Pelé fez mais pela luta antirracismo do que os militantes que, do conforto de suas casas e por trás de uma tela de computador, vivem de promover o ressentimento e a divisão. A crônica de Paulo Polzonoff Jr, publicada diariamente pela Gazeta do Povo:
Pelé
é um gênio. Dizem. Nunca o vi jogar e, sinceramente, se tivesse visto
não saberia reconhecer sua genialidade. Defeito meu, que fui um
perna-de-pau histórico nos campinhos do Bairro Alto e que vou ao estádio
mais para comer e extravasar uma raiva de mentirinha do que para
testemunhar uma batalha entre Coritiba e Toledo que na pena de um Nelson
Rodrigues soaria como um épico.
Mais
do que um “gênio das quatro linhas”, como diz o lugar-comum, Pelé foi,
ao longo de boa parte do século XX, talvez o brasileiro mais famoso do
mundo. Difícil explicar o tamanho disso para uma geração acostumada à
fama típica do nosso tempo, fugaz e restrita a certos nichos. Numa época
em que os televisores eram raros, Pelé era conhecido e admirado até na
remota, exótica e isolada China de Mao.
Uma
fama que se manteve em níveis inimagináveis mesmo décadas depois de
Pelé pendurar as chuteiras e depois do surgimento de megaestrelas do
esporte como Michael Jordan. Para mostrar isso, nos anos 1990 Geneton
Moraes Neto teve uma ideia: soltar Pelé na 5ª Avenida, em Nova York, e
contar quanto tempo ele demoraria para ser reconhecido. Foram poucos
segundos até um taxista largar o carro no meio da rua para saudar o Rei.
Pandemia de estupidez
Por
ocasião de seus 80 anos, é natural que todo mundo queira prestar
homenagem ao maior jogador de futebol de todos os tempos. Mas
infelizmente para o agora octogenário Pelé, a data especial está sendo
celebrada em meio a uma pandemia de estupidez que leva os infectados a
desenvolverem um furor iconoclasta irracional e derrubar estátuas e
enxergar nos mitos esportivos apenas instrumentos de promoção de uma
causa.
Numa
longa reportagem recente sobre Pelé, lá estavam eles, os infatigáveis
justiceiros sociais, para falar não sobre os gols, os dribles, os
passes; sobre o poder hipnótico que aquele homem tinha quando em campo.
Não. Eles, do conforto de suas casas, estavam lá para, surpresa!,
criticar o homem de 80 anos e saúde frágil porque Pelé não teria feito o
bastante pela causa antirracista no Brasil e no mundo.
Pela
cabeça dos que se deixam contaminar pelo vírus da soberba com
consciência de pele e de classe, não basta que Pelé tenha feito a
alegria de milhões de pessoas e sido ele próprio feliz. Os justiceiros
sociais simplesmente não compreendem o conceito de felicidade, muito
menos o de indivíduo. Para eles, a ideia de um homem de 80 anos ter
enfrentado o racismo (que ele certamente sofreu em algum momento da
vida) de uma forma diferente do que manda a ortodoxia contemporânea é
inconcebível. Como assim Pelé nunca usou uma hashtag, nunca quebrou uma
estatuazinha, nunca compôs um rap brabo?
"Heteronormativo demais"
Pelé
nunca foi santo – e não há nada de mau nisso. Ele tem lá suas opiniões
políticas (nas quais não tenho nenhum interesse), seus dilemas morais,
seus interesses financeiros. Sem falar no ego hiperatrofiado,
consequência de seu trabalho, e com o qual ele precisa lidar desde que é
adolescente. Pelé nunca pretendeu ser mais do que o maior jogador de
futebol de todos os tempos – e conseguiu. E é por esse prisma que sua
vida de sucesso deve ser vista e celebrada.
O
que os militantes de hoje (essa gente que não assiste a jogos de
futebol porque consideram o esporte “heteronormativo demais”) não
entendem é que há muitas outras formas de enfrentar o racismo do que
sair por aí quebrando tudo, levantar o braço com o punho cerrado no
pódio, fazer tuitaço ou fundar uma ONG. E nem toda dor ou ato caridade
deve ser tornado pública.
Por
fim, sentencio aqui que há mais discurso antirracismo sincero num dos
tantos gols memoráveis de Pelé do que nesses textos (ou tuítes ou memes)
que fazem a cabeça da garotada e que só promovem o ressentimento, o
desejo de vingança, a divisão.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

Nenhum comentário:
Postar um comentário