A ideia que os “nãos” traumatizam as crianças não é verdade. Traumatiza
mais que não tenham pais que sejam claros acerca dos “nãos”. E que, por
falta deles, as obriguem a andar de exagero em exagero. Artigo de
Eduardo Sá, publicado pelo Observador:
Devagarinho — eu acho — foi ganhando espaço a ideia que não devemos
“forçar”, “impor” ou “exigir” alguns comportamentos ou certas mudanças
aos nossos filhos. Porque “eles têm pouco tempo para ser crianças”.
Porque isso seria pouco “democrático”. Ou porque devemos dar a
oportunidade de lhes caber a eles o momento em que decidam abandonar um
determinado comportamento. Seja prescindirem da chupeta. Abandonarem as
fraldas. Ou deixarem de acabar todas as noites no quarto dos pais. No
fundo, foi-se criando a ideia que contrariar é traumatizar. Como se
qualquer não, sem um “comboio” de explicações e de justificações, doesse
a uma criança.
Ora, não questiono que um “não doa. Nem a bondade da intenção com que
os pais e os seus “nãos” se vão relacionando com as crianças. Mas acho
que muitos pais talvez tenham crescido com tantos “nãos” tão imperativos
e pouco razoáveis que, na ânsia de darem aos filhos a oportunidade
deles terem a opinião que os pais não puderam ter, construíram esta
ideia de um não “amigo” do traumatismo. Mas o “não!” não é traumatismo. É
como o norte para a bússola.
A noção de traumatismo foi, em boa hora, trazida pela psicanálise
para o senso comum. Porque há mais de cem anos, se assumiu que a
infância não era um passeio. Que as crianças não andavam todas
distraídas. E que as experiências de sofrimento infantil condicionavam —
muitas vezes, gravemente — o desenvolvimento de inúmeras crianças, para
toda a vida. Trazendo-lhe imagens dolorosas que pareciam ser “nódoas
difíceis”. E que, quer estivessem elas no Saara ou nas Galápagos, as
“perseguiriam”, por dentro. E que, contra a sua intenção, acabariam a
projectar-se noutras relações significativas que viessem a ter. E a
enviesá-las. Tornando-as muito semelhantes àquelas que terão gerado
esses estados de tristeza e de angústia. Como se tais cicatrizes fossem
uma espécie de “destino” que parecia perpetuar, noutras relações, o
sofrimento infantil.
Nenhuma infância é “cor de rosa”. Da infância guardam-se todas as
memórias. Quer a memória da tarte de maçã da avó como do colo fofo da
mãe, quando ela canta. Como daquilo que assustou. Do tom, ora misterioso
ora “cheio de picos, do olhar dos nosso pais. Ou das situações
infelizes que, sem quererem, eles nos criaram. Às vezes, levamos a vida
toda à espera que algumas destas memórias se apaguem. Como se
desejássemos passar a ser indiferentes diante delas. Por mais que
algumas “não deixem”.
Os pais são, de facto, os primeiros e os grandes responsáveis por
sermos como somos. E, muito longe de representar alguma coisa com que
devam atormentar-se, isso deve ser um motivo do maior orgulho para todos
eles! Se bem que, porque os pais não são perfeitos, haja sempre alguns
episódios que todos ganharíamos se nunca tivessem existido. Porque doem,
mesmo quando se recordam. É em relação a estes episódios que é
tremendamente sensível falar-se da responsabilidade dos pais. Porque
eles vivem isso como se alguém os estivesse a culpar. E não é verdade.
Os pais são responsáveis; mas não são culpados. As coisas acontecem não
por eles quererem. Mas porque não as conseguiram evitar.
Aquilo que incomoda todos os pais é que não se cresça sem dor. Não
sermos omnipotentes e sermos contrariados dói e deixa triste. Uma
desilusão dói e deixa triste. Uma frustração, um conflito ou um
insucesso doem e deixam tristes. Por mais que os pais se aflijam quando
sentem um filho a viver uma dor ou, simplesmente, a sofrer, a dor traz
contraditório à felicidade. E, por estranho que pareça, dentro de alguns
limites, ela ajuda a crescer. Porque nos leva a apurar os nossos
desejos e as nossas convicções. Porque nos desafia para a garra e para a
determinação. Porque nos torna perseverantes. E, já agora – porque há
sempre episódios grandes e pequenos que nos irão magoar pela vida fora –
porque nos ajuda a aprender a viver com a dor. A reagir-lhe. E a
vencê-la.
É por isso que esta ideia que os “nãos” traumatizam as crianças não é
verdade. Traumatiza mais que elas não tenham pais que sejam claros
acerca dos seus “nãos”. E que, por falta deles, as obriguem a andar de
exagero em exagero à procura de quem lhes defina o perímetro daquilo que
podem fazer e as proteja.
É porque as crianças não têm a vida toda para serem crianças que os
“nãos” dos pais as protegem. Por outras palavras, é melhor que elas
sejam crianças para sempre, que guardem, sobretudo, memórias boas,
cheias, intensas de episódios que viveram com os pais, apesar dos “nãos”
que eles lhes exigem; do que haver a sensação duma atmosfera onde os
“nãos” surgem quando elas os aceitem, o que as torna “mandonas”,
rezingonas e “agitadotas”. Com um senão: se o “porque não” do “não,
porque não!” dos pais de hoje é, no essencial, sustentado pelos seus
bons exemplos (dos quais as crianças extraem os motivos de cada não), o
“não, porque não!” de antigamente seria mais: “olha para o que eu digo,
não olhes para o que eu faço”. Por outras palavras, há uma diferença
entre os pais democráticos, cuja autoridade resulta dos bons exemplos, e
os pais que confundem autoritarismo com respeito. Os primeiros,
percebem que ser feliz não é o contrário de estar triste. Logo, se a
imensa maioria dos pais é assim, porque temem eles o “não”, se sem ele
as crianças não aprendem o sim?
Crianças felizes não são aquelas que podem fazer aquilo que lhes dá
na “real gana”, até quando lhes apeteça. Essas, são crianças, sim. Mas
são mais vezes “pais” delas próprias do que deviam. Porque precisam de
ser elas a definir aquilo caberia aos seus pais fazer. E, se a ideia é
que todas as crianças possam ser crianças por todo o tempo em que possam
ser crianças, crescendo assim serão “menos crianças”, por menos tempo. E
crescerão com mais dor onde podia existir mais felicidade. E isso é
mau.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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