Não faz sentido ficar revoltado com Bolsonaro porque ele pensa diferente
de você – e por não fazer um governo parecido ao que Fernando Haddad ou
Fernando Henrique, por exemplo, possivelmente fariam. Para isso será
preciso esperar pela próxima eleição. J. R. Guzzo, na Gazeta do Povo:
Um dos inconvenientes que causam mais irritação nas democracias é que
elas exigem eleições livres para receberem o certificado oficial de
democracia – e o grande inconveniente das eleições, como todo mundo
sabe, é que você pode perder. Nesse caso, vai para o governo gente que
não faz nada daquilo que, na sua opinião, um governo decente deve fazer.
Os ministros não são aqueles que deveriam ser nomeados. As
declarações do presidente a República e da turma que está com ele estão
sempre erradas – são ofensivas, absurdas, retrógradas, perigosas ou
simplesmente cretinas. Nada que o governo propõe está certo. Tudo o que
não está fazendo deveria ser feito. O presidente, em vez de ouvir a
oposição, ouve os seus eleitores. Em vez de falar para a esquerda, fala
para a direita. Enfim: é um transtorno.
O Brasil está vivendo um momento exatamente assim. O presidente Jair
Bolsonaro e seus ministros, sobretudo os que dão a impressão de serem
mais parecidos com ele, são criticados, frequentemente com indignação,
por dizerem e fazerem as coisas que disseram que fariam antes das
eleições – coisas que, no final das contas, são justamente as que os
levaram a ser eleitos.
Não se leva em conta, ao mesmo tempo, que não está acontecendo
nenhuma das catástrofes que os perdedores da eleição diziam que o
presidente iria produzir: o genocídio dos homossexuais, dos índios e das
mulheres, a guerra civil provocada pela “liberação das armas”, a
liquidação da democracia e sabe lá Deus o que mais. Em suma: ele leva
nota ruim quando tenta fazer o que prometeu, e não leva nota boa quando
não faz nenhuma das barbaridades que deveria estar fazendo.
Bolsonaro pode acabar seu mandato como um bom presidente ou como um
mau presidente – isso ficará perfeitamente claro com os resultados
objetivos que o seu governo apresentar. Mas não é razoável exigir que
ele presida o país como os seus adversários querem. Sua obrigação, ao
contrário, é fazer o que os seus eleitores esperam que ele faça; é
cumprir o que prometeu a eles durante a campanha.
Tudo isso pode ser muito desagradável, mas os quase 58 milhões de
brasileiros que votaram em Jair Bolsonaro para presidente foram a
maioria do eleitorado no momento da eleição. Essa maioria tem anseios de
direita, ou conservadores, e entregou ao atual presidente a incumbência
de cumpri-los. Tem valores que pretende ver apoiados. Essas pessoas são
contra tudo o que cheire a Lula e a esquerda. São contra a corrupção.
São contra a incompetência dos governos petistas. Bolsonaro erra, na
verdade, todas as vezes que não cumpre o que prometeu a quem votou nele.
É evidente que o Brasil é maior que o eleitorado bolsonarista; é
dever do presidente, assim, governar para todos os cidadãos, e não
apenas para os seus seguidores. Mas não faz sentido ficar revoltado com
Bolsonaro porque ele pensa diferente de você – e por não fazer um
governo parecido ao que Fernando Haddad ou Fernando Henrique, por
exemplo, possivelmente fariam. Para isso será preciso esperar pela
próxima eleição.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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