Contra tudo e contra todos, inclusive os antitrumpistas que decretaram
prematuramente sua morte, manifestantes iranianos desafiam regime brutal
dos aiatolás. Vilma Gryzinski:
As coisas que estão acontecendo no Irã são extraordinárias, quase surreais.
Nas mesmas cidades onde milhões de iranianos surtaram coletivamente
com a passagem do cortejo fúnebre de Qasem Soleimani, outros cidadãos,
em número menor, mas com incomparável coragem, estão fazendo o exato
oposto.
Gritam “Abaixo do ditador”, referindo-se ao octogenário que
supostamente deveriam venerar como o Líder Supremo da revolução
islâmica.
Pedem “Morte aos mentirosos”, todos os integrantes do regime que
negaram, negaram e negaram, até não dar mais, que um míssil disparado
por engano incinerou 176 vidas inocentes no avião ucraniano que,
absurdamente, confundiu com um foguete supostamente americano.
Rasgam cartazes com Qasem Soleimani, consagrado como mártir não só
por todo o regime e as forças que o apoiam – e chega, absurdamente, até
meios de comunicação dos Estados Unidos.
Entre os manifestantes, muitas mulheres que mandam não só o shador, o
véu preto obrigatório na cabeça, como a prudência para o espaço.
Mais inacreditavelmente ainda, estudantes da universidade Beheshti
tomaram deliberadamente o cuidado de se espremer contra as laterais da
entrada do conjunto de prédios.
Objetivo: não pisar nas bandeiras dos Estados Unidos e de Israel pintadas no chão exatamente para serem ultrajadas diariamente.
Vaiaram os que fizeram o que já foi feito tantos milhares de vezes e andaram sobre as bandeiras pintadas no asfalto.
Alguns gritaram: ”Os inimigos estão no Irã”.
Como é obrigatório hoje, as redes sociais bombaram com comentário que
refletem uma imagem completamente contrária de coesão no luto nacional
por Soleimani.
“Estou acreditando mais no Satã”, dizia uma delas, em referência ao nome habitual usado para os Estados Unidos.
O catalisador das manifestações foi a derrubada do avião, cinicamente
negada contra todas as evidências, mas a revolta contra o regime já vem
de muito tempo.
O onipresente Soleimani armou a repressão que matou iranianos por não
gostarem do governo e levou o modelo para o Iraque, onde a revolta era
muito maior.
Uma quantidade extraordinária de jornalistas americanos garantiu que
os mísseis que incineraram Soleimani e sua turma, sem provocar nem uma
única baixa colateral, significavam a morte dos protestos no Irã e no
Iraque.
Todos estariam unidos na revolta contra a morte de Soleimani ou não ousariam se manifestar num momento tão perigoso.
Errados, errados e errados.
Com uma coragem extraordinária para quem tem alguma ideia dos perigos
que correm, iranianos e iraquianos nem pediram licença para discordar.
Simplesmente, voltaram para as ruas.
CORREÇÃO: No post intitulado “Oriente Médio: dez fatos para esfriar a
cabeça depois do susto”, o primeiro-ministro iraquiano é chamado de
Nuri Malik. Errado, errado e errado. O primeiro-ministro é Adel
Abdul-Mahdi. E parece que está fazendo uma conhecida encenação: pede em
público a retirada dos americanos, mas diz o oposto em particular.
Aos leitores, mil perdões pelo erro.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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