Coluna de Carlos Brickmann,
publicada nos jornais de quarta-feira (que, com certeza, vai apanhar do
bolsonarismo - e, atenção, o blogueiro votou em Bolsonaro mas não é
bolsonarista e acha que o governo virou saci com o afastamento de Moro):
Bolsonaro tem suas culpas – tantas, tão graves, que não é preciso
inventar culpas novas para falar mal dele. No caso da busca e apreensão
no Rio, em que o governador e sua esposa foram atingidos, ele até que
gostaria de ser o responsável pela Operação Placebo da Polícia Federal,
mas o comando é outro: quem pediu ao Superior Tribunal de Justiça que
autorizasse a busca, a apreensão e a quebra dos sigilos foi a
Procuradoria Geral da República. O procurador-geral, Augusto Aras, foi
indicado por Bolsonaro, mas se o STJ autorizou a ação é que havia
motivos para realizá-la. A coisa no Rio parece mesmo brava: dos sete
hospitais de campanha, só três foram entregues. Um hospital, dado como
pronto, só tinha as paredes: o equipamento, já pago, lá não existia. A
empresa terceirizada que cuida da construção e manutenção dos hospitais
já gastou um terço da verba total para seis meses, sem concluir sequer
metade das obras de construção. E a manutenção?
Mas, se o responsável pela operação não é Bolsonaro, que tanto queria
mudar a direção da PF no Rio que por isso até demitiu Sergio Moro, se a
operação ocorreu logo após a mudança por pura coincidência, resta
explicar uma coisa. Na véspera da operação, a deputada ultrabolsonarista
Carla Zambelli disse à Rádio Gaúcha que a Federal iria agir contra
governadores.
Era verdade – mas como é que ela soube? Quem, e por que, violou o sigilo?
Cadê o sigilo?
Carla Zambelli é uma parlamentar pronta a defender o presidente, mas
não está no primeiro escalão bolsonarista. Além dela, quem mais sabia da
operação? Ela sabia de mais coisas: na entrevista, disse que a PF tinha
outras operações “na agulha”, que acabaram não sendo feitas.
De novo a pergunta: como é que sabia? O senador Flávio Bolsonaro,
filho do presidente, garante que começou o tsunami. É só palpite ou sabe
de algo? Se sabe, como?
De tudo um muito
O Ministério Público diz ter provas de que houve fraude no orçamento
até dos geradores dos hospitais de campanha do Rio. Mais: que, no topo
da organização que fraudou o orçamento, está o governador Wilson Witzel.
Primeiro o deles
Há gente arriscando a vida para cuidar de quem contraiu o
coronavírus. Há gente que se mobiliza para ajudar os que, por causa do
coronavírus, estão precisando de dinheiro, comida e roupas. Há empresas
que fizeram pesadas doações para ajudar a combater a pandemia – entre
elas, louve-se enfim, a sempre criticada JBS, que também não demitiu
funcionários. E há gente que, mesmo sabendo dos problemas que os vários
governos enfrentam para pagar os custos do combate ao coronavírus, dão
de ombros. E daí? Não é com eles.
Na Bahia, um lúgubre retrato do que pode acontecer. No Tribunal de
Justiça, saiu uma listinha de salários. Lembre: diz a lei que nenhum
salário pago por cofres públicos pode ultrapassar o de ministro do
Supremo, algo como R$ 40 mil mensais. Nos Estados, são cerca de R$ 36
mil. Na lista de 19 nomes do TJ da Bahia, o menor salário é de Itabuna,
de um diretor de Secretaria de Vara, R$ 39.722,80. O maior é de
Salvador, de um subescrivão de gabinete de desembargador, R$ 54.563,22.
No miolo da lista, há um escrivão, com R$ 45.1448,29; um atendente de
recepção, R$ 50.305,29; um técnico de nível médio, R$ 47.298,65. Tudo
deve estar bem explicadinho, com certeza. E ajuda a encontrar a
explicação da falta de dinheiro para pagar funcionalismo.
Alô, alô, colegas!
Não existe “protesto a favor”. Existe “manifestação a favor”.
Protesto é uma manifestação contrária. Portanto, “protesto a favor de
Bolsonaro” é uma contradição em termos: ou é protesto, ou é a favor.
Segundo: na manifestação deste final de semana na avenida Paulista, em
São Paulo, havia pelo menos uma bandeira da Pravy Sektor, a milícia
fascista da Ucrânia. Deve ter sido falha deste colunista, que não viu
menção a esta bandeira, nem entrevistas com quem a transportava. Só vi
uma menção à Ucrânia, que talvez seja fake news: uma entrevista
atribuída a Sara Winter, ex-feminista que hoje lidera um grupo radical
de bolsonaristas. Segundo o áudio que lhe é atribuído, ela diz ter sido
treinada na Ucrânia e que chegou a hora de ucranizar o país.
Tem de saber puxar
John Foster Dulles, o secretário de Estado do presidente Eisenhower
(1953-1961) disse que os Estados Unidos não tinham amigos, mas países
com interesses comuns. O presidente Bolsonaro, ingênuo ao ponto de achar
que ele e seu filho tinham conquistado a amizade do presidente Trump,
já enfrentou problemas mais de uma vez (como na indicação para a
Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico, OCDE). Agora
Trump proibiu a entrada nos EUA de pessoas que tenham passado pelo
Brasil há menos de 14 dias, já que aqui o coronavírus cresceu
exponencialmente.
Até aí, vá lá; mas as palavras de Trump foram duras, “não quero ninguém entrando aqui para infectar nossos cidadãos”. Muy amigo.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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