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| O casamento de Goebbels em Berlim, 1931. |
Historiador James Wyllie investiga, em livro, as vidas das mulheres que estiveram ao lado de Hitler, Goebbels, Goering e outros líderes do Terceiro Reich. Marianne Szegedy-Maszak, do Washington Post, para o Estadão:
Quem
de nós não sentiu aquela emoção maliciosa ao pensar: “Como ela pôde
casar com ele?” Ao mesmo tempo voyeurista e superior, a pergunta
pressupõe que a mulher seja perfeitamente bela, charmosa também,
enquanto o marido – graças à simulação, arrogância, opiniões ofensivas
ou falta de inibição social apropriada – é intensamente repulsivo. O
mistério de todo casamento se torna mais misterioso ainda quando as
falhas de caráter de uma metade do casal são muito desproporcionais à
aparente retidão da outra. O que os uniu? Por que ela continua ali? Será
que ele é realmente uma pessoa diferente e mais atraente do que aquela
que está falando com a boca cheia de comida?
Desse
modo, o mero título do novo livro de James Wyllie, Nazi Wives: The
Woman at the Top of Hitler’s Germany (Esposas Nazistas: As Mulheres no
Topo da Alemanha de Hitler, em tradução livre), promete uma deliciosa
oportunidade para responder a algumas dessas perguntas mais íntimas
sobre um grupo de figuras influentes no cânone da monstruosidade
masculina. Elas são tão conhecidas que os seus sobrenomes bastam para
nos lembrarem dos males da era hitlerista: Goebbels, o ministro da
propaganda; Goering, comandante da Luftwaffe e o segundo nazista mais
poderoso, Heydrich, chefe da Gestapo e arquiteto da “solução final”;
Himmler, o chefe da SS e implementador do Holocausto; Hess, vice-líder; e
Bormann, secretário particular de Hitler. Todas elas tinham uma
competência específica nos horrores, e todas elas estavam comprometidas
com Adolf Hitler e os valores antissemitas, racistas, xenofóbicos e
totalitários do seu regime. Vendo a dinâmica de suas vidas de casadas,
será que podemos aprender algo a respeito destes homens – suas
motivações, seus ciúmes mesquinhos, sua humanidade confusa e repugnante –
que possa pôr luz em tudo o que fizeram?
Durante
anos, o papel das mulheres na Alemanha nazista foi eclipsado pela
preocupação com as ações de homens eminentes. Então, como Wyllie
observou, feministas acadêmicas dos anos 80 começaram a examinar este
mundo. Em seu livro, Hitler’s Furies: German Women in the Nazi Killing
Fields (finalista do National Book Award de 2013), Wendy Lower observou:
“O consenso nos estudos sobre o Holocausto e o genocídio mostra que os
sistemas que possibilitam os assassinatos em massa não funcionariam sem a
ampla participação da sociedade, e no entanto quase todas as histórias
do Holocausto deixam de fora a metade dos que povoaram essa sociedade,
como se a história das mulheres acontecesse em algum outro lugar”. Lower
analisou as mulheres na retaguarda, as esposas de alguns dos chefes dos
campos, e as mulheres que trabalharam como agentes voluntárias do
regime.
Se
estas mulheres foram abelhas operárias, Wyllie, escritora, roteirista e
radialista inglesa, se concentrou nas rainhas. As mulheres que de
várias maneiras competiram pela atenção de Hitler na personificação do
ideal do belo da feminilidade no Reich: fecundas, subservientes mas
plenamente satisfeitas, competindo pela admiração do Führer. Pontos
extras se tivessem senso de humor. Ilse Hess, que infelizmente tinha um
marido que cometeu o erro de ser capturado na Escócia em 1941 por causa
de uma missão diplomática fracassada e passou a sua vida preso,
descreveria “quanto Hitler gostava de uma boa risada; não provocada por
piadas, Hitler fazia imitações e gostava particularmente de ouvir uma
história engraçada bem contada, desde que não se referisse a ele”. Nós
não ficamos sabendo de nada disso nas histórias aprendidas a respeito da
Segunda Guerra Mundial.
Apesar
da notória solteirice de Hitler (até seu casamento apressado antes do
suicídio, com Eva Braun), sua liderança exigia que ele fosse casado,
jamais divorciado e tivesse muitos filhos. Magda Goebbels durante muitos
anos gabou o título de “primeira dama do Reich” por sua beleza loira e
pelos seis filhos loiros e lindos que teve com o seu marido esperto e
reiteradamente infiel, o ministro da propaganda nazista. Wyllie descreve
o seu desejo digno até certo ponto de obter um divórcio sem
estardalhaço enquanto o marido estava envolvido em mais um romance
tórrido, e o seu sofrimento genuíno quando lhe foi negado. Em um gesto
de lealdade final, ou desespero, os pais envenenaram os seis filhos no
dia 1° de maio de 1945, antes de eles também se envenenarem.
Hermann
Goering ficou viúvo em 1931, quando a sua amada esposa sueca, sempre
adoentada, Carin, morreu de ataque cardíaco. Mas a presença de Carin ao
longo de todo o seu casamento seguinte com a atriz Emmy Sonnemann
pareceu algo mais próximo de um ménage à trois. O seu nome foi afixado à
casa e aos seus iates; os seus retratos foram pendurados em lugar de
destaque. Entretanto, Emmy, com sua beleza, talento e espírito, podia
ignorar a sua antecessora pois desfrutava das incríveis riquezas com que
era presenteada pelo marido predador: várias propriedades, castelos,
joias caríssimas, e coisa mais notável, uma impressionante coleção de
obras de arte acumulada nas várias conquistas do Reich e de
colecionadores judeus enviados para os campos. Logo, ela se tornou mais
uma favorita de Hitler, servindo de anfitriã em muitas funções oficiais
e além disso, outra “primeira dama do Reich”,
Sua
autoconfiança de atriz dramática, combinada com sua existência mimada,
tornou-a um pouco arrogante demais e condescendente em relação a Eva
Braun, que desprezava particularmente. Eva, sempre leal, emocionalmente
instável, e extremamente imatura, entrou e saiu rapidamente das vidas de
várias das esposas, construindo alianças e quebrando outras. Hitler,
que claramente tinha coisas mais importantes com que se preocupar do que
com as queixas da amante, enviou a Goering uma dura nota exigindo que
sua esposa tratasse Eva com mais respeito. Depois disso, Emmy perdeu a
sua posição no círculo íntimo de Hitler, mas compensada por sua posição
de esposa de um dos homens mais poderosos e certamente um dos mais
ricos da Europa.
Goering
e Carin nunca tinham filhos, e a sexualidade dele nunca se equiparou à
robusta promiscuidade de Joseph Goebbels e de Reinhard Heydrich. Como
Wyllie escreve: “A vida sexual de Emmy e de Goering já tinha dado origem
a várias piadas sobre a noite do casamento, em particular sobre o seu
desempenho no quarto (por exemplo, que Emmy parou de ir à igreja depois
da lua de mel porque perdeu a fé na ressurreição da carne).” Finalmente,
tiveram uma filha, Edda, e Goering comemorou o evento com uma
esquadrilha de 500 aviões sobrevoando Berlim em sua honra. (Edda morreu
em 2018, ainda leal ao pai.)
Wyllie
reconhece que grande parte do material de referência “precisa ser
tratado com cautela”. Mas ele conta suas histórias com uma combinação
estimulante de sabedoria e uma abordagem quase cinematográfica – o que
não surpreende, considerando o seu outro trabalho – tecendo uma
narrativa convincente. Enquanto o bombardeio da Grã-Bretanha, a campanha
russa, o Holocausto, o indizível sofrimento infligido à humanidade por
estas pessoas se desenrolava como uma catástrofe internacional, Wyllie
mostra as mesquinhas competições, os momentos de sadismo doméstico, o
espantoso engano e as vidas diárias dos responsáveis por ele. Como no
episódio mais banal de “Real Housewives”, vemos os grupos de dentro e os
de fora se estabelecerem. Margaret Himmler, corpulenta e determinada, e
Lina Heydrich, carente de uma estatura pública ou de um carisma
particular, nunca foram incluídas no que Wyllie descreve como a
“camarilha de Berghof”. E assim elas envolveram os próprios maridos. Há
algo que nos deixa pasmos em imaginar Heinrich Himmler, o homem que
criou a eficiência brutal da máquina do extermínio nazista, censurar o
seu colega na SS Heydrich, pelo comportamento de sua esposa.
“Embora
elas não tenham sido cúmplices das decisões cotidianas dos seus
maridos”, escreve Wyllie, “a evidência da sua obra assassina estava em
toda parte: a arte saqueada nas paredes; os móveis feitos com pele e
ossos humanos escondidos no sótão; a fruta e os legumes das hortas dos
campos de concentração locais; o trabalho escravo do manejo da sua
terra”. No final, ficamos pensando que a questão de como foi possível
que ela casasse com ele talvez não seja a pergunta certa. Ao contrário,
lembro do que Samuel Butler certa vez escreveu sobre o casamento de Jane
e Thomas Carlyle: “Foi muito bom para Deus deixar que Carlyle e sua
esposa casassem, porque dessa maneira são apenas duas pessoas infelizes e
não quatro”.
*Szegedy-Maszak
escreveu o livro I Kiss Your Hands Many Times: Hearts, Souls, and Wars
in Hungary e é diretora de operações editoriais da Mother Jones (revista
investigativa independente)
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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