Começa um jogo que exigirá muita habilidade e estratégia dos participantes. Goste-se ou não, é a política – uma arte para poucos. Artigo do economista Fábio Giambiagi, publicado pelo Estadão:
Começam
agora os primeiros movimentos visando a 2022. Em qualquer democracia o
presidente tende a ser um candidato forte nas eleições. Até Mauricio
Macri, com mais de 50% de inflação, foi um candidato competitivo na
Argentina. Seria tolo não considerar o presidente Jair Bolsonaro um
candidato de peso para 2022 se a economia estiver em condições
minimamente decentes, isto é, crescendo – ainda que abaixo do desejável –
e com inflação baixa.
Por
outro lado, seria também ingênuo julgar que, pela elevada popularidade
que ele teve em 2020, será um candidato imbatível. Parte daquela
popularidade foi decorrência do auxílio do “coronavoucher” outorgado
durante meses a 60 milhões de pessoas, que não se repetirá neste ano. E
tudo indica que o governo enfrentará as eleições com desemprego alto e
crescimento do produto interno brito (PIB) inferior ao de 2021. São
elementos que uma oposição competente deveria ser capaz de explorar.
No
“canto oposto” estará o PT, com Lula – se voltar a ser ficha-limpa – ou
outro candidato. Vou fazer um raciocínio bastante elástico, mas que
reflete a margem de incerteza existente: tanto Bolsonaro como o PT têm
potencial para ter, cada um, entre 20% e 35% dos votos válidos no
primeiro turno. Não é muito provável que cada um desses dois polos sofra
uma erosão que os situe abaixo desse piso e também é pouco provável que
tenham um desempenho eleitoral inicial que os leve a ultrapassar o
máximo dessa margem.
Isso
significa que há espaço para uma candidatura forte de centro. Mas 1)
tal espaço dependerá de pelo menos um dos candidatos – o do PT ou
Bolsonaro – se situar mais perto daquele piso que do teto: no limite,
com 35% para cada um, não haverá possibilidade de um terceiro candidato
passar ao segundo turno; e 2) a viabilidade dessa construção política
dependerá do grau de fragmentação das ofertas que houver pelo centro:
quanto mais dividido este for à disputa, menor a chance de uma das
candidaturas ultrapassar uma das duas primeiras nas pesquisas atuais.
Aqui
há uma particularidade, que é a existência no campo, lato sensu, do
“centro” – aqui utilizado como sendo “nem petista nem bolsonarista” – de
duas candidaturas algo “híbridas”, por terem esse lado “nem-nem”, mas,
por outro lado, terem sua origem política vinculada a um lado: Ciro
Gomes, ao PT – de cujo governo foi ministro –, e Sergio Moro, a
Bolsonaro – de quem também foi ministro.
Como
é muito pouco provável que Moro supere Bolsonaro nas pesquisas que
forem feitas em 2021, creio que ele não estará no grid de 2022 – ainda
mais depois de suas recentes opções profissionais.
Seguindo
com esse raciocínio, um ponto a explorar nas pesquisas é: sendo Ciro um
candidato forte, ele esvaziaria o PT ou tiraria votos do centro? Se
esvaziar o PT, pode jogá-lo para mais perto do piso e abrir espaço para
que o partido não chegue ao segundo turno. Já se não capturar votos
petistas, tornará a tarefa do centro de colocar uma cunha entre o PT e
Bolsonaro praticamente impossível se esse espaço ficar congestionado com
Ciro e outro candidato que tenha entre 15% e 25% de votos.
Isso
nos leva ao restante do quadro – deixando de lado candidaturas menores.
Esse quadro inclui nomes como Luciano Hulk, João Doria e Luiz Henrique
Mandetta, com uma qualificação acerca do primeiro: do ponto de vista da
sua atuação profissional, a melhor estratégia é prorrogar a decisão ao
máximo, até o final de 2021. Porém é possível que o tempo da política
demande dele decisões prévias, sob pena de o espaço de centro ficar
paralisado à espera da sua decisão, com prejuízos eleitorais para os
parceiros. Se esse raciocínio for correto, talvez ele tenha de se
decidir antes do que gostaria.
Quando
se adicionam os votos dos candidatos de centro nas pesquisas atuais, a
soma permitiria a um beneficiário dessa canalização de votos um
excelente desempenho em 2022. O desafio para o centro será convergir num
único nome que receba algo próximo à totalidade dos votos de quem, nas
pesquisas atuais, diz votar em cada um desses nomes, de modo a que tais
votos se somem.
Para
isso, esse nome terá de acender as esperanças de um eleitorado
ressabiado e se apresentar com uma mensagem que não seja apenas “não ser
isto nem aquilo”, e sim a de mostrar à sociedade o que pretende fazer e
como conseguirá governar no quadro político complexo que caracteriza o
País.
Minha
impressão é que teremos duas lutas surdas nos próximos 20 meses: de um
lado, Ciro tentando ultrapassar o PT nas pesquisas; do outro, a
construção de centro tentando ultrapassar Bolsonaro. O campo que trouxer
um terceiro candidato poderá ficar fora da disputa – como aconteceu no
Rio, onde a fragmentação entre o PDT, o PT, a Rede e o PSOL tirou a
esquerda do segundo turno. Esse é o dilema de Guilherme Boulos: não
sendo mais nanico, se for candidato poderá crescer e tirar a esquerda do
segundo turno.
Começa
um jogo que exigirá muita habilidade e estratégia dos participantes.
Goste-se ou não, é a política – uma arte para poucos.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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