull. O
estrangeiro na obra do escritor passeia entre o negativo e o positivo,
revelando, talvez, uma posição pessoal ambivalente e insegura diante do
cosmopolitismo humanista que tanto louvamos em sua obra. No Doutor
Fausto, por exemplo, o mal se apresenta na forma da prostituta
Esmeralda, uma espécie de enviada da morte, responsável pelo fim de
Leverkühn; Satanás surge para o protagonista como um estrangeiro de
origem indeterminada;[2] em
Morte em Veneza, a própria cidade é pintada como um túmulo a céu
aberto, lugar de corrupção e decadência, réplica atualizada da “Sodoma
do mar” de Byron, por onde circulam gondoleiros sinistros comparáveis a
Carontes. O bem, por outro lado, encontra eco — ainda que também de
forma paradoxal — no sanatório Berghof, o idílico mundo sem fronteiras
onde seus “habitantes”, apesar de carcomidos por dentro pela doença,
pairam em esplêndida alienação acima da guerra iminente e da sordidez do
mundo da planície. Terra Mátria tenta mostrar como o homem Thomas Mann
lidou, interna e externamente, com a sua origem brasileira, num processo
que evoluiu da postura defensiva na década de 30 — quando disse ser
apenas um quarto sul-americano e mais de uma vez negou ter sangue judeu,
diante das provocações dos nazistas — até a curiosidade e o orgulho
reservados, nunca eloquentes, dos seus últimos anos. Mergulharemos
adiante um pouco mais fundo neste tema.

O Brasil na obra de Thomas Mann
Heinrich,
o irmão mais velho de Thomas que alcançou brilho próprio como
ficcionista, criou, no romance Entre as Raças (1907), personagem
brasileira abertamente inspirada na mãe Julia — mais precisamente,
inspirada nas memórias escritas por ela em 1903, Lembranças da Infância
de Dodô, uma das únicas fontes de que se dispõe sobre a infância
“tropical” da matriarca Mann, quando “andava e corria descalça” pela
propriedade dos pais, catando “conchas e mariscos” na praia em frente à
casa, ou “cocos e bananas” na floresta aos fundos, em convívio solto com
os irmãos e os escravos.
Thomas
nunca chegou a tanto. As menções ao Brasil em sua imensa obra — oito
longos romances, cerca de 30 contos e novelas, uma peça teatral,
inúmeros ensaios — são escassas e lacônicas, limitando-se, na maioria
das vezes, a comentários isolados sem importância para os enredos ou o
substrato estético ou artístico. N´A Montanha Mágica, o Dr. Behrens fuma
charutos São Félix, brasileiros.[3] Em
Doutor Fausto, o narrador menciona a “guerra submarina, que acabara de
vitimar […] nada menos de doze navios”, entre eles “um inglês e outro
brasileiro, com quinhentos passageiros”.[4] No
Felix Krull, o romance final inacabado, o protagonista observa,
embasbacado, sobre uma sacada de hotel, “dois jovens […], obviamente
irmãos, possivelmente um casal de gêmeos — eram muito parecidos, um
rapazinho e uma moça expondo-se à intempérie do inverno sem proteção
para a cabeça, por pura doidice. Tinham aparência vagamente estrangeira,
de além-mar, talvez fossem sul-americanos de origem portuguesa ou
espanhola, argentinos, brasileiros […] talvez fossem judeus […]. Os dois
eram belíssimos — o jovem não menos do que a moça”.[5]
Eis
tudo, ou quase tudo. Muito pouco para diferenciá-lo de qualquer
contemporâneo seu. Proust, por exemplo: Marcel, o heroi de Em Busca do
Tempo Perdido, cita o Brasil en passant, numa única oportunidade, em sua
narrativa de milhares de páginas. Outros citarão mais vezes, a maioria
não citará nenhuma.
Num
segundo círculo de referências, mais afastado e indireto, a ficção de
Mann passeia pela América Latina e, de forma ainda mais vaga, por um
“sul” indefinido. Em Buddenbrooks, Christian, o irmão frágil e
desajustado, trabalha por alguns anos num escritório comercial em
Valparaíso, no Chile — uma Valparaíso irreal, porém, infestada de
mosquitos, lugar de calor amazônico. Consuelo, a mãe de Tonio Kröger,
provém de terras meridionais, assim como a prostituta Esmeralda — cujo
nome, ademais, deriva da borboleta Hetaera esmeralda, espécie encontrada
nas selvas brasileiras. No conto “De como Jappe e Do Escobar brigaram”,
sobre uma luta marcada entre dois colegiais, a origem do sobrenome
“exótico” de Escobar não é decifrada, mas ninguém precisa se esforçar
demais para adivinhar. Felix Krull termina de repente em Lisboa; segundo
os planos não consumados do autor, a continuação do romance levaria o
protagonista para o Rio de Janeiro e Buenos Aires — a primeira vez em
que o Brasil serviria de cenário para uma criação de Thomas, quase meio
século após Entre as Raças de Heinrich.
América do Sul, destino ambíguo
Mencionei
anteriormente a evolução na percepção de Thomas Mann sobre o seu DNA
não-alemão, partindo de uma postura defensiva, quase alheia, até o
discreto orgulho que marcou os anos finais. O sangue que, como vimos,
era “apenas um quarto” latino-americano, comentário em tom de quase
desculpa, transformou-se numa década no sangue “que pulsa em minhas
veias e bem sinto o quanto lhe devo como artista”.[6] Talvez
o projeto da segunda parte do Felix Krull tenha sido elaborado como
consumação artística dessa nova postura. Tarde demais, como sabemos;
apesar disso, desde os anos de exílio nos Estados Unidos e
principalmente depois da eclosão da Segunda Guerra Mundial, ele começou a
travar contato com alemães exilados no Brasil e registrou interesse
mais expressivo por nosso país em sua correspondência.
Terra
Mátria fornece-nos algumas pistas interessantes na investigação dessa
lenta e progressiva simpatia. Quando escreveu Buddenbrooks, seu romance
de estreia (e que estreia), Thomas tinha 25 anos. O personagem Christian
lança-se numa aventura (pode-se chamar de fuga) que o leva a um lugar
longínquo, inimaginável, “do qual se retorna com a cabeça cheia de
histórias ruidosas de ‘facas e revólveres’, de atividades violentas; […]
um lugar onde um europeu não trabalha de fato, ou não pode trabalhar,
mas se afunda em moleza por motivos climáticos. Com isso, um lugar de
fuga do mundo da ordem, da disciplina, da solidez. O calor é álibi para
não se fazer nada”.[7] Até
aqui, não há novidade alguma: eis a percepção do típico alemão, de
todas as classes, de ontem e de hoje, sobre a América do Sul. O rebento
de uma tradicional, próspera e luterana família de comerciantes de uma
cidade hanseática quase não pode pensar diferente, ainda que sua própria
mãe, por acaso, de lá venha.
O
destino de Erik Pringsheim, o cunhado em carne e osso de Thomas,
confunde-se, a posteriori, com o do personagem Christian Buddenbrook.
Irmão mais velho de sua mulher Katia, era um pródigo viciado em jogo que
não só se especializara em dilapidar a fortuna dos pais, mas também a
reputação de sua prestigiosa família de Munique. Decidiu-se por
“degredá-lo” para Buenos Aires em 1907, onde, longe de qualquer
controle, afundou ainda mais nas dívidas. A solução foi, então, enviar
dinheiro para comprar uma fazenda no interior da Argentina, onde se
estabeleceria com a mulher, uma polonesa de passado condenável. Anos
anos depois, Erik morreu em circunstâncias suspeitas, que os pais
oficializaram sob a forma de uma queda de cavalo. A família bem sabia
que as razões poderiam ser outras, não descartando o homicídio ou o
suicídio. Concluem os autores de Terra Mátria: para os Mann, “a América
do Sul deixava de ser símbolo de ambiente cosmopolita [cuja encarnação é
a própria Julia, uma bela e culta mulher fruto de uma saudável e
intrigante mistura de raças], e se tornava o destino de europeus
problemáticos que eram banidos, retornavam como fracassados e, mesmo
depois de mortos, rondavam como fantasmas as reuniões de família e a
imaginação de seus parentes”.[8]
A
atitude começou a mudar com a ascensão dos nazistas ao poder em 1933.
Naquele ano, Thomas Mann e a família mudaram-se para os Estados Unidos. O
casal nunca mais voltou à terra natal, mesmo depois da guerra. Em outra
esclarecedora conclusão impressa em Terra Mátria, o escritor
“permaneceu ligado à Alemanha apenas linguística e culturalmente, de
certa maneira na perspectiva de um regresso, em uma tradição cultural
que continuou existindo independentemente de seu povo, que a traiu, e em
uma identidade intelectual. Esse afastamento foi ao mesmo tempo um
impulso para uma abertura intensificada em direção a um espaço global e
internacional para convivência de todos os povos e sua unidade
multinacional. […] Em parte, pode ser o caso de que a pátria de Thomas
Mann o tenha feito cidadão do mundo contra sua própria vontade […].
Interessante notar como o modelo de exílio, ausência de pátria e
cosmopolitismo continuou prosseguindo consciente ou inconscientemente
nas gerações seguintes dos Mann”.[9]
Foi
a partir do exílio que Thomas passou a manter contato esporádico com o
Brasil. Também começou a acompanhar de longe fatos ocorridos no país,
como o chocante suicídio de Stefan Zweig — notícia que o alemão, aliás,
recebeu com fria indignação e surpreendente insensibilidade. Ao mesmo
tempo, com a balança de Vargas pendendo a favor dos aliados, o governo
finalmente permitiu a formação do Movimento dos Alemães Livres do
Brasil, espécie de braço do Movimento Alemanha Livre, fundado no México
por opositores exilados de Adolf Hitler. Mann manteve correspondência
regular com um dos representantes do Movimento, o dramaturgo Karl
Lustig-Prean.[10] Em
carta de 1943, redigiu “passagem relativamente pormenorizada sobre o
Brasil. Nunca antes ele havia se manifestado de tal maneira sobre o
país”:[11]
Apenas uma certa corpulência desajeitada e conservadora de minha vida explica que eu ainda não tenha visitado o Brasil. A perda de minha terra pátria [mein Vaterland] deveria constituir uma razão a mais para que eu conhecesse minha terra mátria [mein Mutterland]. Ainda chegará essa hora, espero.”[12]
A
hora nunca chegou, como sabemos. Tampouco a hora de transformar a
“terra mátria” em literatura: naquele mesmo ano, o último volume de José
e seus Irmãos era publicado, seguido, já depois da Guerra, de Doutor
Fausto. Adiado para a segunda parte de Felix Krull, o projeto do Brasil
como locus dramaticus acabou interrompido pela morte de Thomas Mann, em
1955.
Uma conclusão desconfortável
A
leitura de Terra Mátria deixa-nos com a impressão paradoxal e algo
desconfortável de que Thomas, mesmo em seus últimos anos, na verdade se
interessou tangencialmente pelo Brasil. O livro dedica-se em suas mais
de 300 páginas a desvendar as ligações da família Mann com a terra natal
de Julia Mann, née da Silva Bruhns, com natural destaque para o seu
integrante mais célebre. E este, na verdade, é o problema: ao final,
sentimos que não há material suficiente. Comparado com o irmão Heinrich
ou com Stefan Zweig, por exemplo, Thomas não chega a preencher
expectativas minimamente ambiciosas de qualquer brasileiro ansioso por
descobrir ligações mais próximas de um dos maiores escritores do século
XX com nosso país. O livro não mostra as referências literárias ao
Brasil que identificamos acima, talvez justamente por serem escassas e
superficiais; por outro lado, registra exaustivamente os contatos
mantidos entre Thomas e personalidades, brasileiras ou aqui exiladas
durante a Guerra — revelando, entre outros episódios, a diferença de
tratamento na troca de correspondência entre o escritor e Lustig-Prean —
este sempre tomando a iniciativa, tentando angariar reconhecimento e
favores, aquele reativo, breve e algo seco; a já mencionada atitude
desdenhosa de Mann quanto ao suicídio de Zweig — que chegou a atribuir a
algum escândalo, talvez associado ao “belo sexo”; ou o constrangedor
encontro com Érico Veríssimo nos Estados Unidos — relatado no pequeno
romance Gato Preto em Campo de Neve, no qual o escritor gaúcho teria
superdimensionado a extensão da conversa entre os dois, atribuindo a
Mann frases e opiniões que na verdade o brasileiro teria ouvido em
palestra proferida pelo colega. O alemão, por sua vez, não fez qualquer
referência ao brasileiro em seus diários, e tampouco respondeu às
recomendações de Veríssimo transmitidas por intermédio do tradutor
Herbert Caro em carta posterior. Talvez o motivo desse desprezo tenha
sido a descrição de Katia Mann no romance, pintada como uma criatura
mesquinha, com “aspecto comovedor de dona de casa”. Jamais saberemos.
Sabemos,
sim, que o relacionamento de Thomas com a mãe nunca foi caloroso. Após a
morte do marido, o senador e comerciante Thomas Heinrich Mann, em 1891,
ela se mudou para Munique com os filhos e jamais deixou a cidade por
muito tempo. Foi nos arredores da capital bávara que morreu, em 1923. Ao
contrário de Heinrich ou das irmãs, Thomas pouco menciona Julia em seus
diários e cartas, preferindo, obliquamente, representá-la em sua
criação literária por meio de personagens nela inspiradas, como Consuelo
ou Gerda, a intrigante mãe do pequeno Hanno Buddenbrook.
Tradição ou tradições?
No
admirável ensaio literário-musical “Os Testamentos Traídos”, Milan
Kundera resgata a velha reflexão sobre a natureza da identidade
individual, na vida real e na literatura (não faz muita diferença: a
lógica que rege pessoas de carne e osso e personagens é a mesma). “O que
é um indivíduo?”, pergunta Kundera, “Pelo que, exatamente, se define o
eu? Pelo que faz um personagem, por suas ações? Por sua vida interior,
pensamentos, sentimentos ocultos? Um homem é capaz de compreender a si
mesmo? Seus pensamentos secretos seriam a chave de sua identidade? Ou,
ao contrário, um homem seria definido por sua visão de mundo, suas
ideias?” Segundo Dostoievski, a resposta à última indagação é sim, diz o
escritor tcheco; segundo Tolstói, nada mais distante da verdade. Usando
“José e seus Irmãos” como modelo, Kundera nos apresenta a visão
particular de Thomas Mann: “a gente pensa que age, pensa que pensa, mas
outro ou outros agem e pensam dentro de nós: em outras palavras, hábitos
imemoriais, arquétipos — os quais, tendo virado mitos, passaram de uma
geração para a seguinte — carregam um enorme poder de sedução e nos
controlam a partir do ‘poço do tempo’”.[13]
O
poço em que José é atirado pelos irmãos enciumados — segundo a Bíblia e
segundo o romance — não passa de símbolo do que é mais velho na
história da humanidade: o poço é a consumação trágica do conflito
milenar que sempre opôs o filho preferido ao desfavorecido, que sempre
expôs a angústia (muitas vezes vã) dos pais em selar a paz entre sua
prole. Até mesmo o sofrimento, “essa reação aparentemente
incontrolável”, aparentemente individual, intransferível, na verdade não
passa de “imitação e continuidade”, cujas manifestações — a palavra que
expressa o lamento, a dor, o luto — são tudo menos originais, imbuindo o
mais íntimo dos sentimentos de uma invencível carga coletiva.
O
poço do tempo não traduz apenas ódios e misérias explícitos. Os
“outros” que agem e pensam dentro de nós são nossos pais e os pais de
nossos pais, sejam eles biológicos ou culturais. Somos unidades
orgânicas constituídas, em boa parte, pela herança genética de nossos
antepassados e pela força da continuidade espiritual e psíquica que
chamamos de tradição. “No fim das contas, você não pertence apenas a si
mesmo”, grita o cônsul Thomas Buddenbrook, num acesso de raiva, para seu
irmão Christian, que retruca: “um homem deve ajustar contas com sua
própria consciência”. Na lógica do cônsul, é pela família — entidade
maior que a soma de suas partes — que as pessoas de bem devem se
sacrificar e ajustar contas, é para a família que prestam juramento de
fidelidade e se anulam. A família respira e fala por seu intermédio.
Tradição,
influência, herança, maldição: do final do século XIX à década de 40,
quando Mann concluiu José e seus Irmãos, foi rico o repertório que
potencialmente o orientou em sua tese sobre a formação da identidade do
artista e do personagem. Depois de Fantasmas, de Ibsen, e Os Irmãos
Karamázov, de Dostoievski, viriam as contribuições dos primeiros
antropólogos nas suas descobertas sobre os mitos; de Jung, com o
inconsciente coletivo; e de Freud, com a tese sobre a universalidade dos
símbolos oníricos e certas disposições psicológicas onipresentes, como o
complexo de Édipo e o sentimento de culpa originário. Thomas Mann
certamente leu o ensaio tardio “Moisés e o Monoteísmo”, de 1939, em que
Freud fala da presença de traços de memória na “herança arcaica” do povo
judeu (e de todos os povos) e da existência de uma tradição religiosa
que se sustenta por meio dessa coleção de fragmentos mnêmicos,
transmitida de geração em geração desde o assassinato do pai primevo.[14]
Elaborar
sobre a tradição, contudo, nos desviaria demais do que estamos tratando
aqui. O tema é um fio desencapado, e suas pontas soltas não nos
ajudariam. A questão a ser investigada aqui gira em torno da tradição à
qual pertence Thomas Mann. É indiscutível que ele sempre se orgulhou, de
forma análoga ao protagonista homônimo de Buddenbrooks (não sem uma
dose de ironia, claro, já que a queda de Thomas e a queda do clã se
confundem), de pertencer a uma tradição, a uma “família” cultural em que
ele teria garantido seu lugar, na qualidade de “escritor alemão” e de
descendente de uma “família hanseática nobre”, como gostava de recordar.
Será que haveria espaço para outras heranças? E seria sua mãe de fato
herdeira, depositária e transmissora da tradição luso-brasileira a que
pertencia em parte? Sabemos que não; Julia Bruhns deixou o Brasil aos
sete anos de idade e, exceto por um texto autobiográfico e alguns raros
relatos sobre sua infância que contava aos filhos, morreu alemã e
perfeitamente integrada às sociedades de Lübeck e Munique. No seu
delírio final, narra o filho Viktor que passou a falar alemão com um
estranho sotaque, ainda que não soubesse mais virtualmente pronunciar
palavra alguma em português.
A
influência da mãe sobre a arte dos filhos, como vimos, foi
sensivelmente diferente: no primogênito Heinrich, poderosa o suficiente
para render um longo romance, explícito na inspiração; o complexo de
Édipo explicaria muito. Já em Thomas, a confrontação com a origem da mãe
manifesta-se em “codificações sofisticadas”, nas palavras dos autores
de Terra Mátria — reflexo, possivelmente, da distância que mantinha dos
familiares nos anos finais, sempre reservada, golpeada pela pobreza do
pós-guerra e pelo suicídio da filha Clara. Para Thomas, que sempre se
referiu a ela como “fria”, a mencionada “codificação” faz todo o
sentido. Estamos, porém, falando da mulher Julia da Silva Bruhns, cujo
desenraizamento precoce pode até ter deixado marcas em sua personalidade
e na maneira com que lidava com os filhos, mas dificilmente terá
rendido algo na forma do sonho romântico de uma almejada “brasilidade”.
Desenraizados tornaram-se todos os Mann e seus descendentes, de certa
forma até hoje. O problema é que exílios mais recentes e mais
traumáticos deixaram marcas mais fortes. O Brasil, à semelhança do Egito
para os judeus errantes da última obra de Freud, foi uma terra distante
e esquecida, reprimida pela violência da história superveniente, à
espera de um resgate improvável. Deixemos o Thomas Mann “brasileiro”
para os discursos dos embaixadores.

Notas:
[1] Originalmente
publicado na Alemanha. A edição nacional, “Terra Mátria – A Família de
Thomas Mann e o Brasil” foi lançada em 2013 pela Editora Civilização
Brasileira.
[2] “Fala
alemão, tranquilamente! Podes soltar a língua, em boas palavras
tedescas, sem patranhas nem parlapatices. Entendo bem o alemão. É até
meu idioma preferido. Às vezes, não entendo nenhum outro”. Doutor
Fausto, capítulo XXV
[3] A Montanha Mágica, Humaniora
[4] Doutor Fausto, capítulo XXI
[5] Confissões do Impostor Felix Krull, Livro Primeiro
[6] Na mesma carta de 1943 em que usa o termo Mutterland, como veremos a seguir.
[7] Terra Mátria, pág. 95
[8] Idem, pág. 101
[9] Idem,
pág. 186. A alusão às “gerações seguintes” refere-se tanto aos irmãos
de Thomas como a seus filhos e netos, a maioria dos quais assumiu
“identidades fluidas”, semi-apátridas. O desenraizamento produziu
tragédias como o suicídio do filho Klaus, autor de Mefisto, horrorizado
com a devastação física e moral da Alemanha e, ao mesmo tempo,
perseguido pelo macartismo nos EUA. Klaus correspondia-se regularmente
com Stefan Zweig, até sua morte. O descendente que mais se aproximou do
Brasil foi o neto Frido Mann: o filho do caçula Michael publicou
romances ambientados no país e viajou frequentemente para cá e fala
português.
[10] Lustig-Prean foi nomeado Cônsul da Áustria em Santos após a Guerra, mas voltou a Viena em pouco tempo.
[11] Terra Mátria, pág. 117
[12] O
termo Mutterland não é exatamente um neologismo, pois significa
“metrópole” (a nação colonialista) ou o berço histórico de algo. O uso
que Mann faz da palavra como trocadilho, oposta ao termo Vaterland, é
que é novidade.
[13] Testaments Betrayed, Perennial, 2001. Parte Um. Tradução livre.
[14] Além
do próprio livro de Freud, o tema é elaborado de forma abrangente e
profunda no ensaio “Freud e o Legado de Moisés”, de Richard J.
Bernstein.
André
Chermont de Lima é diplomata de carreira e atualmente exerce o cargo de
Ministro-Conselheiro na Representação do Brasil junto à UNESCO, em
Paris
BLOG ORLANDO TAMBOSI

Nenhum comentário:
Postar um comentário