Salta à vista que se os factos acima fossem conhecidos em março, dificilmente os governos teriam tomado as medidas que tomaram. Infelizmente, uma vez que entraram no caminho de confinamentos e restrições draconianas, a caminho de volta à normalidade fica muito mais difícil. Artigo de Miguel Botelho Diniz para O Insurgente:
Desde
o início da pandemia de Covid-19, várias pessoas afirmaram que esta não
era pior que a gripe sazonal. No seguimento de uma declaração
do presidente do Brasil em que este afirmou que se contraísse a doença
ela não seria mais grave que uma “gripezinha”, dado o seu estado de
saúde de “atleta”, parte do mundo que fala português passou a incorporar
a expressão “gripezinha” no seu discurso. Especialmente na defesa do
argumento de que a Covid-19 é mais grave que a dita “gripezinha”.
Prima
facie, a gripe não é brincadeira. A expressão “gripezinha” é por isso
muito pouco aconselhável. A pandemia da chamada gripe espanhola
provocada pelo vírus H1N1 infectou uns estimados 500 milhões de pessoas,
cerca de um terço da população mundial na altura, tendo provocado a
morte entre 17 e 50 milhões de pessoas. Uma taxa de fatalidade de 3,4% a
10%, objectivamente superior a qualquer das estimativas actuais de
fatalidade para a Covid-19. Além disso, ainda hoje em dia, um século
depois, estima-se que a gripe sazonal (incluindo outras estirpes além do
H1N1) mate entre 300 mil e 600 mil pessoas por ano.
A
pandemia de Covid-19 terá causado a morte a cerca de 1,1 milhão de
pessoas (à data de hoje). A taxa de fatalidade implícita acumulada,
tendo em conta o número de casos confirmados, é ligeiramente superior a
2,5%. Contudo, tendo em conta as estimativas da OMS de que 10% da população mundial já foi infectada,
essa taxa de fatalidade poderá ser tão baixa como 0,15%. Temos por isso
dois factos em confronto: Por um lado, a Covid-19 está a matar mais
pessoas que a gripe sazonal. Se a mesma proporção de pessoas,
relativamente à pandemia da gripe espanhola, for infectada, um terço,
podemos ter cerca de 3,75 milhões de vítimas. Por outro lado,
historicamente, a gripe foi muito mais mortal.
O
confronto de factos acima referido tem várias explicações. Primeiro, os
cuidados de saúde actuais são muito superiores aos de há um século.
Muito provavelmente, se a humanidade estivesse a enfrentar o virus H1N1
agora pela primeira vez, a taxa de fatalidade seria muito inferior.
Possivelmente ao mesmo nível da taxa que temos na Covid-19. Segundo,
enquanto no caso da gripe a humanidade já teve tempo de criar respostas
imunológicas, naturais ou por vacinação, que tornam a doença menos grave
em quem a contrai, para o virus SARS-CoV-2 (que causa a Covid-19) ainda
não. Finalmente, há estimativas
que indicam que a susceptibilidade da população actual a consequências
graves de Covid-19, necessitando de internamento, está limitada a cerca
de 4% do total, enquanto as condições gerais há 100 anos tornavam
vulenrável uma maior proporção da população.
Infelizmente,
sabemos ainda pouco sobre a evolução real da pandemia de Covid-19. A
diferença entre a estimativa da OMS e os números oficiais é gritante. O
gráfico abaixo indica a mortalidade com Covid-19 para casos
identificados 14 ou 21 dias antes em todo o mundo. Dada a variação que
pode ocorrer de dia para dia por questões de tratamento de dados, bem
como o facto do periodo entre infecção e morte variar, é usada uma média
móvel de 7 dias tanto para mortes como para casos. Os dados foram
obtidos junto do site Our World In Data (OWID).
A
taxa de fatalidade “oficial” parece estar relativamente estável
ligeiramente abaixo de 2%. A nível regional há zonas do mundo onde a
taxa ronda 1% e outras onde ronda 3%. Tipicamente, os países onde a taxa
de fatalidade é mais alta tendem a ser países onde a informação sobre o
número de casos é menos fiável. No entanto, aceitando como válidas as
estimativas da OMS, a taxa verdadeira (0,15%) é 13 vezes menor.
Sabemos
que a tarefa de saber o denominador necessário para o cálculo da taxa
de fatalidade é difícil. A maioria esmagadora das mortes resultantes de
Covid-19 pertecem a grupos de risco, de idade avançada ou com uma ou
mais condições susceptíveis de causar a morte que são agravadas pela
conjugação de doenças. Mas o denominador alcança a quase totalidade da
população, a maior parte da qual não chega nunca a mostrar sintomas.
É
difícil tomar medidas políticas informadas neste contexto. Mas salta à
vista que se os factos acima fossem conhecidos em março, dificilmente os
governos teriam tomado as medidas que tomaram. Infelizmente, uma vez
que entraram no caminho de confinamentos e restrições draconianas, a
caminho de volta à normalidade fica muito mais difícil. A população está
amedrontada pela impressão inicial da doença, que foi acompanhada de um
quase pânico das autoridades face à falta de informação. Este medo
condiciona os decisores políticos, que não querem ficar responsáveis por
quaisquer más notícias que surjam no imediato. O inevitável aumento de
“casos”, independentemente de na sua maioria não terem relavância para a
saúde pública, mantém a tensão social num nível permanentemente alto.
Como avisaram algumas pessoas no início do confinamento: O problema de
seguir este caminho é que não é claro como sair dele.
BLOG ORLANDO TAMBOSI


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