Acreditar que a liberdade de expressão incentiva a intolerância, o racismo, o sexismo e assim por diante é um pouco como tentar fazer a quadratura de um círculo, um problema que humanidade tenta resolver há mais de 2.000 anos. Artigo de Teresa Roque para o Observador:
A
ofensa é subjectiva. Há pessoas com maior poder de encaixe, outras mais
sensíveis. Há pessoas que têm sentido de humor, outras que não.
Sentir-se ofendido é uma escolha pessoal de cada um, não uma escolha de
quem ofende. Se a ofensa é subjectiva, o direito a silenciar os outros é
arbitrário. Será que queremos mesmo deixar esta decisão nas mãos do
Estado ou de um grupo de activistas? Porque, se eu tenho o direito de
não ser ofendido, é necessário que haja alguém que assegure que este meu
direito é protegido. Ou seja, objectivamente, terá de existir alguém
que supervisione o que anda a ser dito e, que, em última instância
decida se de facto existiu ofensa e se é ou não preciso tomar medidas.
Isto evoca a visão pavorosa do mundo retratada no Admirável Mundo Novo
de Huxley.
As
universidades são agora consideradas “locais seguros”, onde os alunos
necessitam de ser protegidos de ideias incómodas. Na minha opinião, a
missão principal de uma universidade é precisamente a de ensinar os
alunos a pensar por si mesmos, a exercitar a sua capacidade de
pensamento crítico, a distinguir factos provados de boatos ou
superstições, a raciocinar logicamente e a evitar cair nos preconceitos
falaciosos que a mente humana é propensa a criar. Tudo isto está ligado a
uma vigorosa liberdade de expressão. Como podem os alunos estimular os
seus intelectos se estiverem rodeados de pessoas que pensam exatamente
como eles?
Crescemos
quando abandonamos a nossa zona de conforto. O desconforto abre-nos a
porta para a tolerância. É o preço que pagamos por viver em democracia e
por podermos tomar parte no intercâmbio aberto de ideias. É também
essencial para o progresso humano. Copérnico ofendeu a igreja cristã ao
afirmar que o Sol estava no centro do sistema solar. Se pensarmos bem,
ainda não há muito tempo, seria considerado ofensivo que alguém
defendesse a ideia de que um homem poderia ser autorizado a fazer sexo
com outro homem.
É
verdade que nem todas as pessoas têm a mesma capacidade para ter
conversas incómodas de forma produtiva. É por essa razão que é muito
importante escolas e universidades desenvolverem o pensamento crítico
nos alunos, encorajarem-nos a exercitar os seus próprios juízos de
valor, a ter a coragem de os expressar e a ser capazes de defender o seu
ponto de vista usando a razão, a lógica e os factos.
Esta
é uma missão impossível se as ideias incómodas não forem permitidas.
Neste momento, a Universidade da Califórnia considera que afirmar que “a
América é uma terra de oportunidades” é uma “microagressão” racista
pois pode levar à interpretação de que aqueles que não foram
bem-sucedidos são os próprios culpados do seu insucesso.
Esta
loucura não está confinada à América. Recentemente, a Politécnica de
Londres obrigou um humorista a assinar um contrato em que assegurava que
adoptaria uma política de tolerância relativamente a “racismo, sexismo,
classismo, idadismo, bifobia, transfobia, xenofobia…” e a lista de
“ismos” continua. Impuseram ainda que todas as piadas fossem
“respeitosas e cordiais”. Pergunto-me sobre que tema poderá este pobre
coitado satirizar? Se há coisa que os britânicos têm de bom, e sabe Deus
que não é a gastronomia, é um sentido de humor fantástico. O seu
declínio entristece-me.
Tudo
deve estar aberto à discussão. Temos de compreender os nossos
adversários, não diabolizá-los. A nossa vida seria muito mais pobre se
nunca mais pudéssemos assistir às deliciosas sessões de Stand-up sobre
Religião de George Carlin ou rir com Ricky Gervais. Aliás tenho dúvidas
de que, nos dias de hoje, a BBC arriscasse produzir “A Vida de Brian”
dos Monty Python.
Vivemos
tempos estranhos e perigosos. Os negacionistas das alterações
climáticas, causadas pelo homem, ou cometem blasfémia contra o evangelho
ecológico da jovem Greta Thunberg ou sofrem de uma perturbação
psicológica grave, uma vez que a negação reflecte “uma dependência do
consumo”. Na realidade este foi o tema de uma recente convenção de
psicólogos nos EUA. Como é possível!
Dizer
que os críticos são loucos ou limitados intelectualmente é disparatado e
perigoso. Reflecte apenas a enorme hostilidade que hoje existe em
relação ao direito básico de expressarmos uma opinião diferente da
opinião da maioria e mostra até onde estamos dispostos a ir para
silenciar qualquer minoria “incómoda”.
E
quanto aos “discursos de ódio”, às “microagressões” ou às “provocações”
contra as minorias? Levam-nos a questionar o que são de facto discursos
de ódio ou microagressões. Algumas situações são óbvias. Um discurso de
ódio que incite à violência deve ser punido. Um discurso de ódio que
seja, na verdade, bullying, também não deve passar impune. Mas há
situações ambíguas. Enquanto sociedade liberal, devemos pautar-nos pela
liberdade de expressão.
Por
exemplo, a França reconhece o direito de blasfemar. A lei permite
insultar uma religião. Todavia, é ilegal insultar, ou incitar ao ódio
contra qualquer pessoa com base nessa mesma religião. Por que razão as
imagens satíricas do Profeta Maomé podem provocar islamofobia e a
humilhação dos crentes na fé muçulmana, é algo que vai para além da
minha compreensão. Como católica, ainda que pudesse considerá-lo de mau
gosto, não ficaria pessoalmente ofendida se Jesus fosse ridicularizado.
Fico
sempre surpreendida com a assunção dos liberais radicais de que
suprimir a liberdade de expressão conduzirá a uma sociedade mais
equitativa, mais justa e mais livre. Acreditar que a liberdade de
expressão incentiva a intolerância, o racismo, o sexismo e assim por
diante é um pouco como tentar fazer a quadratura de um círculo, um
problema que humanidade tenta resolver há mais de 2.000 anos. Os
nacional-socialistas (nazis) não chegaram ao poder por a Alemanha de
Weimar ser um bastião de liberdade, mas, sim, por causa das condições
políticas e económicas muito específicas que se viviam.
Numa
sociedade plural, diremos sempre algo que outros acharão ofensivo. A
liberdade de expressão deve provocar. Pode ser ofensiva, pode ser
injusta e pode até gerar algum preconceito. Mas este é o preço a pagar
por vivermos numa sociedade livre.
A
melhor maneira de combater o discurso de ódio é com um discursos e
ideias melhores. Só podemos exigir o respeito dos outros se os tratarmos
com respeito. Nada se consegue reprimindo a liberdade de expressão. A
liberdade de expressão não pode constituir moeda de troca para com
outras virtudes como o conforto e a inclusão. Por fim, se estiver em
desacordo com isto, é o seu direito à liberdade de expressão que o
permite.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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