É um acinte que a Câmara, cuja atual legislatura foi eleita sob o anseio de novo patamar de moralidade na vida pública, tenha sua presidência disputada pelo deputado Arthur Lira. Editorial do Estadão:
É
embaraçosa a normalidade com que tem sido aceita a candidatura do
deputado Arthur Lira (Progressistas-AL) para a presidência da Câmara.
Com o histórico do parlamentar, já é um tanto estranho que ele continue
sendo líder do partido na Câmara. No entanto, nesses estranhos tempos,
nada parece ser capaz de ruborizar seus apoiadores. Como se sabe, o seu
mais ilustre apoiador é o presidente Jair Bolsonaro.
A
proximidade do deputado Arthur Lira com questões penais vem de longa
data. Em 2012, seu assessor parlamentar Jaymerson José Gomes foi detido
pela Polícia Federal no Aeroporto de Congonhas, depois de passar pelo
aparelho de raio X, com dinheiro escondido embaixo da roupa. Em relação a
tais fatos, a Procuradoria-Geral da República (PGR) denunciou o
deputado em 2018 por lavagem de dinheiro e corrupção.
Noutro
caso, Arthur Lira foi acusado pelo Ministério Público Federal de
chefiar na Assembleia Legislativa de Alagoas um esquema milionário de
“rachadinha”, em que parte do salário dos funcionários do gabinete era
destinada ao parlamentar. Segundo revelou o Estado, documentos indicam
desvios da ordem de R$ 254 milhões, entre 2001 e 2007.
A
Arthur Lira, a “rachadinha” teria gerado um rendimento mensal de R$ 500
mil. Recentemente se revelou que a Receita Federal, já em 2009, havia
cobrado R$ 1,9 milhão do deputado relativo a impostos não pagos sobre
recursos de origem desconhecida, precisamente no período em que o
Ministério Público o acusa de operar o esquema de “rachadinha” em
Alagoas.
Arthur
Lira recorreu da multa do Fisco ao Conselho Administrativo de Recursos
Fiscais (Carf), mas seu recurso foi negado por unanimidade. Em 2017, o
deputado aderiu ao Programa Especial de Regularização Tributária (Pert),
reconhecendo o imposto cobrado. Atualmente, faz o pagamento parcelado.
A
denúncia do Ministério Público Federal também relata a utilização de
empresas para simular negócios com a Assembleia Legislativa de Alagoas.
Segundo os procuradores, trata-se de manobra para “lavar” dinheiro
desviado.
Além
disso, Arthur Lira foi condenado em segunda instância na esfera cível
por improbidade administrativa. Apesar da Lei da Ficha Limpa, conseguiu
tomar posse em 2018 como deputado federal graças a uma liminar do
Tribunal de Justiça de Alagoas.
Diante
desse histórico, não cabe ao Palácio do Planalto dizer que apoia a
candidatura de Arthur Lira para que as reformas sejam aprovadas ou para
que sejam ampliados os excludentes de ilicitude para condutas ilegais de
policiais. Seja qual for a agenda legislativa que o presidente da
República queira promover nos próximos dois anos, é impossível que não
haja, entre as mais de cinco centenas de deputados federais, outro
parlamentar com uma ficha menos complicada do que a de Arthur Lira.
Mais
do que favorecer determinada pauta no Legislativo, o presidente Jair
Bolsonaro parece pretender, com o apoio à candidatura do líder do
Progressistas, diminuir deliberadamente o patamar moral do Congresso.
Caso consiga colocar na presidência da Casa um deputado que sabidamente
praticou a “rachadinha” – Arthur Lira pagou até imposto em virtude dos
valores recebidos por meio da prática ilegal –, talvez Jair Bolsonaro
consiga que haja menos escândalo em torno das acusações contra seu
primogênito, Flávio.
Mesmo
com todas suas limitações e eventuais erros, a Operação Lava Jato teve
um mérito inegável, reconhecido até por seus mais ferozes críticos. Ela
instaurou uma nova sensibilidade em relação ao cumprimento da lei. O que
antes era aceitável deixou de sê-lo. De alguma forma, com essa
candidatura à presidência da Câmara, Arthur Lira e Jair Bolsonaro fazem
movimento oposto ao da Lava Jato, transmitindo a mensagem de que, na
política, tudo deveria ser tolerado, não importando a lei ou a decência.
É
um acinte que a Câmara, cuja atual legislatura foi eleita com recorde
histórico de renovação e sob o anseio de um novo e mais alto patamar de
moralidade na vida pública, tenha sua presidência disputada pelo
deputado Arthur Lira. O eleitor merece um mínimo de respeito.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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