O tribalismo cresce no Ocidente porque as vozes do centro não denunciam os extremos tribais das suas próprias famílias políticas. Isso costumava distinguir as repúblicas das bananas do terceiro mundo. Artigo do professor João Carlos Espada, publicado pelo Observador:
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O assalto ao Capitólio por um bando de arruaceiros, (trajando, aliás,
como vulgares arruaceiros), reclamando a causa do sr. Trump, na passada
quarta-feira, não pode nem deve ser menosprezado pelos defensores da
democracia liberal. Trata-se de uma ofensa maior à democracia americana —
e ao ideal democrático em geral.
O
assalto ao Capitólio só pode e deve ser veemente e incondicionalmente
condenado. E denunciado deve ser o promotor de tremenda ofensa à
democracia: o sr. Trump, a quem tive há algumas semanas o prazer de
chamar aqui de general tapioca. Como finalmente, e muito tardiamente,
descobriram vários responsáveis republicanos, o comportamento do sr
Trump e de um bando dos seus seguidores é simplesmente característico de
uma república das bananas do terceiro mundo.
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Também distintiva de uma república das bananas do terceiro mundo foram
as manifestações violentas contra as estátuas (designadamente de
Churchill, em Londres) e contra a liberdade de expressão em muitas
universidades americanas e inglesas. Tenho aqui denunciado enfaticamente
essas manifestações do tribalismo da extrema-esquerda woke e
politicamente correcta. Por isso, estou particularmente à vontade para
repetir: um tribalismo da esquerda não justifica um tribalismo da
direita.
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Chegamos aqui à pergunta crucial: por que motivo crescem nas
democracias ocidentais os tribalismos de esquerda e de direita? O tema
certamente merece um inquérito aprofundado. A proposta conjectural que
tenho repetidamente defendido é todavia relativamente simples: os
extremos tribais crescem porque as vozes do centro (centro-esquerda e
centro-direita) não denunciam os extremos tribais das suas próprias
famílias políticas. Preferem denunciar os extremos tribais das famílias
políticas rivais. Esta denúncia recíproca acaba por alimentar o
tribalismo: cada tribalismo justifica-se a si mesmo por estar em guerra
contra o tribalismo rival.
É
daqui que emergem os discursos terceiro-mundistas contra o “regime”, ou
as “oligarquias”, ou as “elites”, e outros primitivismos similares.
Venho criticando estes discursos há vários anos, neste jornal e não só.
Não deixa de ser curioso que mais recentemente estas críticas tranquilas
estejam a gerar chuvas de insultos das patrulhas ideologicamente
correctas na secção de comentários. É seguramente um sinal dos tempos
tribais em que vivemos.
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A questão é simples, mas o assalto ao Capitólio justifica que seja
recordada. A democracia é obra comum de partidos rivais, sob a
autoridade comum de regras gerais e iguais para todos, a que chamamos
império (ou regência, ou governo) da lei (rule of law).
Se
a normal e desejável rivalidade entre os partidos passa a ser
apresentada como oposição às regras gerais — a que, no terceiro mundo,
chamam “regime” — então a porta fica aberta para o uso da violência
quando um partido perde as eleições. Tornar-se-á possível dizer — como
disse o sr. Trump, no estilo do general tapioca — que a derrota foi
“produzida pelo regime”, não pelos eleitores.
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Alexis de Tocqueville elogiou no século XIX a democracia na América
precisamente pela ausência desses discursos tribais contra o “regime”. E
observou que o sectarismo tribal — da esquerda e da direita — gerava,
nas culturas políticas iliberais (na época, sobretudo na sua França
natal e no continente europeu) a perpétua oscilação entre o Antigo
Regime e a Revolução, entre a servidão e o abuso.
Trump
e os arruaceiros que assaltaram o Capitólio obviamente nunca leram nem
ouviram falar de Tocqueville. Nem obviamente leram os Federalist Papers,
de que apesar de tudo poderão ter vagamente ouvido falar (talvez na
escola primária). Mas seguramente ignoram que um dos principais
propósitos da Constituição americana de 1787/8 foi impedir o despotismo
de uma qualquer facção — sobretudo, na era moderna da paixão pela
igualdade em detrimento da liberdade, em nome do “povo”.
6 Em Portugal, estaremos protegidos contra a maré do tribalismo terceiro-mundista? Como costuma ser dito, vamos ver.
A
dúvida reforça a importância crucial da isenção e moderação reveladas
pelo Presidente da República e candidato Marcelo Rebelo de Sousa. Tem
com firmeza denunciado as manifestações tribais, de um lado e do outro
do espectro político. E assume com clareza a principal missão que a
Constituição atribui ao Presidente da República: a de árbitro e garante
do regular funcionamento das instituições democráticas.
Esta garantia seria sempre importante. Nos tempos que correm, é simplesmente crucial.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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