Teremos que aprender a conviver com o vírus: máscaras, álcool gel e regras de distanciamento ainda farão parte do cotidiano do planeta por um bom tempo. Luciano Trigo para a Gazeta do Povo:
Eu
me lembro de ter visto um meme, logo no começo da pandemia, no qual um
viajante do tempo vindo do futuro e uma pessoa qualquer travavam o
seguinte diálogo:
_ Em que ano estamos?
_ 2020.
_ Humm... Ainda no primeiro ano da pandemia...
O
que parecia uma piada – supor que a Covid-19 duraria mais que um ano –
começa a ganhar contornos de realidade. O cômico virou trágico: já
estamos nos aproximando do final de 2020, e a pandemia de Covid-19 ainda
está longe de ser superada. A expectativa de começarmos 2021 livres
desse problema agora parece ingênua e otimista, e há quem diga que
isolamentos sociais intermitentes continuarão sendo necessários até
2022.
Em
meio à segunda onda que atinge com força os países europeus e às
incertezas sobre os prazos e a real eficácia das vacinas, fica difícil
acreditar em uma solução a curto prazo. Convém adequar as expectativas à
realidade, porque, salvo na cabeça dos negacionistas, não há
perspectiva de retorno rápido à antiga normalidade.
Por
outro lado, a sensação de pânico e descontrole está se atenuando, em
parte por cansaço das pessoas, em parte porque os dados sugerem que a
segunda onda será menos letal que a primeira. As curvas de casos no
planeta voltaram a aumentar e bater recordes, mas as curvas de mortes
não.
Pode
ser um bom momento para voltarmos mais uma vez os olhos para o passado e
perguntar: como foi que a Gripe Espanhola de 1918/1919 terminou?
Como
se sabe, a pior pandemia do século 20 infectou mais de 500 milhões de
pessoas e matou pelo menos 50 milhões, em uma época na qual a população
do planeta era muito menor. No Brasil estima-se o total de mortes em
35.000, sendo 15.000 só na cidade do Rio de Janeiro. A Gripe causou mais
mortes dos que os campos de batalha da Primeira Guerra, mas um dia ela
passou – e sem vacina.
Teremos
que aprender a conviver com o vírus: máscaras, álcool gel e regras de
distanciamento ainda farão parte do cotidiano do planeta por um bom
tempo
Hoje
o consenso é que a Gripe Espanhola (que aliás não começou na Espanha)
terminou mesmo em função da imunização de rebanho, que impediu o vírus
de continuar se espalhando, por falta de hospedeiros. Mas isso só
aconteceu depois que um terço da população mundial teve contato com o
vírus. Houve uma segunda onda (pior que a primeira) e uma terceira onda,
já em 1920. A Covid-19 pode seguir o mesmo padrão?
A
notícia ruim é que, se os números oficiais estiverem corretos, menos de
1% da população atual do planeta já foi contaminada pelo novo
coronavírus. No momento em que escrevo, o site
worldometers.info/coronavirus registra cerca de 41,5 milhões de casos no
mundo inteiro (em uma população de 7,6 bilhões de pessoas). Isso após
quase 10 meses de quarentenas, lockdowns e outras medidas variadas, em
diferentes países. Mesmo que haja subnotificação e que o número real de
infectados seja cinco ou mesmo dez vezes maior, ainda vai demorar muito
para atingirmos a tal imunidade de rebanho.
Ou
seja, teremos mesmo que aprender a conviver com o vírus. Máscaras,
álcool gel e regras de distanciamento ainda farão parte do cotidiano do
planeta por um bom tempo. Mas é claro que uma parte da população não
está nem aí: são as pessoas que se sentem seguras e se mostram
indiferentes aos mais vulneráveis. Atenção: não estou falando de quem
não pode se dar ao luxo de ficar em casa, porque precisa trabalhar e
levar comida para casa, mas daqueles que, sem precisar, buscam as
aglomerações e se comportam como se não houvesse amanhã, ignorando
deliberadamente os riscos de transmissão.
No
final de setembro, a CNN entrevistou três estudiosos da Gripe Espanhola
– o historiador John M.Barry, autor do livro “A Grande Gripe – A
História da pandemia mais mortal de todos os tempos”; o médico Jeremy
Brown, autor de "Influenza – A caçada de 100 anos para curar a doença
mais mortal da História”; e a jornalista Gina Kolata, repórter de
ciência e medicina do jornal “The New York Times” e autora de "Gripe – A
História da grande pandemia de Influenza de 1918 e a busca pelo vírus
que a causou".
Trazendo
boas e más notícias, alimentando esperanças e medos, os três
especialistas fizeram analogias entre a Gripe Espanhola que eclodiu em
1918 e a pandemia de Covid-19 de 2020. Uma das perguntas que os três
responderam foi a seguinte: “Dado o que você sabe sobre a Gripe de 1918,
com o que você está particularmente preocupado agora?”
Barry
respondeu estar preocupado com as sequelas invisíveis da Covid, já que o
vírus pode causar danos permanentes ao coração e aos pulmões dos
infectados, mesmo quando são assintomáticos – danos que poderão afetar
suas vidas daqui a 10 ou 15 anos. Kolata manifestou preocupação com as
pessoas que perderam tudo e não têm o suficiente para comer e com a
geração perdida de estudantes que se formam e não encontram emprego.
Mas a resposta que mais me impressionou foi a de Brown:
“Estou
mais preocupado com o egoísmo das pessoas que têm esse pensamento: ‘Se
eu estou bem, isso é tudo que importa’. A mensagem que vimos nessa
pandemia é que as pessoas são egoístas em um grau notável, como nunca
vimos antes. O egoísmo e a incapacidade de ter empatia por outras
pessoas que não são como elas é um dos aspectos muito, muito
preocupantes que a doença destacou”.
Concordo totalmente.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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